Um tango internacional




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Jornal do Brasil

Rio de Janeiro

22 de abril de 1972

UM TANGO INTERNACIONAL


Já tendo trazido Witikiewicz para o público brasileiro, Teresa Raquel produz e interpreta, no teatro que tem seu nome, outro autor polonês, Slavomir Mrozek, também filiado ao teatro do absurdo, que, na Polônia, está estreitamente ligado ao grotesco. Daí a peça Tango, a mais importante de um autor importante, ser tratada como uma farsa em que a tragédia culmina com uma coreografia La Cumparsita. Amir Haddad, diretor da encenação brasileira explica o tom dado à peça aqui, e porque, pela segunda vez, não inventa em cima de um texto. É um longo espetáculo, para quem gosta de teatro.

Três gerações de uma família: o velho e a velha, o pai (artista) e a mãe (massacrada) e o filho desesperado. E mais a prima, sua noiva e o brutamontes, amante da mãe. Alguns problemas colocados: o da racionalidade excessiva do homem, cada vez mais afastado de suas partes mais instintivas; o feminista, com a mulher massacrada pelo homem; o político, o do erotismo, o da velhice, o da violência e o psicanalítico: o estudo da cabeça do homem doente, como nasce e cresce, em que condições e o que acontece em conseqüência.

Esses são os elementos, objetivos e subjetivos, manipulados por Slavomir Mrozek, considerado um dos mais importantes dramaturgos da Europa Central da atualidade, em sua peça Tango. E a dança não está só no título, embora a peça comece com um bolero. No final o tango La Cumparsita – o autor exige que seja esse – é dançado em cena por dois personagens masculinos.


Farsa discutida.


A coreografia desse tango final é de Angel Vianna, o cenário da peça de Joel de Carvalho, a direção de Amir Haddad, autor também de uma pequena trilha sonora usada na encenação. O elenco é integrado por Teresa Raquel (a mãe), Sérgio Brito (o pai), Sadi Cabral (o velho), Elza Gomes (a velha), Ari Coslov (o filho), Roberto Bonfim (o brutamontes) e Renata Sorrah (a noiva).

Para essa encenação brasileira foi usada a tradução, feita por Hélio Bloch, da adaptação francesa da qual Laurent Terzieff foi diretor e intérprete. Amir Haddad explica de que maneira:

- Tivemos dificuldade em usá-la porque a impostação de nosso espetáculo é muito inclinada para a farsa. A montagem francesa era muito mais séria, muito mais levada para o pesado, para a discussão filosófica. E achei que o brasileiro não agüentaria cinco minutos dessa discussão filosófica. Acho que na origem, também, a peça não pretendia essa forma. A matéria é pesada, o assunto, o conteúdo da maior seriedade, mas tratado de maneira leve. Durante os ensaios fomos descobrindo de que maneira aquela matéria tão séria podia ser tratada em farsa. E depois, em contato com o público em Vitória, onde Tango estreou, vimos que só era possível. O público ri do começo ao fim. Não sei até onde percebe a profundidade da peça.

Matéria abusiva.


Diretor que gosta de inventar e criar em cima do texto, em Tango, Amir não fez isso deliberadamente.

- Como experiência, para mim, foi muito parecida com Fim de Jogo, de Beckett, dirigindo um texto e me obrigando a uma disciplina. Agora, por que fazer esse texto, se sou um diretor que gosto de inventar? É que eu acho que ele coloca determinadas coisas que precisam ser ditas no Brasil de hoje. Estudando-o eu pude fazer uma revisão em série de coisas, inclusive meu próprio trabalho, ver onde estou indo, no que ele está sendo alienante para mim. Deu para rever muita coisa e fazer uma autocrítica através do texto.

Consultado para dirigir a peça a um ano atrás, Amir Haddad não se entusiasmou, achou-a excessivamente verbosa, uma discussão que talvez não interessasse. Mas as coisas foram mudando e com elas sua opinião a respeito da peça.

- Acabei vendo que valia a pena fazê-la. O difícil no trabalho foi lidar com essa matéria dolorosa que é a matéria básica de Tango, em forma de comédia. A tendência, realmente, é botar o sofrimento da gente, principalmente em matéria trágica como é a da peça. Ela termina de maneira que pode ser engraçada, mas quando a gente pensa realmente no que é, não é nada engraçado.


Humor trágico.


Tratando de conflitos familiares, e não de conflito de geração, apesar da presença de três em cena, Tango mostra um jovem filho de um artista revoltado com o caos reinante em casa. Quer por ordem nessa confusão, tentando voltar a um passado que não tem mais sentido. É inteligente, filho do pai e tão intelectual quanto o pai. A peça inverte uma situação comum, apresentando pais prafrentex e filho reacionário. Mostra, então, que existe uma discussão perene, que independe de geração, uma situação que vem acontecendo desde o começo do século: ou uma atitude super-reacionária repressiva ou uma atitude aberta anárquica. Acontecendo numa família polonesa ou em qualquer outra.

- O europeu já está calejado, sofrido demais, então é cínico. A decadência deles é muito grande, eles já conseguem rir com facilidade em cima disso. Para a gente a matéria é muito nova. Os europeus conseguem botar o humor em cima do trágico. E a peça discute muito se a tragédia existe ou não existe e acaba chegando à conclusão de que a única coisa que acaba existindo é a farsa. Mesmo que seja uma farsa deprimente. Na verdade o mundo é uma farsa.

Reconhecimento fácil.

- Isso é uma visão de um continente dilacerado, arrebentado por séculos e séculos de guerra, por decadência, por uma cultura já esvaziada. Para nós, da América Latina, as coisas ainda estão muito sangrentas para a gente poder rir com facilidade. Daí a dificuldade da peça. Como fazer uma farsa dessa se para nós é uma tragédia? Por mais que o autor esteja dizendo que aqui não há mais lugar para a tragédia, a América Latina é um continente muito novo e que ainda tem lugar para a tragédia. É trágico o nosso cotidiano.

Ao diretor, então, não interessou o que a peça tem de polonês ou europeu. E não se preocupou com isso porque o personagem da peça, o artista, que o autor disse ter dado origem a tudo, é personagem que existe em minoria no Brasil.

- Para o europeu ele é facilmente reconhecível. Para o europeu ele é o João Grilo de A Compadecida. A gente saca na hora o João Grilo, aquele rapaz esperto que se vira feito louco para sobreviver e que precisa de uma ordem mística ou mágico-religiosa para vencer a realidade dura que está a sua volta. Então o brasileiro vive tanto isso que não precisa pensar. João Grilo no palco é identificado imediatamente. E esse cara, que para a gente é um intelectual, um artista, um boêmio, para o europeu é o pão cotidiano. O que é exceção para nós, é o cotidiano do europeu. Então o cara reconhecido e identificado por ele para nós é um personagem excepcional, um artista. Daí a dificuldade.

Identificação possível.

Ao artigo de apresentação do Tango no programa da peça, Amir Haddad deu o título: o pior cego é aquele que não quer ver, ou O que o tango tem a ver com as calças, ou As aparências enganam. E nele analisa o sucesso de Tango fora da Polônia, e o sucesso de A Compadecida fora do Brasil, na Polônia especialmente. Sobre esta, escreve o seguinte: “O texto tipicamente brasileiro e regional, fez tanto sucesso na Europa e principalmente na Polônia, país de origem do Tango. Certamente não foram os aspectos regionalistas que traíram o público europeu. Mais fascinantes eram os vícios e mazelas daquela pequena e verdadeira humanidade descrita por Suassuna. Os esforços de sobrevivência, a qualquer preço, de João Grilo, o Malazartes do Nordeste, assimiláveis afetiva, instintiva e racionalmente por qualquer brasileiro médio, correspondem imediatamente a falta de fé, ao excesso de cultura, à anarquia, quem sabe ao cinismo e indiferença de Stomil, o Malazartes das antes européias, o intelectual de Tango, também facilmente identificável por qualquer europeu... Stomil transe com quem: com o tédio, com a arte experimental alienada de qualquer realidade. Stomil prepara suas experiências no seu quarto. O escape, o descompromisso”.

Engano impossível.

Mrosek mostra como tudo aconteceu na Europa, e o espetáculo brasileiro tenta mostrar como andam as coisas por aqui.

- Mas não me interessou configurar esse artista como artista, mas muito mais como uma pessoa completamente fora da realidade, que ignora o que está acontecendo em torno dela. Não é problema de hippie ou não hippie, não é uma peça sobre gerações. Não há engano possível: é um texto de discussão política. Um texto de um socialista que já dançou o Tango. Então ele pode falar. Criticando, não o socialismo, mas o porquê de muitos acontecimentos na Europa, desencantado com o caminho que o socialismo tomou em seu país. É impiedoso, mostra que a situação é essa mesmo e que está muito ruim.

Problemas colocados.

Alguns aspectos da peça mostram, por exemplo, as mulheres muito massacradas. Os homens acabam com elas.

- Mrozek coloca isso muito bem. E a racionalidade masculina eliminando, arrebentando com o instinto feminino. Tudo o que a mulher tem de instintivo, de bom senso, a racionalidade do homem acaba, destrói faz que elas se sintam burras. E elas ficam o tempo inteiro tentando ser inteligentes para agradar o homem delas. E começam a ficar iguais a eles. Esses homens de Tango, de uma misoginia incrível, a cada pensamento puro feminino que se expressa, retrucam: “como vocês são burras”. E elas desistem, mas não de agrado. Só a velha que já está muito velha e viu tudo como é, não tenta agradar mais ninguém, já sabe. E quando percebe que não há mais nada, resolve morrer, deita para morrer. E morre.



A peça é muito rica. Várias publicações européias e americanas, especializadas (livros), a têm analisado em capítulos inteiros. E tem mais uma característica:

- O autor não explica nada. Está lá, e você entende. Se não quiser, divirta-se com a situação, que é engraçada. A mulher é meio aérea, o homem fala muito. Mas está tudo lá. Ele consegue, em três horas de espetáculo, colocar todos os problemas. É um longo espetáculo. Uma peça para quem gosta de teatro. Europeu gosta de teatro. Não são “as duas horas de digestão”. São três atos. Passados numa casa que não tem janelas, tem portas. Um microcosmo. Que pode ser em qualquer lugar.


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