O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 09

Carly fez uma careta de dor quando o cavalo saltou para superar um buraco do atalho. Fazia horas que cavalgavam. Tinham deixado a carreta e agora montavam os cavalos que a tinham puxado. Tinha passado oculta sob a lona a metade da manhã. Cada vez que a levantava, Villegas ordenava que se abaixasse. Até o momento em que levou a carreta sob umas árvores e começou a desatar os cavalos.

Ao princípio, não tinha reparado no par de selas que havia na parte traseira da carreta. Assustou-se quando as viu, mas logo caiu na conta de que era razoável.

—Cedo ou tarde nos vão procurar — disse o bandido enquanto ajustava a correia do forte cavalo baio que selava. Depois a levantou e instalou no arreio. —Avançaremos mais rápido sem o carro.

—Você tampouco pensa voltar lá, verdade?

Sorriu, mostrando seu dente de ouro e o buraco que lhe faltava.

—Cansei-me de Llano Mirada. Já é hora que parta.

Viajaram para o sul, tal como tinham feito pela manhã. Recordava ter viajado para o norte a noite do assalto, mas então lhe tinha parecido ir mais para o este que para o norte. Se tinha sido assim, agora teriam que cavalgar para o sudoeste. Esta ideia a preocupou um instante, mas se obrigou a não pensar nisso. Não conhecia essas montanhas e tinham saído do refúgio por uma rota completamente distinta da que tinham seguido ao chegar.

Carly movia a cabeça de um lado ao outro, tentando esticar os doloridos músculos de seu pescoço e de seus ombros. Doíam as pernas e tinha as coxas quase em carne viva pelo toque com suas pernas do couro tosco do arreio mau cuidado. Perguntava-se por quanto tempo continuaria Villegas antes de acampar, quanto tempo ela poderia resistir.

Carly levou a mão à testa para proteger a vista e contemplou o sol do entardecer. Estava muito baixo no horizonte, tingia de ouro os carvalhos e refletia nas águas do arroio pelo que avançavam entre as pedras. Poucos minutos depois, Villegas indicou outro caminho, para o este e não ao oeste. Uma vez mais, seus temores cobraram força.

Não disse nada durante um momento, com a esperança de que só se tratasse do breve rodeio de uma colina ou possivelmente de uma maneira de evitar um obstáculo natural. Mas aumentava a distância e teve que morder os lábios para não gritar a pergunta que tinha na ponta da língua: Meu Deus, onde me leva?

—Preciso me deter um momento — disse finalmente, fingindo sentir-se envergonhada. —Ali há um arroio. Enquanto esteja... Ocupada, você poderia dar de beber aos cavalos.

Grunhiu algo, mas deteve seu suarento cavalo e desceu. Também o fez Carly. Suas pernas, vacilantes, quase não as sustentavam. Caminhou uns passos, esticou-se um pouco, e pôde se firmar melhor. Era agora ou nunca. Cada quilômetro de marcha lhe diminuía as forças. E necessitaria de todas as que possuísse para enfrentar um homem como Villegas.

Voltou-se para ele. Conduzia os cavalos ao arroio. Carly extraiu o pesado candelabro de ferro forjado de seu esconderijo na esteira.

—Melhor que vá depressa — disse o homem. —Está escurecendo e devemos encontrar um lugar onde acampar.

—Sim, já vejo. — Carly apertava com todas suas forças o pesado candelabro de ferro. Tinha as mãos tão úmidas que temia que escorregasse. Aproximou-se do homem, que estava de pé junto ao arroio. —Antes disso, gostaria de saber exatamente onde me leva. Vamos para o este, não para o oeste. Por que nos movemos na direção equivocada?

—Só é um rodeio — disse em tom neutro—Amanhã iremos para o oeste. E ao outro dia estará no Rancho dos Carvalhos.

Mentia. Podia ver escrito em seu feio rosto.

—Não acredito. Quero saber onde me leva. E quero a verdade.

Convença-me, pensava. Faça-me acreditar que me equivoco e que verdadeiramente me leva para casa.

Francisco Villegas se limitou a sorrir.

—Quer a verdade, senhorita? A verdade é que vamos a Nogueiras. É você uma mulher muito formosa... E inocente verdade? As mulheres do refúgio dizem que ainda é virgem. Conseguiremos um muito bom preço por esse corpinho tão bonito e todo esse cabelo escuro tão brilhante.

—Quer me... Vender?

As palavras brotaram como um chiado. Meu Deus a levava a um bordel! Queria convertê-la em prostituta!

—É obvio — disse. — por que a não ser por isso eu tomaria todas estas moléstias?

Carly passou a língua por seus lábios trementes. Apertou com mais força o ferro que levava às costas.

—Se quiser... Dinheiro, meu tio o pagará muito bem. Dar-lhe-á mais do que possa conseguir em Juarez.

O sorriso se prolongava e aumentava. Carly mal suportava a expressão grosseira dessa cara.

—Não acredito. Por outra parte, há mulheres em Nogueiras. E eu necessito uma mulher para mim. — Aproximou-se dela, puxou o laço que sustentava a trança e começou com seus grossos dedos a tocar seu cabelo. Um fôlego azedo roçou suas bochechas. —Possivelmente se equivocavam as mulheres do refúgio. O Dragão ainda não a tomou? Então eu poderia fazê-lo, né?

—Não se equivocavam. Nunca estive com um homem.

Rodeou-lhe o rosto com as mãos. Um tato áspero, caloso. Acariciou-a com dedos atrevidos, com unhas sujas e quebradas.

—O preço seguiria sendo muito bom, embora a tomasse. Acredito que vale a pena.

Meu Deus! Obrigou-se a permanecer imóvel. Teria que lhe golpear. Não havia outro modo. Apertou a mão na arma.

—Não me terá! Não me tocará! Vou para casa!

Sem deixar de lhe olhar à cara, brandiu o pesado ferro com todas suas forças. Golpeou-o na mandíbula, de um lado do rosto, com tanta violência que o dente de ouro saltou da boca junto com um jorro de sangue.

Todo seu corpo tremia, deixou cair o ferro e correu para seu cavalo. Pôs um pé no estribo e saltou escarranchada com uma força que não sabia possuir, segurou as rédeas e cravou os calcanhares nos flancos do animal. O cavalo saltou para frente no momento em que o braço do bandido deslizava por sua cintura e a arrancava da sela.

Lutou como pôde e conseguiu liberar-se. Gritou quando Villegas a esbofeteou e a jogou ao chão.

—Não devia ter feito isto — disse o homem, que respirava agitadamente, furioso.

Elevou a vista para o homem e afrouxaram as pernas e os braços enquanto o terror a invadia. A bochecha pulsava dolorosamente e o sabor metálico de sangue enchia sua boca. Ajoelhou-se. Seu cabelo caía desordenadamente sobre seus ombros. Procurou freneticamente a arma. Avistou o pesado ferro e tentou alcançá-lo, mas Villegas bloqueou o passo. Segurou-a pelo cabelo, elevou-lhe a cabeça e voltou a golpeá-la.

—Atreve-se a brigar comigo? — Limpou o sangue da boca com o dorso da mão, a pôs de pé e rasgou a parte dianteira da blusa. —Nunca ninguém que tenha me desafiado sobreviveu... E você é somente uma mulher.

— Então me mate! —gritou-lhe Carly. —Se não o fizer, juro que acharei a maneira de matá-lo!

Limitou-se a rir. Agarrou-lhe os seios com essas mãos de dedos gordos e os retorceu cruelmente. Uma dor aguda a atravessou.

—Puta! —bramou. —Agora será a prostituta que necessito.

Carly começou a lutar, estava tão assustada que começava a enjoar-se, desesperada por liberar-se. Mas um rangido lhes chamou a atenção e os dois se imobilizaram.

—Solte à mulher.

Ramón De La Guerra estava a não mais de dois metros de distância, com as longas pernas separadas e o rosto convertido em uma fria máscara de cólera. O chapéu negro de asa larga quase tampava a testa, mas Carly conseguia ver a fúria que ardia nesses olhos de meia-noite. Tinha as mandíbulas tão apertadas, que um músculo sobressaía nas duras bochechas.

Villegas deixou de lhe tocar os seios.

—Assim... Veio procurar à menina —disse sorrindo de maneira grosseira. —Não acreditei que o fizesse. É fogosa a jovenzinha, verdade?

—Mandei que a soltasse.

Villegas se afastou e Carly caiu no chão.

—Se afaste dele, Carly — disse Ramón em voz baixa. —Não voltará a te machucar.

Afogou um gemido, tentou levantar-se, mas suas pernas não a sustentavam. Voltou a tentar, obrigou seus vacilantes membros a arrastá-la e conseguiu se afastar do enorme mexicano barbudo. Tremiam as mãos e ofegava. O medo rompia as vísceras e dificultava respirar. Medo por ela mesma. Medo por Ramón.

—Matar-lhe-ei, chefe. E depois tomarei à jovenzinha — disse Villegas, sorrindo e mostrando os buracos onde faltavam seus incisivos. —Desfrutarei dela de todas as maneiras que conheço e depois a venderei a Ernesto. Sua cantina é a melhor casa de putas de Nogueiras.

Ramón parecia a ponto de perder o controle. Incharam-lhe as veias do pescoço. Saltou sobre Villegas, agarrou-o pela garganta e o derrubou no chão. O bandido se liberou, mas Ramón se adiantou e o golpeou violentamente no rosto e voltou a jogá-lo no chão. Ao cair, Villegas, deu com a cabeça na terra. Ramón seguia o esmurrando sem parar.

Villegas tinha o rosto ensanguentado, e do nariz saía um líquido que chegava até o pescoço. Conseguiu agarrar Ramón pela camisa e conseguiu situar-se em cima dele.

Ramón recebeu vários golpes antes de conseguir liberar-se. Voltou a controlar a situação, descarregando um golpe atrás do outro no grosso rosto de Villegas. A briga estava quase ganha, quando Carly viu que o mexicano tirava uma adaga que tinha escondido em uma de suas botas.

—Ramón! —gritou, bem a tempo. O espanhol segurou o braço do bandido. Seguiram lutando. Por um momento, Carly temeu que Villegas ganhasse. Cruzou a clareira e agarrou o pesado candelabro de ferro. Mas quando deu meia volta viu Ramón com a adaga na mão, e como com todas suas forças a afundou no enorme peito de Villegas.

Seus grandes braços caíram lentamente aos lados de seu corpo, seus olhos deixaram de mover-se e permaneceram fixos olhando o céu, sua boca convertida em uma escura abertura, em um buraco sangrento. Ramón deixou cair à faca, levantou-se e se girou para olhar Carly, que ainda tinha o candelabro em suas mãos pronta para pegar Villegas.

—Já pode deixar a arma, jovenzinha — disse em voz baixa. —Está morto. Já não te pode fazer mal.

Passou a mão pelo metal e finalmente o soltou. O pesado ferro escorregou de suas mãos e aterrissou com um ruído surdo a seus pés. Seus olhos se encheram de lágrimas e começaram a correr pelas bochechas. Olhou os traços sombrios de Ramón, seus elegantes passos quando se aproximava e de repente se encontrou esmagada contra seu peito.

—Não chore — sussurrou. —Estou aqui.

Mas só serviu para que soluçasse ainda mais.

—Não estou chorando — disse. —Não choro nunca.

Passou-lhe os largos dedos pelo cabelo e a embalou contra seu ombro.

—Tudo está bem, querida. Há momentos em que todos precisamos chorar.

Acariciava-lhe as costas com a mão, tentava apaziguá-la. Sussurrava doces palavras, e apenas a escutava. Sua voz era tão amável, tão dolorosamente bela. Tinha escutado essas palavras tão suaves com antecedência. Em algum lugar... Oxalá recordasse quando.

Olhou-o através de suas pestanas empapadas de lágrimas e pela primeira vez, notou que seus olhos não só eram marrons, mas também estavam rodeados por anéis dourados.

—Por favor, Ramón — disse destroçada. —Por favor, não te zangue. Tinha que fazê-lo. Tinha que fazê-lo.

—Não é culpa sua que Villegas... — Interrompeu-se, apartou-a e a olhou aos olhos. —Partiu por sua própria vontade com ele? Estava tentando escapar?

Carly se inquietou por um momento. Ele não sabia que estava fugindo. Meu deus, o que lhe faria este homem?

—Tinha que ir. Por favor... Tente me entender.

Voltou a estreitá-la em seus braços e a apertou com força.

—Compreendo Carly. Já vejo que outra vez é minha culpa.

Inclinou-lhe brandamente a cabeça para trás e roçou o arranhão da bochecha com seus magros e largos dedos. Então a beijou. Um beijo como o toque de uma pluma, que dizia o quanto sentia tudo isso. Por alguma estranha razão, Carly teve vontade de chorar de novo.

Tomou em seus braços e se encaminhou sob as árvores, onde tinha preso seu cavalo, e a depositou, de pé, no chão.

—Estava tão assustada — disse Carly, apoiando a cabeça em seu ombro e sentindo a força de seus músculos. —Se não tivesse chegado a tempo...

Ramón fez um de seus formosos sorrisos.

—Vi que estava muito assustada, jovenzinha. Golpeou-lhe com tanta força que quase lhe voa a cabeça. Procuraremos um rincão onde acampar esta noite. Pela manhã iremos para casa.

Carly sufocou outra corrente de lágrimas. Não queria voltar para Llano Mirada. Mas seu destino teria sido muito pior se não tivesse sido por Ramón. Elevou a vista para o alto e bonito espanhol. Era muito mais homem do que acreditava, mais forte, valente e formoso. E gentil. Nunca teria acreditado que podia ser tão atento.

—Sente-se melhor?

—Sim — respondeu, mas ele seguiu abraçando-a e nenhum dos dois se moveu. Estava tão perto dele que podia sentir pulsar seu coração.

—Quando descobri que te tinha ido... Assustei-me. Não podia suportar a ideia de que lhe fizessem mal.

O ouro de seus olhos parecia resplandecer através de suas lágrimas. Olhou-a no rosto como se o olhar lhe pudesse tocar a alma. Passou uns minutos. Estava segura de que queria beijá-la. Mas de repente, deixou escapar um longo suspiro de cansaço, deu meia volta e se afastou.
Ramón cruzou a clareira tentando não pensar em Carly nem no que podia lhe haver ocorrido. Agarrou as rédeas de Vento, e o aproximou onde estava Carly. Apoiou suas mãos na cintura de Carly, elevou-a ao arreio e a sentou escarranchada no cavalo. Depois, com um movimento brusco e preciso, instalou-se atrás dela e a segurou com seus braços. Carly sentia toda a emoção do momento, ainda sentia os ligeiros tremores que percorriam seu corpo. Seu próprio coração pulsava com violência.

Nunca tinha se assustado tanto nem tinha estado tão perto de perder o controle, nunca havia sentido uma cólera tão entristecedora como quando a viu na clareira com Villegas. Obrigou-se a esperar, não queria falhar, situou-se na melhor posição. Cisco estava tão perto de Carly que não podia arriscar-se a disparar, e tinha decidido terminar com a vida do homem com suas próprias mãos.

Era uma sensação que jamais tinha experimentado. Esperava que não se repetisse.

Sustentou-a cuidadosamente contra ele e retrocedeu para a clareira a procura do outro cavalo. Depois entraram no bosque. Não pensava ir muito longe. Pela manhã voltaria para sepultar o corpo de Cisco, a menos que os lobos se encarregassem dele durante a noite.

Ramón tentou alisar o cabelo sedoso e acobreado de Carly. Estava quase adormecida, exausta pela exaustiva jornada e o brutal assalto do bandido. Sua cabeça estava apoiada em seu ombro.

Era virgem, havia dito, e Ramón não duvidava. Agradava-lhe que nenhum outro homem a houvesse tocado, mas também o incomodava: sabia que não podia ser o primeiro que a possuísse. Não voltaria a lhe fazer dano. Carly necessitava um marido e Ramón tinha decidido que seus filhos seriam puro-sangue espanhol.

Sorriu ao recordar como enfrentou Villegas. Era dura esta gringuinha. Uma lutadora. Merecia a liberdade.

Desejou mais que nunca poder deixar que partisse.


—Por que faz tudo isto, Ramón?

Estavam sentados sob um grande carvalho negro sobre um penhasco que dominava um formoso vale. O sol já estava muito baixo no horizonte, e seus brilhantes raios amarelos iluminavam os pastos dourados, a aveia selvagem e a mostarda seca. Uma águia planava no alto e as codornas se dispersaram como sementes no vento quando Ramón lançou uma pedra no centro da ninhada.

—Estamos lutando para recuperar nossas terras — disse. —É tão singelo como isso.

Tinham viajado lentamente. Ramón intuía que estava muito cansada, certamente depois de cavalgar tanto tempo lhe doía todo o corpo.

—Está violando a lei. Tornou-se fora da lei.

Pela primeira vez da noite do assalto, Carly pensava no futuro de Ramón e das famílias do refúgio. Não tinha imaginado que tal coisa pudesse lhe ocorrer, mas em realidade estava preocupada com ele.

—Não estamos fora da lei nem somos bandidos. Somos homens que só tentam recuperar o que é dele.

—A gente se equivoca muitas vezes, faz maus investimentos. E isso não significa que lhes trate injustamente.

—O governo permitiu que perdêssemos nossas terras.

—Como? Não posso imaginar que tenham feito voluntariamente uma coisa assim.

Possivelmente deixasse de fazer esses ataques se conseguia lhe convencer da inutilidade de seus esforços. Então estaria a salvo.

Olhou-lhe. Notou que apertava as mandíbulas.

—Não acredita em mim? É possível que não o fizessem de propósito. Não há modo de saber com segurança. Faz três anos seu governo ditou várias reformas. A ideia era acabar com as disputas pela terra e rebaixar a tensão entre os mexicanos de Califórnia — que acabavam de perder uma guerra com os gringos—e os imigrantes do norte. Mas os californianos não estavam preparados para vê-las com as leis norte-americanas.

Contemplava o vale e as penosas lembranças marcavam seus traços. A ninhada de codornas começava a reunir-se de novo para bicar as sementes e frutos dispersos no fértil chão, mas outra pedrada voltou a dispersá-la.

—Segue — disse Carly, em tom amável. —De verdade quero saber o que aconteceu.

Ramón suspirou em meio da crescente escuridão.

—Faz tanto tempo que os californianos habitavam estas terras que se acreditavam os proprietários. Seus "desenhos", os mapas que mostravam os limites de suas propriedades, muitas vezes não se encontravam disponíveis. E os que apareciam eram rechaçados ou discutidos pelos gringos. Os documentos eram antigos, os limites que indicavam eram imprecisos: descrições duvidosas de arroios que fazia tempo tinham trocado de curso. Indicações do tipo: onde há uma caveira sobre uma rocha, o ângulo reto para o oeste de uma encruzilhada onde está o carvalho inclinado, essas coisas.

—Compreendo.

—E chegaram os corvos. Homens como seu tio. Intrigaram e tramaram com outros gringos, procuraram maneiras de nos roubar a terra.

Carly estava tensa, com as costas apoiada contra a casca do carvalho.

—Meu tio? Não pode acreditar que tenha estado envolvido em assuntos como estes. Meu tio é um membro muito respeitado da comunidade. É evidente que você não gosta dele. O que nunca entendi é por que. Por que te teria feito tudo isso?

Olhou-a de maneira estranha.

—Não sabe? Nunca lhe disse?

—Me dizer o que?

—Que antes que chegasse, o Rancho dos Carvalhos pertencia aos De La Guerra. Seu tio roubou nossas terras.

O ar parecia assobiar ao sair de seus pulmões. Não podia ser verdade. Ramón mentia. Carly se sentou ainda mais erguida.

—Não pode esperar que acredite nisso. Meu tio não é desse tipo de homens.

—Apenas o conhece jovenzinha. Está na Califórnia há muito pouco tempo. Mas não é tola. Muito em breve descobrirá que o que te digo, é verdade. — Carly o olhou aos olhos, com a esperança de ver a mentira escrita em seu rosto. Começou a discutir, mas Ramón ficou de pé bruscamente. —É tempo de seguir. Ainda fica muito caminho pela frente e o dia passa muito rápido.

Carly ficou de pé a contra gosto. Suas pernas doíam, e a cada passo do cavalo, o duro couro do arreio roçava suas coxas e lhe danificava a pele. Mas ela seguia pensando no que acabava de ouvir.

Seria verdade? Seu tio teria roubado as terras dos De La Guerra? Não tinha a menor ideia a respeito de como tinha adquirido essa propriedade. Nunca tinha ocorrido perguntar-lhe e agora que pensava nisso, recordou que Lena se referiu ao rancho dos Carvalhos quando contou o tempo que passou na missão. Disse-lhe que a cobiça e o homem branco foram ao mesmo tempo. Que sempre encontravam uma maneira de roubar o que não podia comprar.

Naquela ocasião Carly estava tão cansada que não tinha prestado atenção. Agora desejava ter escutado melhor.

Cavalgaram duas horas mais e Ramón voltou a deter os cavalos. Carly fez uma careta de dor quando a desceu da montaria. O espanhol franziu o cenho.

—Tanto te dói?

Carly se ruborizou, envergonhada.

—É o arreio. Roça-me as pernas. Tenho a pele...

—Me deixe ver — ordenou.

—Não... Não há nada que possa fazer. Já cuidarei disso quando chegarmos.

— Carly vi as pernas de mais de uma mulher. Prometo-te que não perderei o controle nem te farei mal.

—Não me parece apropriado. Não posso deixar que você...

Antes que pudesse terminar a frase, a tomou nos braços, levou-a até um tronco caído, sentou-a em cima e levantou a saia amarela até muito mais acima dos joelhos. Carly se ruborizou intensamente, mas o espanhol só sorriu.

—Tinha que ter avisado antes. — Passou seus dedos longos pelo interior de suas coxas. Carly sentiu que algo ardia em suas vísceras. —Não pode continuar nestas condições. — Deixou-a sozinha e voltou até seu cavalo. Tirou algo da bolsa do arreio e retornou com um pote de unguento. —É para os cavalos — disse. —Para cortes e arranhões. Florência o prepara. Sempre o trago.

—Vai colocar em mim... Remédio para os cavalos?

—Você ficará quieta enquanto me ocupo de suas formosas pernas.

A intensidade da cor de suas bochechas aumentou. Sentiu o toque de suas suaves mãos passear por sua delicada pele enquanto aplicavam a pomada, e outra onda de calor estremeceu suas vísceras. Deus do céu, a mera contemplação de suas mãos morenas movendo-se por seu corpo lhe secou a boca e umedeceu as mãos. O perfume de pinheiro e rosas silvestres do unguento se mesclava com o aroma de cavalos de Ramón, a couro e a homem.

Terminou em poucos segundos, com movimentos destros e decididos. Mas, quando elevou a vista, obscureceram-se seus olhos e um músculo pulsava na bochecha.

—Obrigada.

Não disse nada por um momento, só a olhou com esses olhos quentes, escuros.

—Sabe quanto te desejo?

Carly tragou saliva e tentou não tremer: parecia que esse olhar a penetrava. Baixou e acomodou a saia sobre as pernas, mas não pôde lhe tirar os olhos de cima. Tinha sentido no mais profundo de seu ser um desejo quase incontrolável, quando suas mãos estavam acariciando suas coxas para pôr a pomada.

—Disse que não me faria mal.

—Não... Não faria isso. Far-te-ia amor. Primeiro tomaria com suavidade, até que se acostumasse a meu contato e depois entraria em ti tão fundo como desejo e te desejo cada vez que a olho.

Carly umedeceu os lábios. O calor aumentava no ventre. Não tinha imaginado quanto a desejava o espanhol. E menos ainda sabendo que tinha uma mulher tão formosa como Miranda.

—Sou sua prisioneira. Por que... Por que não tomou ainda o que deseja?

O acariciou sua bochecha com a mão.

—Porque já te fiz suficiente dano. É inocente. O homem que te abrace tem que ser seu marido, alguém que possa lhe proteger. Eu não posso lhe propor matrimônio, embora não fosse um bandido. Jurei me casar com uma mulher puro-sangue espanhol.

O coração de Carly se encolheu, pulsava dolorosamente. Não devia se importar. E não se importava, disse a si mesma.

—Miranda?

Esperava que a mulher de cabelo negro não fosse à escolhida. Não tinha esquecido a traição de Miranda e sua intriga com Villegas. Ramón merecia uma mulher muito melhor.

—Miranda só é espanhola em parte. Eu gosto dela na cama, mas nenhum dos dois quer casar-se. Ainda não escolhi uma mulher.

Carly sufocou uma onda de alívio.

—E realmente é tão importante que sua mulher seja espanhola?

—Sim. Fiz uma promessa. E prometi isso a mim mesmo e a minha família. Pelas veias da família De La Guerra corre sangue dos reis da Espanha. Meus filhos e os filhos de meus filhos têm que ter ascendência espanhola.

Carly não pôde menos que recordar a mina de seu pai e suas humildes origens. Os McConnell não tinham nada de realeza, mas isto não trocava quem era ela.

—Prometeu-o porquê odeia tanto aos gringos.

—Sim. Os gringos mataram meu irmão. Roubaram as terras de minha família. Eu sou californiano. E minha mulher e meus filhos também serão californianos.

Carly não disse nada. Sentiu uma pressão em seu peito, que apenas a deixava respirar.

—A pomada é boa — disse finalmente, esforçando-se por sorrir. —Acredito que já podemos continuar.

Ramón se limitou a assentir com a cabeça. Aproximou-se de seu cavalo e tirou uma manta da esteira. A pôs em cima dos arreios de Carly, sentou a jovem na sela e depois, saltou sobre seu garanhão negro.

Falaram muito pouco durante o resto da tarde, mas Ramón deteve várias vezes os cavalos. Comprovou que não chegariam a Llano Mirada antes do anoitecer.

Carly mordia os lábios. Recordava o desejo que tinha visto em seus olhos e o calor de seus dedos quando tocavam suas pernas. Perguntava-se se o espanhol tinha planejado tudo, se tinha previsto tomá-la como parecia desejar. Ou se podia confiar em sua palavra.

Ramón cavalgava muito erguido, molesto por ver-se obrigado a viajar tão lentamente. Não chegariam ao refúgio até o dia seguinte. Passaria toda a noite com a jovem.

Um som gutural saiu de sua garganta. Dormiria pouco essa noite. Depois dos tenros cuidados da tarde, o corpo de Ramón ainda se mantinha duro e alerta. Ainda recordava a pele suave e branca de Carly sob suas mãos e pensava que se tão somente as tivesse adiantado uns centímetros haveria tocado sua delicada carne de mulher. Poderia ter aberto suas formosas pernas, aberto também suas calças e haver-se afundado nela e assim aliviando o doloroso afã que sentia cada vez que a tinha perto.

Maldição, nunca tinha tido tanta vontade de deitar-se com uma mulher.

Chegaram a uma clareira junto a um lago pantanoso rodeado de juncos. Indicou a Carly que detivesse o cavalo. Um regato alimentava o lago e um montão de pedras margeavam a clareira e oferecia um pouco de abrigo. Acamparam em silêncio. Ramón entrou no bosque para caçar algum animal.

Não se afastou muito. Não tinha mentido sobre o perigo dos leões da montanha e os ursos. Pela tarde, tinha visto rastros recentes de ursos. E os touros selvagens de afiados chifres e péssimo temperamento estavam acostumados a ser o maior risco.

Retornou com um formoso e gordo coelho que Carly degolou e que assaram em um ramo verde de vime sobre o fogo. Mais tarde se sentou, apoiando as costas contra uma rocha de granito. Fumou um puro, enquanto observava Carly. Estava, junto ao arroio, tirando a gordura dos utensílios de estanho.

Carly terminou sua tarefa e se sentou frente ao fogo, a poucos passos de distância, dobrando de baixo dela suas bem formadas pernas e olhando ao espanhol com um pouco de inquietação.

Agarrou um raminho com folhas do chão e começou a retorcê-la entre os dedos.

—Estava pensando... — Elevou o rosto para lhe ver melhor e seu belo rosto se destacou à luz do já escasso fogo. —Estava pensando — repetiu — na noite do assalto... Por que me sequestrou?

Atirou o puro que tinha entre os dentes, tentando não distrair-se com o cabelo acobreado de Carly.

—Porque isso queria meu irmão. Li em seus olhos quando cavalgava para ti. Nesse momento, justo após que lhe dispararam, senti que eu era Andreas, que sua vontade era a minha e que faria o que ele tinha querido.

—Seu irmão ia me sequestrar?

—Sim. Tinha-a visto no dia da corrida. E a desejava.

Carly movia nervosamente sua língua sobre seus lábios. O ventre de Ramón se esticava.

—Seu irmão... Teria me violado?

Tragou o magro puro, expulsou a fumaça lentamente e observou como se dissipava no ar limpo da noite.

—Não sei. Nunca tinha feito algo assim... Mas nunca tinha estado com a sobrinha de seu pior inimigo.

Carly pesou essas palavras em silêncio e depois se inclinou para frente. A luz do fogo cobria sua pele pálida de rosa.

—E você, o teria deixado fazer?

Ramón contemplou esse rosto tão encantador, pensando quão inocente e pequena era, tão suave e feminina. Soube que não teria permitido que seu irmão a tocasse.

—Não.

A expressão de Carly trocou sutilmente. Sorriu-lhe com doçura.



—Possivelmente não me equivoquei tanto contigo.

Ramón sorriu na escuridão. Aspirou novamente à fumaça do puro.

—Se isso quer dizer que não me encontra tão desprezível, espero que seja certo.

Carly riu baixo, mas em seguida pareceu mais pensativa. As sombras se mesclavam com a luminosidade do fogo e criavam desenhos em sua larga cabeleira castanha. Ramón tentava não olhar quando a blusa rasgada se entreabria e deixava ver uma pele branca e parte dos erguidos seios. O sangue espessava e circulava pesadamente por suas veias. O calor chegava muito abaixo em seu ventre e aumentava sua excitação. Sorte que se sentou nas sombras.

—No que pensa? —perguntou.

Ela retorcia o ramo, distraída.

—Recordava o que fez ontem.

—Que sou o homem que matou Villegas?

—Não. Recordava como me sustentava, como me falava, com tanta doçura. — Mantinha a vista em seu rosto, lhe olhando através da distância que os separava. —Alguém me falou antes dessa maneira, de noite, quando estava doente. Tentava recordar. Por um tempo pensei que era um sonho. Foi você, verdade? Você foi o homem que estava junto a minha cama.

Ramón tinha se perguntado mais de uma vez se ela o recordaria.

—Sim, eu estava ali.

—Foi você quem cuidou de mim. Lembro que molhava minha testa. Uma noite despertei e... Estava rezando.

Ramón sorriu.

—Sim, querida. E por uma vez Deus escutou minhas orações. — Algo brilhou em seus olhos. Olhou-lhe como nunca tinha olhado.

—Obrigada.

Foi pouco mais que um sussurro.

Ramón não disse nada. Carly o observou um momento, estudou seu rosto como se tentasse ler seus pensamentos. Depois se levantou, cruzou a clareira e se dirigiu à esteira, que tinha colocado a certa distância da de Ramón.

Esta noite agradecia não dormir tão perto dele. Mas, com cada passo que dava, seus pequenos tornozelos se deixavam ver sob a prisão fortificada de sua singela saia de algodão. Ramón recordou então suas pernas e como estremeceram quando suas mãos percorreram suas coxas. Seus redondos seios tremiam sob a blusa e recordava seu tato quando os cobriu com as mãos. Endureceu-lhe o ventre e cada movimento de seus quadris lhe produzia um impulso doloroso sob as calças.

Custou muito controlar-se e não ir para ela, arrastá-la de baixo dele, levantar sua saia e penetrá-la. Carly era uma fome que não podia aliviar, uma febre no sangue que nada podia suavizar. E, entretanto, não podia deitar-se com ela.

Sentia-se enjoado de desejo, experimentava a mesma frustração ardente que em outros tempos tinha sentido junto a Lily. Mas Lily era uma mulher, uma puta com muita prática nas artes femininas, não era uma menina. Tinha terminado por aproximar-se dele e o tinha acolhido em sua cama. Tinha passado umas semanas gloriosas sob a branca luz da lua de Sevilha junto a Lily, a maior parte entre suas largas, brancas e bem torneadas pernas. Obcecou-se com ela, até que descobriu que não era o único insensato que compartilhava sua cama.



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