O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 11

Teriam um fandango. Uma festa era a última coisa que desejava Carly. Vincent Bannister e seu pai tinham chegado há três dias, e parecia que seu tio queria atendê-los em grande estilo.

Suspirando resignada, voltou-se para sua criada espanhola.

—Terminou Candelária?

Sentada de frente ao espelho que havia sobre a penteadeira de madeira de carvalho esculpido, Carly não deixava de mover-se enquanto a jovem arrumava seu cabelo. Candelária tinha adquirido certa habilidade na tarefa, considerando que fazia muito pouco tempo que assumiu esse trabalho.

—Sim, senhorita. Seus formosos cachos estarão em seu lugar dentro de um momento.

Era uma jovem bonita, com um rosto redondo, com certa tendência a engordar, mas de pele clara e cabelo castanho, grandes olhos marrons e largas pestanas negras.

Carly gostava da jovem. Sempre estava de bom humor e era carinhosa. Os primeiros dias, Carly havia se sentido muito só e tinha se apegado a Candelária. Agora a envergonhavam as coisas que tinha contado de seu pai e de sua mãe e da vida de pobreza que levavam na mina.

Seu tio morreria de vergonha se chegasse a sabê-lo.

Carly suspirou. Em realidade não importava. Em certo sentido, Candelária e ela eram amigas. Seu tio não aprovaria esta amizade. Era evidente que nenhuma só gota de sangue real corria por suas veias.

Carly franziu o cenho ao pensar nisso e fez um nó no estômago. Tinham convidado à família De La Guerra. Perguntava-se se Ramón viria.

—Está muito formosa, senhorita McConnell. — Candelária retrocedeu uns passos para controlar seu trabalho: os cachos enlaçados pareciam brilhar a luz do abajur e ressaltavam a cor topázio do vestido comprido. Este era atrevidamente decotado, deixava ao nu seus ombros e boa parte de seus seios ao descoberto. A saia longa, ligeiramente acampanada, rodeava a cintura na frente e tinha franjas marrom escuro e grossas fitas douradas. —Seu tio deve estar esperando — urgiu Candelária. —Você não deseja que se zangue.

Não, não desejava que se zangasse. Mas tampouco desejava passar outra tarde com Vincent.

Levantou-se da cadeira, resignada. Cada vez que podia, seu tio tratava de que estivessem juntos. Carly tentou num princípio imaginar-se como a mulher de Vincent Bannister. Tio Fletcher teria gostado muito. Não podia esperar que seu tio cuidasse dela para sempre. Possivelmente ao fim, não fosse tão má ideia.

Mas não custou muito descobrir o terrível destino que a esperava se casava com Vincent.

—Quão único quero é que venha comigo à cidade — disse enquanto passeavam ao entardecer sob os grandes carvalhos atrás da casa. —São Francisco é tão excitante. Claro que não se pode comparar com a Filadélfia. —Vincent era da Filadélfia. —Não achará gente do mesmo nível — continuou — nem tão sofisticada, mas pelo menos pode conseguir comida decente. Já não terá que comer essas horrorosas omeletes e ervilhas que temos que comer por aqui.

—Em realidade, estou gostando bastante desta comida — disse Carly, algo à defensiva. Tinha tentado levá-lo para outros tópicos, mas Vincent sempre voltava para sua aversão pela comarca, a seus prejuízos contra os latifundiários espanhóis ou a seu tema favorito: ele mesmo. Seus interesses pareciam acabar em quem era quem na elite de São Francisco, em quem tinha mais dinheiro ou em falar dos negócios de seu pai.

—Um destes dias, os Bannister serão donos de São Francisco — se gabava. —A mulher com quem me case viverá como uma rainha. —voltou-se para ela, tocou sua bochecha com sua mão e seguiu — Você pode ser essa mulher, Caralee. Será a inveja de todas as mulheres da cidade... E eu a inveja de todos os homens.

Então se inclinou e a beijou. Carly se aproximou dele, com os olhos fechados, esperando algo do calor irradiante que Ramón a tinha feito sentir. Mas poderia ter beijado à berinjela que tinha recolhido no jardim essa manhã.

A mão que deslizou para seus seios acabou com o contato. Não lhe permitiria tomar nenhuma liberdade mais. A verdade era que não sentia nada por Vincent Bannister. E era evidente que nunca sentiria nada.

Agora, só sob os beirais da casa, Carly contemplava aos convidados de seu tio e se resignava a outra noite em sua indesejável companhia. Prometeu em silêncio que perseveraria, respirou fundo e começou a caminhar para o grupo de gente elegante que havia a margem da grande pista de baile de madeira que seu tio tinha ordenado construir para o fandango.

Dois homens tocavam violão e outro violino. Era uma agridoce melodia espanhola. Dos ramos dos carvalhos penduravam luzes de cores e a um lado havia mesas cheias de pratos de comida fumegante. Um bezerro se assava lentamente a um extremo do jardim e seu saboroso aroma se dispersava no frio ar da tarde. Um grupo de peões de seu tio se mantinha perto do fogo. Fumavam e riam, desfrutando do ritmo da música.

A maioria dos convidados bebia sangria, uma bebida feita com vinho tinto, bagos silvestres, laranjas e limas. Alguns homens bebiam o fino uísque importado que seu tio havia trazido de São Francisco.

—Caralee! —chamou-a o tio Fletcher. — Se reúna conosco. O jovem Vincent já comeu o bastante. — William Bannister riu e também alguns outros. Vincent se ruborizou um pouco. Seu tio só sorriu. —É bonita, verdade moço? Ordenei fazer esse vestido especialmente para ela. Fez na viagem de Nova Iorque até aqui.

Deu uns golpezinhos nas costas do jovem e Vincent sorriu de bom humor.

Pelo menos tinha isso a seu favor. Parecia que era um homem bastante equilibrado.

—É encantadora, senhor Austin. Sua sobrinha é uma mulher muito bonita — comentou e olhou Carly. —Tão encantadora, que espero que queira dançar comigo.

—É obvio que quer.

Seu tio a olhou de uma maneira que não admitia réplica e Carly se obrigou a sorrir.

—É obvio, encantada.

Tinha isto a seu favor. Vincent era muito bom bailarino. Carly deixou que a levasse a pista e começaram a mover-se ao suave tempo de uma valsa. Ela teria preferido uma polca ou possivelmente uma mazurca, um pouco mais vivo, para que não tivessem que falar.

—Disse a sério. Esta noite está muito bonita, Caralee. — Vincent sorria, olhando-a aos olhos. —Inclusive em São Francisco seria a mais formosa do baile.

—Obrigada, Vincent, é muito adulador de sua parte.

Mas não disse nada mais. Continuaram dançando. Carly desfrutava com a música, mas não conseguia prestar atenção à insossa conversa de Vincent. Embora tentasse controlar seus olhos, não cessavam de procurar Ramón. Reconheceu Sam Hollingworth e a sua mulher, Amanda, seus vizinhos mais próximos pelo norte; também estava George Winston, e Royston Wardell. Ali estavam os Montoya e várias outras famílias californianas. Mas não via sinal algum do alto espanhol de olhos escuros.

Melhor assim, disse-se. Entretanto, a decepção pesava em seu peito.

—Está me escutando, Caralee? —perguntou Vincent, afastando-a da pista de dança. —Disse-te que quero vê-la em privado. Quero lhe mostrar uma coisa.

Carly se sobressaltou um pouco, notando o braço de Vincent apoiado em sua cintura. Meu Deus, e se me faz a proposta?

—Tem algo que me mostrar?

—É o que acabo de dizer. Encontraremo-nos na quadra dentro de vinte minutos.

—Na quadra? Não me parece uma boa ideia, Vincent. E se alguém nos vê?

—Vamos, Caralee. Aposto que não foi tão covarde quando corria pelos bosques com o Dragão espanhol.

Carly se esticou um pouco mais. Não gostava da expressão dos olhos de Vincent. Mas quando voltou a lhe olhar, estava sorrindo. Possivelmente só fosse sua imaginação.

—Por que tem que ser na quadra? Não há outro lugar onde possamos ir?

—Ali está a surpresa. Tem que vir, Caralee. Ordenei fazer especialmente para você. Prometo que você gostará.

Teve que admitir que sentia curiosidade.

—De acordo. Dentro de vinte minutos.

—Não me faça esperar — disse. Sorriu e lhe roçou a mão.

Assentiu distraidamente. Mas sua atenção já apontava para o caminho que levava ao rancho, à carruagem que tinha chegado enquanto falavam. Carly ficou sem fôlego ao ver a alta silhueta do espanhol que avançava entre duas mulheres mais velhas que devia ser sua mãe e sua tia.

Era incapaz de mover-se. Voltaram a sua memória às semanas que tinha passado nas montanhas, como se nunca tivesse partido dali. Podia sentir a boca de Ramón sobre a sua, seu beijo tão ardente que a queimava inteira. E suas mãos... Meu Deus, esses dedos tão formosos e longos... A maneira como tinha acariciado seus seios e como se endureceram seus mamilos. Carly tragou saliva quando se deteve ante ela.

—Senhorita McConnell. Alegra-me vê-la. — Vestia as ajustadas calças negras com conchas de prata aos lados. Uma jaqueta curta e negra rodeava seus largos ombros. As estreitas lapelas estavam bordadas com fio de prata. —Parece-me que não conhece minha mãe nem a minha tia.

Por respeito lhe falou em espanhol, sorrindo amavelmente, mas sem deixar de olhá-la aos olhos com uma intensidade que repartia uma mensagem silenciosa: Fez o que prometeu. Cumpriu sua palavra.

Carly umedeceu seus lábios, que de repente tinham secado. Quase não podia falar.

—Não, não nos apresentaram. Boa tarde, senhoras. É um prazer conhecê-las.

A mãe só assentiu com a cabeça. Era uma mulher baixa e robusta, que vestia um traje escuro cor ameixa e levava um xale grande com cós negro ao redor da cabeça e os ombros.

A tia era mais alta e magra, parecia mais frágil que a mãe, mas tinha uns olhos muito perspicazes.

—Também é um prazer conhecê-la, senhorita McConnell. — A tia olhou Carly dos pés à cabeça e depois olhou Ramón. —Agora que já nos apresentaram, lembro que a vi com meu sobrinho no dia da corrida.

—Sim, dom Ramón foi muito galante esse dia — disse em voz baixa. Estava tão assustada que não se atrevia a lhe olhar, seu coração pulsava com força.

Os olhos da tia continuavam estudando-a. Finalmente, voltou o rosto para os músicos que tocavam ao outro extremo da plataforma.

—Escuta Ana — disse à outra mulher. —A música é bonita, verdade? —voltou-se então para Carly e sorriu. —Meu sobrinho dança muito bem, como seu pai Diego, que em paz descanse. Ramón, por que não mostra à senhorita como os espanhóis dançam a valsa?

Franziu as magras sobrancelhas negras.

—Não acredito que o tio da senhorita ache uma boa ideia.

—Acredito que é uma ideia maravilhosa — disse Carly, impulsivamente.

Por muito que incomodasse a seu tio, nunca voltaria a comportar-se com Ramón como o tinha feito antes.

Arqueou uma sobrancelha e depois sorriu com esse incrível sorriso masculino que tanto tinha tentado esquecer. Umedeceram-lhe as mãos e um fio de suor começou a escorregar entre os seios. Possivelmente não fosse tão boa ideia dançar com Ramón a final de contas.

Tomou a mão e a levou aos lábios.

—Não há nada que eu possa gostar mais, senhorita McConnell.

Deixaram às duas mulheres sob um abajur vermelho e uma brilhante lua crescente e se encaminharam à pista de dança de madeira. Ramón ficou frente a ela e apoiou uma mão em sua cintura. Pareceu-lhe que sua mão ardia através do formoso vestido dourado. Aumentou o som da música e o espanhol a conduziu a seu ritmo com a mesma elegância com que montava seu magnífico cavalo.

Sorriu-lhe e cintilaram os pontos dourados de seus olhos.

—Assim... Ainda nos vemos. Não estava tão seguro que não fosse falar.

Suas longas e fibrosas pernas a roçavam intimamente e enviavam quentes tremores por todo seu corpo. Sua pele estremecia onde seus dedos a tocava. Mas Ramón não parecia estar afetado por tudo isto, controlava todos seus movimentos e sorria com calidez, mas sobriamente. E cuidava de manter a distância apropriada entre os dois.

O Dragão teria burlado dessas formalidades. Carly descobriu que se sentia um pouco decepcionada.

Entretanto, quando o olhou ao rosto não pôde menos que sorrir.

—Surpreende-se que não disse nada a meu tio? Acredito que não se surpreende nada. Acredito que sabe muito bem que não vou delatá-lo.

Ramón arqueou uma sobrancelha e sua voz adquiriu um tom quase de brincadeira.

—Como poderia sabê-lo?

Carly não fez caso do tremor de seu estômago.

—Não estou segura. Possivelmente porque conheceu muitas mulheres. Possivelmente sabe quando as seduziu.

Riu. Era um som muito suave e ao mesmo tempo rouco. Inclinou-se o suficiente para sussurrar ao ouvido.

—Assim foram meus encantos os que lhe arrancaram a promessa? E não meus ardentes beijos?

O calor foi a suas bochechas.

—Esta noite tem que se comportar como um cavalheiro. E um cavalheiro não recorda essas coisas a uma dama. Possivelmente Dom Ramón e o Dragão espanhol não são tão diferentes como você gostaria que as pessoas acreditassem.

A pressão de Ramón aumentou sutilmente e pareceu brilhar o ouro dos olhos.

—Asseguro-lhe, Carly, que somos exatamente iguais em quase todos os sentidos. — Não pôde menos que notar o olhar atrevido ou o calor que ardia em seu olhar. Mas tudo desapareceu em um instante. A música terminou de repente e Ramón soltou sua cintura. —Espero que tenha desfrutado do baile. Asseguro que desfrutei. Mas agora devo retornar a meus amigos.

Obrigou-se a sorrir.

—É obvio — disse estranhamente irritada por sua indiferença. —A estas alturas, meu tio deve ter descoberto onde estou e...

Experimentou a breve satisfação de observar a careta que obscureceu seu rosto. Entretanto, deixou-a em companhia de umas mulheres e voltou onde sua mãe e sua tia, estavam com os Montoya.

Carly esperou somente uns minutos antes de desculpar-se e de encaminhar-se para a quadra. Tinha prometido a Vincent que se reuniria com ele e faria exatamente isso. Especialmente agora que Ramón dançava com Isabel Montoya, a formosa viúva.

Tudo estava escuro na grande quadra de tijolo cru. A luz da lua apenas se filtrava pelas janelas abertas. Vincent tinha acendido um abajur em um dos estábulos. O aroma do feno e dos cavalos se dispersava fracamente na fria brisa da noite. A suave luz amarela do abajur, bolinhas de pó caíam ao chão e havia insetos nos rincões.

—Temia que não viesse.

Adiantou-se assim que ela entrou, agarrou-a pela mão e a atraiu para ele. Os laços de seus elegantes sapatos negros de salto quadrado brilhavam a luz do abajur. Levava uma grande gravata branca atada ostentosamente sob o queixo.

—Não posso permanecer muito tempo — disse Carly. —O que queria me mostrar?

Afastou-se da grade de madeira que dividia em dois os estábulos. Instalada sobre a viga estava a mais elegante sela de mulher que Carly já tinha visto.

Vincent sorriu sedutoramente.

—Uma vez, disse-me que queria aprender a montar. Seu tio, em uma carta recente ao meu pai, diz que já começou com suas lições. Queria que tivesse a equipe adequada.

Carly olhava e olhava a sela. A saia de couro tinha um delicado desenho floral gravado e uma manta bege salpicada de pequenas rosas cor rosa cobria o assento acolchoado. O arreio era exato para seu tamanho, menor que a que tinha utilizado em suas aulas. Tinham-na pedido emprestada a seus vizinhos.

—É formosa, Vincent — disse e se aproximou mais e passou os dedos pelo couro finamente trabalhado. —É magnífica. — Olhou-lhe o rosto, sentindo-se culpada pelo que tinha pensado dele, mas pensando também que não podia cuidar dele como queria seu tio. Então seu sorriso se apagou. —Desgraçadamente, não posso aceitá-la.

Vincent mudou.

—Não pode aceitá-la? E por que não, Caralee?

—Porque não somos... Porque é muito cara. Não poderia...

Vincent a apertou contra ele.

—Não compreende Caralee? Quero que seja minha esposa. A sela só é o princípio. Quero te dar de presente joias, roupas, o que você deseje. Será o motivo da conversa de toda São Francisco... A rainha da cidade.

Carly estremeceu interiormente. Nenhuma só menção do amor, dos sentimentos que poderia abrigar. Só pensava no dinheiro. Desejava-a por seu aspecto, pela roupa que usava, pelas obrigações sociais que prestava sua educação. Não o importava nada a mulher que era. Nem sequer a conhecia.

—Não posso me casar contigo, Vincent. A verdade é que não te amo. Quero me casar com um homem que eu ame.

Segurou-a pelos ombros. O cabelo loiro caía sobre a testa.

—Não espero que me ame... Não ao princípio. O afeto surge com o tempo. O que mais importa é que somos um para o outro.

—Isso não é assim, Vincent. Não se parece comigo em nada. Não quero te ferir, mas não posso aceitar seu presente... E não posso me casar contigo.

A calidez desapareceu completamente de suas feições. Parecia maior que de costume. À luz do abajur, apreciava-se uma estranha disposição no queixo e seus lábios pareciam cinza e magros.

—Seu tio me disse que não estaria de acordo. Mas o fato é Caralee, que será minha esposa.

Parecia tão decidido que Carly quase riu. Não havia maneira alguma de que algum dia se casasse com Vincent.

—Tenho que voltar para nossos convidados. Já estive fora muito tempo.

Deu meia volta para afastar-se, mas Vincent a agarrou pelos pulsos e a arrastou a seus braços.

—Ainda não pode partir Caralee.

—Se afaste de mim, Vincent. Meu tio...

—Com o tempo, compreenderá que isto aconteceu para seu bem. Algum dia me agradecerá isso.

E seguiu um beijo torpe. Carly tentou liberar-se, mas seus braços eram como tentáculos. Vincent forçava sua boca com sua língua úmida. Invadiu-a uma onda de cólera. Maldição! Quem diabos acreditava que era? Golpeou-lhe com força na virilha. Vincent emitiu um grito de dor, mas não a soltou. Em troca, tampou-lhe a boca com a mão e a obrigou a cair de costas sobre um montão de palha.

—Tentarei ser amável — disse, e começou a tirar sua roupa. —Prometo que a próxima vez será melhor.

A próxima vez? A fúria a dominava. Queria violá-la, acabar com sua virgindade e obrigá-la a casar-se com ele. Os extremos a que estava disposto a chegar para conseguir o que queria bastaram para que compreendesse exatamente o tipo de homem que era. Tentou gritar para pedir ajuda, mas ele era mais forte do que parecia e a afogava facilmente com o peso de seu corpo.

Tremeram-lhe as mãos quando acariciou seus seios. Uma nova onda de ira se apoderou de Carly. Lutou com ele, caíram os alfinetes do cabelo e a cabeleira escorregou sobre seus ombros. Por fim, conseguiu o esbofetear na bochecha. Vincent proferiu um juramento. O vestido produziu um rangido ao rasgar-se. Carly notou que estava levantando a saia e que ao mesmo tempo tentava abrir a parte dianteira das calças. A cólera lhe deu forças. Lutou contra o peso do homem que tinha em cima... E de repente cessou tudo. Algo o tinha levantado com tanta facilidade como se tratasse de um menino e não fosse um homem grande.

Ramón De La Guerra estava de pé a uns metros de distância, com as largas pernas plantadas firmemente no chão e as mãos empunhadas. Vincent Bannister jazia a seus pés, escancarado.

—Se afaste, De La Guerra — disse, sentando-se para encarar Ramón. —Isto não te concerne.

—Possivelmente agora me concirna.

Carly o teria abraçado. Vincent se levantou de um salto e se equilibrou sobre Ramón com mais força da que o acreditava capaz. Vincent recebeu o primeiro golpe, mas Ramón o segundo. Separaram-se e voltaram a atacar-se, mas a luz de uma tocha que entrava por uma janela deteve a briga.

Seu tio entrou no curral, seguido por Sam Hollister e sua mulher Amanda, por George Winston, Royce Wardell e o que parecia a metade dos convidados ao fandango, incluindo o pai de Vincent.

Meu Deus! Carly aferrava suas destroçadas roupas, com a cara vermelha de vergonha. Com mãos trementes, tentou tirar as fibras de palha da desordenada cabeleira. Deus do céu, o que vão pensar? Vincent se compôs para enfrentar seu tio, fingindo arrependimento. Ramón permanecia na sombra.

—O que significa tudo isto? O que está acontecendo aqui?

A luz da tocha iluminava os duros traços de seu tio. Esperava lhe ver pelo menos molesto. Mas permanecia curiosamente calmo.

—Peço-lhe sinceramente que me desculpe senhor Austin. Caralee não tem nenhuma culpa. Convidei-a a vir aqui para lhe dar um presente que acabava de chegar esta manhã. — Sorria encantadoramente, quase como um menino. Carly desejava lhe golpear. —Via-se tão formosa. Simplesmente perdi a cabeça.

Seu tio se limitou a franzir o cenho.

—Estas coisas acontecem entre jovens de sua idade. Mas compreendem as consequências, verdade?

A cabeça dava voltas. Estas coisas acontecem? Tinha escutado bem seu tio? Então compreendeu. O brilho de triunfo nesses frios olhos verdes era evidente. Carly olhou então a Vincent: também parecia triunfante. Contemplou-lhes cada vez mais horrorizada. Tinham planejado tudo isto desde o começo! Vincent tinha planejado que os surpreendessem, possivelmente em pleno ato vergonhoso.

Ardiam-lhe as bochechas e a fúria lhe custava respirar. Como puderam? Angustiada pelo que via vir, procurou Ramón e viu seus traços escuros, que se destacavam à luz do abajur. Deduziu, por sua expressão, que compreendia tal como ela o que estava acontecendo. Havia cólera em seu rosto, compaixão em seus olhos, e algo mais que não pôde decifrar.

Comprovou tristemente que não viria nenhuma ajuda dele. Ramón a tinha abandonado ao seu destino e ela não podia fazer outra coisa que aceitá-lo. Bem. Não pensava aceitá-lo!

Uma das mulheres disse algo. Carly olhou Amanda Hollister e às outras senhoras do grupo. Não a aceitariam entre elas se não se casava com Vincent. Tinha sido uma estranha, uma complicação para suas vizinhas e para os poucos amigos que começava a conhecer. Dominava-a a fúria contra seu tio e tremiam as mãos. Seu estomago se retorcia e uma onda de tristeza a invadia.

Meu Deus, não havia nada que fazer?

Vincent falava calorosamente, pedia perdão a seu tio, solicitava sua mão e assegurava que seria um bom marido. Dizia que podiam contrair matrimônio antes que voltasse para a cidade.

Carly a adoecia a mera ideia. Voltou a olhar de soslaio a Ramón, que mantinha um estóico silêncio, e lhe ocorreu uma maneira de salvar-se, de repente, como a resposta a uma prece.

Era tão singelo, tão óbvio, que se sentiu enjoada, quase alegre pelo alívio. Sua cabeça dava voltas enquanto estudava a ideia, procurando seus possíveis defeitos. Não era perfeita, teve que aceitá-lo, mas não tinha outra opção. E valia a pena pela lição que daria a seu tio. Não podia esperar ver a cara de seu tio.

Carly mordeu os lábios. Mal conseguiu dominar a vontade de rir. Ramón se enfureceria, mas uma vez que estivessem sozinhos poderia explicar as coisas e tratar de que a compreendesse.

Deu um passo para o grupo e procurou desdobrar seu melhor sorriso.

—Isto já chegou muito longe, Vincent. Foi mais que amável. Foi incrivelmente cavalheiro. Mas não posso aceitar que o faça.

—O que? De que fala?

Olhava-a como se tivesse perdido a cabeça, mas Carly acabava de recuperá-la bem a tempo.

—Agradeço-te, Vincent, por ser tão nobre. Sei que quer me ajudar e lhe agradeço isso mais do que posso expressar com palavras, mas não vejo por que deve se culpar por algo que não fez. — Do grupo escapou um grito afogado. Carly deu meia volta e olhou Ramón aos olhos. —E como o senhor De La Guerra também é um homem honrado, estou segura de que fará o que corresponde. — Sorria resolutamente e dizia, com o olhar, que lhe devia isto, recordava-lhe em silêncio que tinha sua vida em suas mãos. —Não é assim, dom Ramón?

Durante um momento não disse nada. Só a observava como se não pudesse acreditar no que estava fazendo. Mas Carly estava segura de que falaria muito em breve. Era O Dragão. Caralee McConnell sabia. O espanhol não tinha opção.

Saiu da sombra para a luz das tochas. Sua expressão era dura e severa, sua pele estava tensa em suas altas maçãs do rosto.

—Peço perdão à senhorita pela liberdade que tomei — disse com um sorriso frio e recalcitrante... —E é obvio a você, senhor Austin. Meu maior desejo é converter sua sobrinha em minha esposa.

—Mas isto é um absurdo! —exclamou seu tio, adiantando-se como uma fera. —Não há modo de que autorize minha sobrinha a casar-se com...

—Sinto não o agradar tio — interrompeu Carly — mas, como disse, estas coisas acontecem entre jovens de nossa idade.

Seu tio tinha conseguido obrigá-la a casar-se. Nisto não havia retorno. E Ramón era a melhor eleição. Pelo menos assim seria quando Carly conseguisse explicar suas intenções.

O espanhol moveu um músculo de suas duras e lisas bochechas.

—Está pendente, é obvio o problema de nossas duas religiões.

Uma última possibilidade de fugir. Seus olhos eram uma negra advertência. Termina agora com esta tolice, diziam. Antes que seja muito tarde. Então foi Carly a que sorriu triunfante.

—Meu pai era irlandês. Criei-me segundo a religião católica. O sacerdote não objetará nada nesta união.

Embora não tinha assistido à igreja desde sua chegada a Califórnia, isso não trocava o fato de que sua religião era a mesma da de Ramón.

—Diga algo, Vincent. Abre a boca, moço.

—O que... Que trata de fazer, Caralee? Como é possível que queira se casar com este...?

—As bodas será no domingo — disse Ramón com frieza, e toda sua alta estatura irradiava fúria contida. —Dadas as circunstâncias, estou seguro que o padre Xavier autorizará.

Os Montoya acabavam de chegar. Eram ricos e poderosos, uma das últimas famílias californianas que tinham uma posição influente. Seu tio vacilou ante eles: sabia que não podia negar o matrimônio de sua sobrinha com Ramón sem insultá-los também.

Carly compreendeu que tinha ganhado.

—Amanhã falarei com o sacerdote — disse o espanhol em tom cortante. Seus olhos escuros ainda brilhavam e continham uma promessa de castigo que estremeceu Carly. Não tinha visto esse olhar desde a manhã após o assalto, quando tinha despertado e visto ante seus olhos suas altas botas negras. Separou da mente esta perturbadora visão. Ramón compreenderia uma vez que explicasse tudo.

—Caralee? — Vincent a olhava com seus olhos cor avelã, implorante, ainda sem poder acreditar no que ocorria. —Verdadeiramente vai se casar com este...?

—Temo que sim, Vincent — disse, e lhe sorriu com a maior doçura. —Ao fim, é a única coisa decente que posso fazer.


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