Universidade federal da paraíba centro de educaçÃO




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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

CURSO DE DOUTORADO EM EDUCAÇÃO

MARIA DA GUIA RODRIGUES RASIA
PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL NA FORMAÇÃO DOCENTE: ESTUDO SOBRE A APROPRIAÇÃO DA OBRA DE VIGOTSKI EM CURSOS DE LICENCIATURAS DO ESTADO DA PARAÍBA

João Pessoa – PB

2009

MARIA DA GUIA RODRIGUES RASIA


PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL NA FORMAÇÃO DOCENTE: ESTUDO SOBRE A APROPRIAÇÃO DA OBRA DE VIGOTSKI EM CURSOS DE LICENCIATURAS DO ESTADO DA PARAÍBA

Tese apresentada ao programa de Pós-Graduação em Educação, do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba - CAMPUS I, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor em Educação (Linha de pesquisa: Políticas Públicas e Práticas pedagógicas).

Orientadora:

Profa. Dra. Ana Dorziat Barbosa de Melo

Co-orientadora:

Profa. Dra. Ângela Maria Dias Fernandes


João Pessoa - PB

2009


R222p Rasia, Maria da Guia Rodrigues.

Psicologia histórico-cultural na formação docente: estudo sobre a apropriação da obra de Vigotski em cursos de licenciaturas do Estado da Paraíba / Maria da Guia Rodrigues Rasia.- João Pessoa, 2009.

222f.


Orientadora: Ana Dorziat Barbosa de Melo

Co-orientadora: Ângela Maria Dias Fernandes

Tese (Doutorado) – UFPB/CE

1. Práticas Pedagógicas. 2. Formação docente. 3. Psicologia histórico-cultural – formação docente.


UFPB/BC CDU: 37.013(043)


MARIA DA GUIA RODRIGUES RASIA


PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL NA FORMAÇÃO DOCENTE: ESTUDO SOBRE A APROPRIAÇÃO DA OBRA DE VIGOTSKI EM CURSOS DE LICENCIATURAS DO ESTADO DA PARAÍBA
Tese apresentada ao programa de Pós-Graduação em Educação, do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba - CAMPUS I, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor em Educação (Linha de pesquisa: Políticas Públicas e Práticas pedagógicas).

BANCA EXAMINADORA:


_________________________________________________________

Profa. Dra. Ana Dorziat Barbosa de Melo



ORIENTADORA - PPGE – UFPB
__________________________________________________________________

Profa. Dra. Ângela Maria Dias Fernandes

CO- ORIENTADORA - PPGE – UFPB
___________________________________________________________________

Prof. Dr. Severino Bezerra da Silva

PPGE – UFPB
____________________________________________________________________

Prof. Dr. Newton Duarte

PPGE – UNESP
____________________________________________________________

Profa. Dra. Maria de Fátima Pereira Alberto

DP – CCHLA – UFPB

Ao meu esposo Beto, companheiro de todas as horas, que com sua presença silenciosa, tanto me disse a respeito do bem e dos nossos sonhos, sempre me estimulando e compartilhando minhas conquistas.
Aos meus filhos Larissa, Leandro e Lisandra, cujo afeto foi fundamental para a realização deste estudo.
Ao meu pai, Antônio Rodrigues, que partiu antes da conclusão desta tese, mas que, de outros horizontes inspira-me a esperança na humanidade.
À Profa. Dra. Ângela Dias, companheira, que não mediu esforços para concretização desta tese.
Dedico.
AGRADECIMENTOS

Aos meus filhos, pela compreensão dos momentos não partilhados, dos passeios não realizados e das poucas conversas. Pelo amor que me dedicaram e pela compreensão que tiveram quando precisei me ausentar, porém, sem deixar, um só segundo de tê-los no meu coração. Eu amo vocês.


À Beto, por ter sido companheiro, pai e mãe de nossos filhos, nos momentos de minha ausência.
À Profa. Dra. Ana Dorziat Barbosa de Melo, que se dispôs a me orientar, pela confiança e respeito a minha construção intelectual. Sua postura possibilitou o meu crescimento como pessoa e como intelectual comprometida com as questões da educação.
À Profa. Dra. Ângela Maria Dias Fernandes, pela competência, sabedoria e dedicação, atenção e disponibilidade. Pelo exemplo e sustentação no que há de expressivo no convívio acadêmico: a busca do conhecimento comprometido com a transformação da base material da existência humana.
Ao professor Dr. Newton Duarte, pelas observações críticas e sugestões feitas por ocasião do exame de qualificação. Agradeço ainda, sua atenção e contribuição quanto ao referencial teórico, incentivando a reflexão concretizada nesta tese.
Ao Professor Cícero Agostinho (“meu guru”), pela revisão cuidadosa do texto final, utilizando, inclusive, para isto, seus finais de semana.
Aos colegas da minha turma, em especial, Niedja e Adelmo, pelo ombro amigo e pelo incentivo nos desafios e parceria em tantos momentos de construção conjunta de conhecimento.
Aos professores das instituições pesquisadas, por terem concordado em participar da pesquisa, no anseio de vê-la revertida em produto para o trabalho por eles desenvolvido.
Ao DE/CEDUC/UEPB. A liberação e a solidariedade dos colegas que sustentaram minha saída, para que agora eu retorne e com eles compartilhe o conhecimento acumulado nesses anos de estudo.
Ao PPGE: À sua coordenadora Adelaide Dias. Ao vice-coordenador Charliton pelo atendimento respeitoso no desempenho de suas atividades. Às funcionárias, representadas nas pessoas sempre disponíveis de Graça e Rosilene.
À profa. Carmem, que gentilmente contribuiu com a tradução do resumo para o francês.
Aos demais aqui não nomeados diretamente. Com certeza há muitas pessoas ou estruturas que não estão sendo lembradas, apesar de terem apoiado e direta ou indiretamente contribuído para a realização deste estudo. A esses, também o meu reconhecimento.

Esse novo enfoque nos revela que a realidade determina nossa experiência; que a realidade determina o objeto da ciência e seu método, e que é totalmente impossível estudar os conceitos de qualquer ciência prescindindo das realidades representadas por esses conceitos.

L. S. Vigotski

RESUMO


A presente tese tem como objetivo compreender como tem se dado a apropriação da obra de Vigotski pelos professores que lecionam os conteúdos de Psicologia Educacional em cursos de Licenciatura em Pedagogia e Psicologia do Estado da Paraíba. Os instrumentos investigativos - entrevistas e planos de curso dos componentes curriculares - possibilitaram a análise do modo de apropriação da obra deste autor. As categorias para a apreciação dos dados da investigação, pautadas nos pressupostos filosóficos e metodológicos do materialismo histórico dialético, presentes na obra de Vigotski, foram as seguintes: contradição, humanização, alienação, trabalho, objetivação, apropriação, totalidade e historicidade. Essas categorias são fundamentais para a compreensão da formação docente, enquanto processo de constituição humana. A análise das informações permitiu identificar os diferentes níveis de apropriação da teoria vigotskiana, demonstrando, ainda, a existência de uma diversidade de leituras que vem sendo feitas, por aqueles que se aproximam de seus fundamentos. O desafio que se apresenta, após esse trabalho de investigação, se situa no enfrentamento e na complexidade do processo de articulação da Psicologia Histórico-cultural com a formação docente. Tal desafio está, não apenas em contribuir com o desenvolvimento dos conhecimentos que essa área disponibiliza, mas, em instrumentalizar o professor, para que ele possa priorizar o aprofundamento conceitual da teoria vigotskiana, descortinando novos horizontes para a compreensão do significado e relevância da história social humana e da dinâmica do processo da atividade objetivadora dos seres humanos. Esta pesquisa aponta, ainda, para a necessidade de ampliação da aplicabilidade de tal aporte teórico de modo que se possa melhor contribuir na formação de professores, buscando novas possibilidades de intervenção na prática social a partir da educação.

Palavras-chave: Psicologia Histórico-Cultural – Formação Docente – Apropriação.

RÉSUMÉ

Cette thèse a pour but de comprendre comment les professeurs qui enseignent de la Psychologie de l’éducation dans les cours de Pédagogie et de Psychologie à l’État de la Paraíba s’approprient l’Œuvre de Vygotski.Les instruments d’investigations – entretiens et plans de cours – ont possibilité l’analyse de cette appropriation. Les catégories pour l’appréciation des données de l’investigation, basés sur les présupposés philosophiques et méthodologiques du matérialisme historique dialectique présents dans l’ Œuvre de Vygotski ont été les suivants : la contradiction, l’humanisation, l’aliénation, le travail, l’objectivation, l’appropriation, la totalité et l’historicité. Ces catégories sont fondamentales pour la compréhension de la formation du professeur comme processus de constitution humaine.L’analyse des informations a permis d’identifier les différents niveaux de l’appropriation vygotskienne en démontrant l’existence d’une diversité de lectures qui sont faites par ceux qui s’approchent de ses fondaments. Le défi qui se présente après cette investigation se trouve dans la compléxité du processus de l’articulation de la Psychologie Historique-Culturelle avec la formation du professeur. Ce défi n’est pas seulement contribuer au développement des connaissances que ce domaine offre, mais d’instrumentaliser le professeur pour qu’il puisse prioriser le concept de la théorie vygostskienne en apercevant des nouveaux horizons pour la compréhension du significat et l’importance de l’histoire sociale humaine et de la dynamique du processus de l’activité objective des êtres humains.Cette recherche présente le besoin d’augmenter l’applicabilité de cet apport théorique pour contribuer à la formation des professeurs en cherchant des nouvelles possibilités d’intervention dans la pratique sociale à partir de l’éducation.

Mots-Clés: Psycologie Historique-Culturelle. Formation de Professeur. Appropriation.

ABSTRACT


This thesis aims to understand how the appropriation of Vigotski’s work has been done by Educational Psychology teachers in Pedagogy and Psychology Licentiature courses in the State of Paraíba. The research instruments – interviews and syllabus course plans – made it possible to analyse the manner of appropriation of Vigotski’s works. The categories for appreciating the research data, outlined in the philosophical and methodological rationale regarding historical dialectic materialism, contained in Vigotski’s work, were the following: contradiction, humanization, alienation, labor, objectivation, appropriation, totality and historicity. These categories are essential for understanding teacher education, if we see it as a human constitution process. The data analysis allowed us to identify the different levels of appropriation of Vigotskian theory, and it even showed the existence of a wide diversity of reading done by those who approach his fundamentals. The challenge presented to us, after the investigation, lies in facing the complexity of the articulation process in Historical-cultural Psychology, with teacher education in view. Such challenge means, not only contributing to the development of knowledge available in this area, but also enabling the teacher to give priority to the conceptual insight of Vigotskian’s theory, unveiling new horizons towards the understanding of the meaning and relevance of human social history, and grasping the dynamic of the objectivating activity process in human beings. This research also points to the necessity of widening the applicability of such theoretical background, so that we can better contribute to the education of teachers and search for new possibilities of intervening in the social practice through education.

Key-words: Historical-Cultural Psychology – Teacher Education – Appropriation.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 11


CAPÍTULO 1 – BASE METODOLÓGICA DO ESTUDO 24
1.1 O CONTEXTO DA PESQUISA 29

1.1.1 Os sujeitos da investigação 37


1.2 OS INSTRUMENTOS INVESTIGATIVOS E A COLETA DOS DADOS 39

1.2.1 Entrevista semi-estruturada 39

1.2.2 Questionário sócio-cultural 40

1.2.3 Planos de curso 40


1.3 CATEGORIAS PARA A ANÁLISE DOS DADOS 41
CAPÍTULO 2 – A FORMAÇÃO DOCENTE E A TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL 47
2.1 ATUAÇÃO DOCENTE EM CURSOS DE LICENCIATURA 51
2.2 CONHECIMENTO PSICOLÓGICO E FORMAÇÃO DOCENTE 64
CAPÍTULO 3 – A PSICOLOGIA E SUAS IMPLICAÇÕES EDUCACIONAIS 73
3.1 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO 91
3.2 PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM 94
3.3 PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 97
3.4 PSICOLOGIA E CONSTRUTIVISMO 101
CAPÍTULO 4 – A PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL DE VIGOTSKI 109
4.1 O CONTEXTO HISTÓRICO DA TEORIA VIGOTSKIANA 110
4.2 O EMBASAMENTO MARXISTA DA TEORIA DE VIGOTSKI 113
4.3 ALGUNS PRESSUPOSTOS DA PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL 117

4.3.1 A relação entre indivíduo e sociedade 118

4.3.2 Desenvolvimento e aprendizagem 121

CAPÍTULO 5 – O PERFIL DO PROFESSOR DE PSICOLOGIA 127

CAPÍTULO 6 – A APROPRIAÇÃO VIGOTKIANA REVELADA PELOS PROFESSORES 139
6.1 A APROPRIAÇÃO REVELADA NOS PLANOS DE CURSO 139

6.1.1 As Obras de Vigotski citadas nos planos de curso 143


6.2 A APROPRIAÇÃO REVELADA NAS ENTREVISTAS 147

6.2.1 Teóricos mais relevantes para a formação docente 147

6.2.2 Principais fontes de informações sobre a teoria vigotskiana 158

6.2.3 Obras de Vigotski e autores mais estudados 161

6.2.4 Conceitos mais importantes da teoria de Vigotski para a formação docente 164

6.2.5 Contribuição da teoria de Vigotski para a educação e para a formação docente 169


CONSIDERAÇÕES FINAIS 177
REFERÊNCIAS 188
APÊNDICES 201
APÊNDICE 1 – QUESTIONÁRIO SÓCIO-CULTURAL 202
APÊNDICE 2 – ROTEIRO DE ENTREVISTA 207
ANEXO 208
PLANOS DE CURSO 209
INTRODUÇÃO
A escolha do tema “Psicologia Histórico-Cultural na Formação Docente: estudo sobre a apropriação da obra de Vigotski em cursos de Licenciatura em Pedagogia e Psicologia no Estado da Paraíba” surgiu da necessidade de saber como a obra deste autor está sendo compreendida nos referidos cursos, buscando estudar e analisar a seguinte questão: Que tipo de apropriação da obra de Vigotski1 é feito pelos professores que lecionam os conteúdos de Psicologia Educacional nesses cursos?

Essa escolha foi fortemente influenciada por minha experiência profissional, que se iniciou como professora no 1o. grau noturno, em uma escola da rede privada de ensino. Nessa mesma época, iniciava minha trajetória como psicóloga organizacional, atuando no setor de recrutamento, seleção e treinamento de pessoal numa indústria de tecelagem. Foi na convivência com operários, na fábrica e em contatos diretos, ao nível de uma aproximação além da sala de aula, com alunos, que passei a refletir sobre a filosofia do capitalismo em que vivemos. Devo a essa experiência o início do meu despertar crítico, em função de um grupo de trabalho que constituía o operariado da fábrica. Mas, no desempenho da função docente, sentia-me despreparada para lidar com as possíveis dificuldades de ensino e aprendizagem que surgiam no cotidiano da sala de aula, por isso a necessidade de um respaldo pedagógico se fez presente.

A aprovação em concurso público, na área de Psicologia da Educação na UEPB no ano de 1991, fez parte de um momento decisivo em minha vida. A opção pela vida universitária não foi fruto do acaso ou de oportunidade casual, mas de uma decisão consciente e segura. Passei a lecionar nas diversas licenciaturas, convicta de que, há muito a ser feito para que ocorra mudança substancial na escola e que a formação docente qualificada poderá alterar determinados quadros do atual cenário, muito embora, as dificuldades que encontramos na luta pela melhoria dessa formação, sejam tão grandes, quanto àquelas que encontramos para a transformação da educação escolar contemporânea.

Preocupa-me o modo como os governantes vêm conduzindo as questões referentes à educação. De acordo com análise realizada por Duarte (2000), a educação no Brasil encontra-se a serviço dos fortes ventos da ideologia neoliberal e pós-moderna que sopram mundialmente. É suficiente citar o baixo salário dos professores, em todos os níveis de ensino, o que confere a necessidade de jornadas de trabalho cansativas e improdutivas, na intenção de obter um salário minimamente digno, comprometendo a qualidade do trabalho educativo. Isso sem calcular a perda do prestígio social da carreira do professor, como resultante desses mesmos fatores econômicos e políticos. Além disso, as políticas educacionais atuais, em sintonia com essa mesma ideologia, têm acenado para um aligeiramento da formação intelectual dos docentes, colaborando, desse modo, para um nítido prejuízo na qualidade da formação teórica dos mesmos.

No âmbito da educação e das pesquisas educacionais, é inquietante o grande desprestígio da teoria e da própria reflexão teórica em favor de um pragmatismo imediatista. Coaduna-se com esse mesmo processo, a secundarização do papel do professor como transmissor/produtor dos conhecimentos acumulados no percurso da história da humanidade, em detrimento de uma suposta centralidade do aluno nos processos de ensino-aprendizagem, bem como, de uma construção independente dos conhecimentos, desprezando-se, assim, o caráter transmissível destes.

Como professora do componente Psicologia da Educação, deparo-me constantemente com desafios colocados por colegas e alunos (as), buscando explicações e soluções para os problemas de aprendizagem. Por exemplo: por que o aluno com potencial cognitivo bem estruturado apresenta dificuldade na aprendizagem escolar? Vejo-me diante de professores e técnicos em educação que, na busca de uma explicação do não aprender, creditam a dificuldade de instruir-se como decorrente da desatenção, da inquietação, da desmotivação do aluno.

Por ocasião do curso de mestrado, pude constatar a necessidade de aprofundar conhecimentos acerca do processo educativo numa perspectiva que ampliasse as hipóteses construídas sobre aprendizagem e desenvolvimento humano. Ao ler Vigotski, apreendi que esse teórico, diferentemente de Piaget, se aproxima de uma tendência educacional de caráter mais social e dialético. Mesmo assim, ainda não havia iniciado um estudo mais aprofundado da sua obra: minhas leituras resumiam-se aos livros Formação Social da Mente, Pensamento e Linguagem e depois o livro Psicologia Pedagógica. Posteriormente, compreendi que, possivelmente, os avanços realizados em direção a uma Psicologia marxista fizeram com que esse teórico progredisse em direção a superação de algumas idéias expostas no livro Psicologia Pedagógica.

Ao estudar Vigotski e o que escreveram a seu respeito, acreditava ser possível dar um novo rumo a minha prática. Foi então que a grande importância das suas idéias, na esfera educacional, começou a se tornar óbvia para mim. Tal importância é, portanto, decorrente de um processo de estudos e idéias que me faz confiar na base epistemológica marxista da teoria vigotskiana, como possibilidade para o conhecimento científico sobre o indivíduo real, vivo, que age e se descobre como síntese de um sistema de relações sociais ao mesmo tempo em que é sujeito dessas relações.

Fundamentada no marxismo e adotando o materialismo histórico e dialético como filosofia, teoria e método, a Psicologia Histórico-Cultural de Vigotski compreende o homem como ser ativo, social e histórico. Nesta perspectiva teórica, a sociedade é produção histórica dos homens que, por intermédio do trabalho, constroem sua vida material. As idéias são consideradas como representações da realidade material e tal realidade é fundada em contradições que se expressam na idéias. A história é definida como o movimento contraditório do fazer humano, pelo qual, partindo da base material precisa ser entendida toda produção de idéias, inclusive da Ciência e da Psicologia.

O interesse pelas obras do psicólogo russo foi se intensificando, principalmente quando ministrava aulas de Psicologia da Educação nos cursos de Especialização em Psicopedagogia e Formação do Educador. Durante os encontros com os alunos da especialização, quase todos profissionais em escolas (supervisores, coordenadores, orientadores, diretores e professores), percebi a atomização do conhecimento existente nos currículos escolares, que produz uma visão fragmentada do real, desvinculada de um contexto histórico e distanciada da realidade cotidiana dos alunos. Pude constatar, também, a carência de um referencial teórico compatível com a sociedade atual e o quase desconhecimento, por parte dos educadores, da teoria Histórico-Cultural de Vigotski e seus fundamentos, apesar de eles formularem e discutirem muitas questões nas aulas com base em seus conceitos.

A minha atuação nesses cursos levou a reforçar a constatação da fragilidade: o modo fragmentado e equivocado com que grande parte dos profissionais se apropria da teoria de Vigotski. Talvez seja pelo fato de que, no Brasil, este autor venha sendo pesquisado há apenas pouco mais de duas décadas. De acordo com Freitas (1994), que estudou a divulgação do seu trabalho, suas idéias chegaram por aqui no final dos anos de 1970, trazidas por estudiosos que as conheceram no exterior. Mas, na realidade, sua obra só começou a ser divulgada nos anos de 1980, no momento em que a corrente educacional construtivista se expandia impulsionada pela psicóloga argentina, Emília Ferreiro, discípula de Piaget.

Até o final da década de 1980, as editoras brasileiras tinham publicado a tradução de apenas três livros de Vigotski: A formação social da mente; Pensamento e linguagem; e Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem (coletânea com textos de Vigotski, Luria e Leontiev). Só no ano de 1991 surgiu a tradução do livro Psicologia e Pedagogia com os mesmos autores. Mas, é a partir de 1996 que outras traduções de livros de Vigotski aparecem no mercado brasileiro. Mesmo assim, a maioria dos professores só conhece apenas os livros Formação Social da Mente e Pensamento e Linguagem. Ao concentrarem suas leituras apenas nesses textos, a compreensão do pensamento do autor pode ser prejudicada porque a tradução brasileira do livro Pensamento e Linguagem, nas edições de 1987 até o ano de 2003, foi realizada, a partir de uma tradução americana, da qual se extraíram todos os parágrafos que davam a teoria deste autor uma conotação marxista.

Esses dados permitem ponderar que, apesar de haver um número significativo de obras da corrente Histórico-Cultural, os cursos de formação de professores não oferecem uma leitura mais aprofundada dos escritos de Vigotski. A investigação desse problema adentra a formação docente, revelando a forma de apropriação dessa perspectiva teórica, a partir das referências adotadas pelos professores formadores na área de Psicologia da Educação.

A Psicologia Educacional é inserida nos cursos de formação de professores como um dos componentes responsáveis pela base teórica. Presente nos currículos como uma disciplina pedagógica, o seu objetivo é subsidiar a atuação docente por intermédio do conhecimento sobre os processos de desenvolvimento e aprendizagem, os quais compõem, tradicionalmente, os temas mais abordados na área de estudos da Psicologia.

Diante da especificidade da formação docente, é importante voltar a atenção para a participação da Psicologia neste processo, considerando-se a produção de conhecimento pelo campo da Psicologia, dedicada ao estudo dos processos educativos e principalmente, a veiculação desses conhecimentos, através do ensino das disciplinas presentes nos currículos das licenciaturas. Com este estudo, tenho a intenção de colaborar, ciente da posição que ocupo como professora-pesquisadora, para que se reconheça a importância do docente no processo de apropriação do conhecimento científico pelo discente. A análise dessas questões, à luz desse referencial teórico, pode possibilitar um conhecimento aprofundado da teoria, além de representar um avanço significativo e produtivo no plano pedagógico.

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