O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 08

—Senhor dom Ramón! —exclamou Lena, aproximando-se dele quando entrava na aldeia. Carly vinha também a seu lado, uns passos mais atrás, Florência estava com Tomasina e Serafina, esperando que chegasse Pedro com a pesada carreta que as levaria de volta a casa.

—A senhorita Carly diz que partem — disse Lena.

Parecia esgotada. Todos estavam. Tinha as bochechas fundas sob seus olhos escuros. Estava ainda mais magra que quando chegaram.

—Sim, é hora de que retornemos. Sua gente parece fora de perigo.

—Poderia dizer palavras de agradecimento, mas não servem de nada. As palavras não podem pagar a dívida que meu povo tem com vocês.

—Não há nenhuma dívida. Você me ajudou. Salvou a vida da senhorita. E isso é mais que suficiente.

Lena sacudiu a cabeça e sua franja balançou de um lado a outro sobre sua testa.

—Os homens brancos sempre quiseram nos matar. Você é diferente. Não o esqueceremos. — Voltou-se para Carly. —Vai com Deus, pequena Wah-suh-wi.

—Obrigada Lena — disse Carly e sorriu. —Ocupar-te-á de Dois Falcões, verdade?

—Antes que chegue a lua nova voltará a correr como um cervo e a fazer suas diabruras.

Ramón sorriu às mulheres. O trabalho tinha aproximado Lena e Carly. E a jovem também se fez amiga do menino. Ramón gostava de Dois Falcões. Cada vez que chegava à aldeia, o menino corria a lhe receber. Dizia que seu maior desejo era converter-se em um grande vaqueiro. Rogava a Ramón que o levasse com ele às Almas, onde poderia aprender as artes dos cavaleiros espanhóis. Ramón sempre havia dito que não.

Já tinha muitas bocas que alimentar. Não necessitava uma a mais. E, entretanto, sentia pelo menino. A vida que o esperava, no melhor dos casos, seria decepcionante. Mas um vaqueiro é um professor de cavaleiros. Tinha seu orgulho e gostaria de vê-lo florescer. Se tiver sorte, possivelmente poderia lhe encontrar um trabalho.

Carly o olhou e estendeu a mão.

—Como te chamou? —perguntou enquanto a acompanhava à carreta junto com as outras três mulheres.

—Wah-suh-wi. Esse é o nome índio que me deu.

—E significa?

—Girassol — disse e afastou o olhar, um tanto confusa. —Diz que quando sorrio há tanto brilho como quando sai o sol.

Ramón sentiu que algo se movia ligeiramente em sua alma.

—E assim é — disse com voz suave. —Exatamente como o sol.

As bochechas avermelharam e a boca esboçou um precioso sorriso. Mas voltou a afastar o olhar e olhou seus pés.

—Querem que retornemos Ramón — disse e voltou a lhe olhar o rosto. — Querem fazer uma celebração. Querem agradecer nossa ajuda com uma festa.

—E você gostaria de ir, jovenzinha?

A excitação que demonstrava Carly era resposta suficiente. Gostava deste traço de caráter de Carly, seu afã e sua alegria de viver. Era um traço muito importante de sua própria gente, mas que não parecia dar-se em quão norte-americanos tinha conhecido.

À medida que suas palavras penetravam nela, foi apagando o sorriso e a luz pareceu desaparecer de seus olhos.

—Mas sobre tudo gostaria de voltar para casa. Se me deixa partir, então sim, sim que gostaria de retornar.

Ramón tocou sua bochecha: tão suave como o peito de uma pomba. Suas cores se acentuaram até uma púrpura que o recordou a cor de uma rosa. Pensou na noite que tinha dormido em seus braços, instantaneamente seu corpo se endureceu. Só de pensar, seu pulso acelerou e voltou a sentir uma pressão impetuosa sob seu ventre.

Amaldiçoando-se, e amaldiçoando-a, afastou-se.

—Se esse for seu desejo — disse em um tom mais duro de que tinha querido — como poderia não estar de acordo?

Carly não disse nada, mas o sorriso tinha apagado por completo de sua boca e, com ela, algo do sol. Voltou-se para Florência, que estava junto à carreta de duas rodas.

—Estamos prontas para partir? —perguntou Carly à governanta.

—Sim, senhorita McConnell.

A robusta mulher se aproximou e indicou que se reunisse com as demais. Ramón tomou a Vento pelas rédeas e saltou em sua sela.

—Estou mais que preparado para partir. Só tenho vontade de dormir uma noite em minha própria cama.

—É curioso, mas também me agrada voltar para o refúgio — disse Carly. —Embora seja só para lavar esta roupa suja.

Começou a subir na carreta. Elevou um pouco a suja saia amarela e sem dar-se conta mostrou algo mais que o tornozelo. Ramón apertou as mandíbulas, pois o invadiu outra onda de calor. Adiantou o cavalo, inclinou-se e passou um braço pela cintura, agarrou-a e a elevou a seus arreios.

—A carreta vai muito cheia. Voltará para casa comigo.

Ela ficou rígida, mas não o importou. Ramón pensou que se Carly queria que ele a desejasse a todas as horas do dia, ele queria que ela sentisse o mesmo por ele. Assim decidiu fazer o necessário para que ela sentisse o mesmo.

—Você não gosta de montar em Vento? —sussurrou ao ouvido, roçando intencionalmente a borda da orelha com seus lábios.

Carly ficou ainda mais rígida e o mesmo fez o que havia dentro de suas rodeadas calças. Amaldiçoou-se por fazê-lo, mas não a deixou afastar-se.

—De Vento eu gosto muito — disse Carly e tratou de acomodar-se onde ele a mantinha apertada entre as coxas. —Mas você, senhor, às vezes me parece insuportável.

—Ah. Então terá que arrumar isso.

Desviou o cavalo e cavalgou para um bosque.

—Aonde vai? Onde me leva?

Sua voz se apagou enquanto a mão de Ramón se movia para cima, roçando apenas a parte baixa de um de seus seios. Era redondo e pleno, feminino, doeu-lhe não poder apertá-lo. Mas seus dedos se curvavam para capturar sua forma exata, para obrigar ao mamilo a voltar uma eminência palpitante. Perguntou-se se seria pequeno e firme ou grande e arredondado, perguntou-se qual tom rosado devia ter e se escutou ofegar. Apoiou os lábios contra a fenda de seu pescoço, saboreou a suavidade de sua pele branca e o desejo lhe penetrou como uma faca.

—Dom... Ramón...

Em sua voz, havia uma vacilação que antes não se manifestou... E algo mais, algo que reconheceu muito bem, pois seu próprio desejo aumentava com cada pulsar de seu coração.

—Sim, Carly — sussurrou brandamente. —Aqui estou. Ainda quer saber o que desejo?

Puxou as rédeas e deteve o garanhão atrás de um amontoamento de pedras, a obrigou a girar para que ficasse em seus braços. Tinha os olhos muito abertos e as bochechas acesas. Inclinou-lhe a cabeça para trás, percorreu seus lábios com um dedo, seus lábios se aproximaram muito devagar, e a beijou apaixonadamente.

Carly estremeceu com o contato. Começou a debater-se, assombrada pelo atrevimento do espanhol, decidida a liberar-se, mas a calidez exigente e dura de seus lábios, o suave calor que irradiava por seu corpo, a fez apertar os ombros contra ele. Seus peitos se pegaram aos poderosos músculos do homem e ondas de fogo a atravessaram. Sua língua lhe tocava a ponta dos lábios e a obrigava a abrir a boca. Então, Ramón se apoderou de toda sua boca, de maneira possessiva e ardente.

Carly gemeu ao sentir essa língua cálida e hábil, notava ondas de calor que se desdobravam em seu ventre. O braço que a rodeava pela cintura era firme e duro e implacável. Meu Deus era igual ao seu sonho.

Não, não era como seu sonho. Nenhum sonho podia ser como isto!

Carly se acomodou na sela. Seus mamilos se endureciam e se voltavam ainda mais sensíveis. Sentiu sua mão em um de seus seios, acariciando-o brandamente através da blusa, fazendo que o mamilo se distendesse e crescesse. Rodeou-o com a mão, moldou-o, percorreu-o por inteiro com os dedos, e depois deslizou a mão até tocar a pele nua que se entrevia pelo decote.

—Ramón — sussurrou — por favor...

Um profundo grunhido surgiu de sua garganta. Voltou a beijá-la com força, e depois se separou dela. Respirava muito rápido, olhava-a com olhos tão escuros que pareciam quase negros.

Carly umedeceu os lábios inchados pelos beijos, incapaz de deter os estremecimentos de seu corpo.

—Não pensava que queria... Não se supunha que você... Disse que estaria a salvo.

Um músculo se moveu em seu rosto.

—Sim querida. Tem razão. Não se supunha que faria isto. Foi uma tolice e muito perigosa. — Acomodou-a na sela, diante dele, e voltou em silêncio para as mulheres que esperavam na carreta. —A senhorita me convenceu que a deixe ir com vocês — disse Ramón sem mais comentários. —inclinou-se e a ajudou a baixar ao chão. Depois fez retroceder o garanhão uns passos.

Suas bochechas ardiam como o fogo, e seu coração seguia pulsando com tanta força que ele devia ouvi-lo, mas elevou a cabeça e ergueu os ombros. Avançou resolutamente para o carro e saltou atrás junto às outras mulheres. Não disseram nada e o cavalo baio que puxava a carreta elevou as orelhas e ficou uma vez mais em movimento arrastando o pesado carro de madeira pelo estreito que fazia às vezes de caminho.

Tampouco Carly disse algo. Mas ainda tremiam as vísceras e o coração seguia pulsando com um ritmo muito irregular. Olhou de soslaio ao espanhol, tratando de que não se desse conta, e observou que cavalgava triste, com uma expressão escura e inescrutável.

Estava molesto? Se for sim, esperava que a moléstia durasse pouco. Enquanto permanecesse em Llano Mirada, Ramón De La Guerra a tinha em suas mãos. Podia-a deixar livre ou a podia matar.

Ou podia possuí-la. Quando quisesse. De qualquer maneira, em qualquer parte. Tinha deixado isso perfeitamente claro em um instante.

Um tremor percorreu suas costas. Desta vez era frio e nada agradável. Não tinha esquecido o homem brutal que podia ser, não tinha esquecido sua crueldade.

Tampouco não tinha esquecido como se sentiu quando a beijou.

Meu Deus, se cedia a suas paixões, seu tio jamais a perdoaria. Já não seria virgem e o tio Fletcher se envergonharia dela. Até poderia expulsá-la. E não tinha aonde ir nem a quem recorrer. Não podia suportar a idéia de mais anos de solidão. Ansiava por um lar ou por alguém a quem ela importasse de verdade.

Mais que nunca antes desejou retornar ao rancho dos Carvalhos, à segurança com que ali contava, à nova vida que mal tinha começado.

E pela primeira vez Carly caiu na conta de até que ponto precisava escapar.


Ramón se ocupou de levar às mulheres até o refúgio, cuidando de que Carly não pudesse descobrir o caminho. Sánchez não falou quase nada no trajeto, mas sua careta de desaprovação era suficiente para entender, o que opinava.

—Não me diga nada— disse Ramón logo que estiveram sozinhos. —Só queria lhe dar uma lição. Mas terminei aprendendo algo eu mesmo.

—Oh? E o que é?

—Que não posso confiar em mim quando se trata de algo que se refira à gringa. Pelo sangue de Cristo, Pedro, não recordo ter desejado tanto a nenhuma mulher.

O velho vaqueiro se limitou a rir.

—A norte-americana tem fogo, verdade? É formosa, valente e forte. Se tivesse vinte anos menos, até eu seria tentado. Tem que decidir o que fazer com ela, Ramón.

—Nada posso fazer se quero conservar minha liberdade, exceto me assegurar de que permaneça aqui.

—Possivelmente se lhe explicasse as coisas... Se lhe dissesse a verdade. Sempre existe a possibilidade de que acredite em você.

Ramón se burlou de seu amigo.

—A mulher é uma gringa. Nunca ficará do lado de um californiano nem tampouco contra seu próprio sangue.

—Possivelmente tenha razão. Não sei. Mas vi coisas mais estranhas na vida. Aprendi que a verdade às vezes pode romper as barreiras da raça e a religião.

Ramón sacudiu a cabeça. Sánchez estava envelhecendo. Acreditar que a mulher escutaria... Que poderia confiar nela para conservar o segredo... Só pensar nisso era uma loucura.

Mas a ideia começou a dominá-lo. Ao dia seguinte, partiu para retornar ao rancho As Almas, decidido a manter a jovem à distância. Mas cada noite recordava o que tinha sentido ao beijá-la, imaginava como seria amá-la apaixonadamente. E cada dia recordava também o que havia dito seu velho amigo.

Se pudesse conseguir que compreendesse. Se lhe pudesse fazer ver a verdade sobre seu tio. Então poderia deixá-la voltar para o rancho dos Carvalhos. Resolveria o problema e cedo ou tarde a esqueceria.

Possivelmente devesse retornar ao refúgio e lhe contar a verdade. Não podia perder nada com isso.

Ramón estremeceu ao pensar que poderia perder a vida se alguma vez chegasse a ser tão louco para confiar cegamente nela.

Carly não sabia de onde veio a ideia, possivelmente veio dos instintos femininos que sempre tinha tido, mas que tinha descoberto recentemente.

Perguntou-se quem podia ajudá-la no recinto. E a resposta era... Ninguém. Todos eram leais ao espanhol. Quem podia ganhar algo a ajudando a fugir? Agora os conhecia muitos mais. Alguns eram mercenários, como insinuou Ramón quando chegou ali pela primeira vez. Estavam aí para ganhar parte dos lucros mal havidos. Mas não tinha dinheiro para lhes pagar. E as promessas valiam muito pouco nesse ambiente.

Então caiu na conta: Miranda.

Miranda Aguilar queria que ela partisse do recinto.

A mulher tinha ido à casa do espanhol aquele primeiro dia para deixar bem claro que ela era sua mulher. Não teria se incomodado em vir se a presença de Carly não lhe parecesse uma espécie de ameaça. Estaria disposta a ajudá-la?

Carly tinha aprendido a montar, ao menos um pouco. Ramón não a tinha ensinado. Partiu da aldeia indígena ao dia seguinte de ter voltado. Foi Ruiz e Sánchez quem deu umas lições. Eram bons cavaleiros e muito bons professores, pacientes e firmes, decididos a vê-la cavalgar como uma espanhola de alta linhagem.

Tinham-lhe ensinado a montar escarranchado, mas prometeram que se Ramón encontrasse uma sela de mulher, também a ensinariam desta maneira a montar. Ela o desejava. Sabia que a seu tio gostaria que montasse como uma dama educada.

De momento, bastava-lhe podendo controlar um cavalo para que a levasse longe.

Se pudesse convencer Miranda para que a ajudasse.

Carly se vestiu essa manhã com muito cuidado. Escovou o cabelo até que brilhasse com um resplendor acobreado e o prendeu com um bonito pente de prender cabelo de tartaruga marinha para que seu cabelo escorregasse sedutoramente sobre um ombro. Esticou o mais que pôde a parte superior de sua blusa para deixar à vista a máxima parte superior de seus peitos. E depois se encaminhou para a cabana de Miranda e bateu brandamente à porta.

Escutou passos, a porta se abriu de par em par, e a jovem de cabelo escuro saiu à galeria. Por um momento pareceu surpreendida, mas em seguida a surpresa se transformou em desgosto.

—Dom Ramón não está aqui — disse, olhando-a depreciativamente de cima a baixo.

Carly se limitou a sorrir.

—Bom dia Miranda. Um bonito dia, verdade?

—Parta! Já disse que dom Ramón não está.

—Não vim ver Ramón — disse Carly, utilizando de propósito a forma mais familiar. —Vim ver você.

—Por quê?

—Porque acredito que há algo que pode fazer por mim... Em troca de algo que posso fazer por ti.

Miranda a observou com frieza, depois botou para trás sua juba de brilhante cabelo negro e indicou que entrasse na casa. A cabana era pequena, só tinha duas estadias, mas o chão de terra estava tão limpo que parecia envernizado e do batente da janela penduravam umas cortinas recém lavadas. Carly pôde cheirar o doce perfume da mulher.

—O que a faz acreditar que eu possa fazer algo por você? —perguntou Miranda.

Carly tentava não pensar em quão bonita era a mulher, nem como parecia ágil e graciosa, nem que Ramón dormia em sua cama.

Concentrou-se em procurar as palavras adequadas para convencer Miranda de que ela era a mulher que Ramón preferia.

—Possivelmente você gostaria muito que eu partisse daqui. Se for assim, então é possível que possamos fazer um trato.

Os olhos de Miranda percorriam os seios de Carly, sopesando seu tamanho e forma.

—Ramón a quer aqui. Por que vou desobedecê-lo?

Estavam junto a uma mesa rústica e várias cadeiras, mas Miranda não ofereceu assento.

—Essa é, precisamente, a razão: Ramón me quer aqui. Ou possivelmente mais singelo: quer-me.

—Não quer você, puta. Por que a quereria? Já me tem.

—Se for assim, por que me beijou com tanta paixão?

Elevou violentamente o rosto e os olhos obscureceram de fúria, mas não de surpresa. Sabia que algo tinha acontecido entre eles. As mulheres da carreta deviam ter adivinhado. Possivelmente até acreditavam que Ramón partiu tão precipitadamente do refúgio por essa razão.

—Ramón é um homem — disse Miranda. —E os homens sempre desejam deitar-se com qualquer mulher que esteja disposta a os agradar.

Carly sorriu e se encolheu de ombros. E se voltou para a porta como se quisesse partir.

—Bom, se não se importa em compartilhar...

—Se você partir, Ramón não estará a salvo. Você o entregará às autoridades.

Carly se voltou e a olhou no rosto. Inclinou-se para frente e apoiou as mãos na gasta madeira da mesa.

—Não faria isso se fizermos um trato. Me dê sua palavra de que me ajudará a escapar e eu te prometo que não entregarei Ramón.

—Você é uma gringa. Como vou confiar em você?

—É a mulher de Ramón. Como vou confiar em ti? Poderia me enviar na direção equivocada. Poderia encarregar alguém para que me esperasse no caminho e me matasse. Se quisermos ter êxito devemos confiar uma na outra.

Miranda mordeu os lábios e o coração de Carly começou a pulsar esperançoso. As duas arriscavam algo. Cumpriria a mulher sua palavra? Os perigos que Carly tinha mencionado eram muito reais. Teria que ter muito cuidado e achar alguma maneira de proteger-se uma vez que estivesse a salvo e longe.

Quanto a ela, não diria nada com propósito de escapar. Negava-se a considerar se manteria seu silêncio uma vez chegado a sua casa.

— A farei saber esta noite — disse Miranda —Deixe sua janela aberta. A meia-noite direi o que decidi.

Carly partiu da cabana temendo deixar-se levar pela esperança, mas sentindo pela primeira vez que parecia haver uma possibilidade. Era evidente que a mulher a desprezava, mas Carly não acreditava que fosse capaz de assassinar ninguém. Era possível que a enviasse em uma direção equivocada com a esperança de que Carly morresse nas montanhas, mas o mais provável era que simplesmente dissesse que não.

Miranda se preocupava com Ramón e tinha razão. Carly pensava que se fosse sua mulher, faria o quanto pudesse para o proteger. Mas também faria todo o possível por afastá-lo de qualquer outra mulher.

A ideia a perturbava. Ramón De La Guerra era um bandido, possivelmente até um assassino, como havia dito seu tio. Seria capaz de lhe delatar? Inquietava-a pensar que poderia faltar a sua palavra.

Carly se queixou de dor de cabeça. Comeu com Pedro e Florência e partiu em seguida ao dormitório. Começou a passear nervosamente pela pequena estadia. A meia-noite, tal como tinha prometido Miranda, escutou uns suaves passos de mulher perto de sua janela.

—Senhorita McConnell?

—Aqui estou Miranda.

Estava de pé junto à porta aberta, mas não abriu as magras cortinas de musselina.

—Amanhã ao amanhecer um carro sai para procurar provisões a San Juan Batista. Leva-o um vaqueiro chamado Francisco Villegas. Faria o que for por um pouco de ouro. Paguei-lhe para que a desça das montanhas. Mostrar-lhe-á o caminho quando chegarem perto do rancho de seu tio.

Carly, muito excitada, fechou os olhos.

—Compreendo.

—Tem que estar na parte traseira do carro antes que saia o sol. Irá colocá-lo não muito longe de sua janela.

—Ali estarei.

—Conto com sua palavra? Ramón estará a salvo?

Carly respirou profundamente.

—Tem minha palavra.

—Se estiver mentindo, se disser a alguém que a ajudei, prometo que a matarei. Escuta-me?

—Sim — disse Carly e umedeceu os lábios.

O cascalho rangeu sob a janela quando a mulher partiu. Carly respirou lentamente. Não temia o que podia lhe ocorrer, nem o que faria uma vez que tivesse saído do recinto. Os acontecimentos estavam em marcha. E estava decidida a chegar até o final.

Passaram as horas. Tirou as mantas da cama e improvisou uma esteira onde ocultou o xale que o espanhol tinha dado, uma saia e uma blusa que tinha emprestado Florência e uma vela de sebo com seu grande candelabro de ferro forjado, que poderia servir de arma chegado o caso. Tinha juntado comida durante os dois últimos dias. Envolveu-a na grossa toalha de linho que tinha no vestidor junto à jarra de água, e o resto das provisões.

Atou a longa trança com uma corda e se recostou na cama. Mas não pôde conciliar o sono, agitava-se, voltava-se de um lado ao outro, olhava o teto e rezava para que tudo fosse bem.

Às quatro da madrugada, renunciou. Rabiscou uma nota para Florência, dizendo que não preparasse o café da manhã, que tinha saído ao amanhecer com as outras mulheres para banhar-se e lavar roupa no arroio, que comeria depois algo com Tomasina.

Algo que servisse para que demorassem em procurá-la.

Fazia mais frio do que tinha previsto. Tirou o xale e o colocou em seus ombros. Calçou as sandálias e saltou pela janela com a improvisada esteira na mão.

Não havia ninguém perto do carro. Subiu atrás e fechou a lona que o cobria. Os minutos passavam lentamente. Converteram-se em horas que destroçavam os nervos. Finalmente escutou vozes e o tinido do arnês dos cavalos que colocavam nas correias e suspensórios. O carro rangeu sob o peso do homem que saltou ao tosco assento de madeira. Francisco Villegas, havia dito Miranda.

Fazia frio fora, mas gotas de suor estavam entre seus seios. Tinha as mãos úmidas e seu coração pulsava com força. O carro adquiriu velocidade. A ponta do pesado candelabro de ferro se sobressaía de sua esteira, Carly o ocultou sob outros vultos. Esperou. Tentava não prestar atenção aos golpes que seu corpo dava contra as ásperas pranchas quando a carreta saltava no caminho poeirento.

De repente, deu-se conta de que o carro não tinha girado para a entrada do recinto, mas sim rodava em outra direção. Pela primeira vez, entendeu que não podia descer pela elevada encosta da montanha por onde tinha chegado.

Tinha que haver outra entrada a Llano Mirada. Ramón tinha mentido.

Parte da incerteza que sentia ao partir, dissipou. Não podia confiar em Ramón De La Guerra, por mais sedutor que parecesse. Já tinha acreditado nele e tinha terminado sendo sua prisioneira. Tinha-lhe prometido que estaria a salvo, mas finalmente a tinha beijado de maneira selvagem, tinha acariciado seus seios. E possivelmente tinha desejado fazer outras coisas. Quão único cabia era escapar do melhor modo que pudesse.

Tirou a lona e se levantou pela parte dianteira, perto do assento do carro.

—Mantenha-se abaixo e não faça ruído — disse uma voz rouca. —Há guardas no atalho. Ninguém deve vê-la.

Carly assentiu com um movimento de cabeça e voltou a pôr a coberta em seu lugar. Mas não pôde tirar da cabeça a imagem daquele homem grande e barbudo com um dente brilhante de ouro que conduzia a carreta.

Todos seus medos voltaram com força e não conseguia distrair-se com nada.
Pedro Sánchez franziu o cenho, apertou a correia de seus arreios, um garanhão pintalgado de cinza e montou de um salto. Florência retorcia as mãos gordinhas na soleira do abrigo.

—Onde pôde ter ido? —disse. —Nenhum dos guardas a viu sair.

Eram quase dez da manhã. Só tinham começado a procurá-la perto das nove, quando a governanta viu Tomasina, que se dirigia ao arroio para lavar roupa. Nem ela nem nenhuma das mulheres tinham visto Carly.

—Só pôde escapar de uma maneira — disse Pedro, em tom sombrio. —No carro com Cisco Villegas. Ultimamente o havia visto inquieto, ansioso por conseguir mais recompensas ou por gastar sua parte do dinheiro obtido dos cavalos.

Florentina fez o sinal da cruz sobre seu amplo e roliço busto.

—Mãe de Deus. Cisco é o pior de todos. A menina estaria melhor com um leão da montanha.

Houve uma comoção fora do curral. Pedro elevou a vista e viu que Ramón De La Guerra cavalgava para eles, montado em um alto cavalo baio.

Invadiu-lhe um grande alívio, misturado com a culpa por não ter sido capaz de manter a salvo a jovem gringa.

—Me alegro de lhe ver, dom Ramón.

—O que acontece, Pedro? Nota-te na cara que algo não anda bem.

—A garota desapareceu — disse, e suspirou. —Villegas é o único que a pode ter levado. — Ramón empalideceu. —Ruiz e eu iremos atrás deles. Sinto tanto, amigo, te haver falhado. Mas farei o possível para que retorne.

Ramón não pronunciou palavra, mas seu rosto se endureceu e seus olhos se voltaram uns poços negros de cólera.

—Não tem culpa. Eu queria que gozasse de certa liberdade. Não podia adivinhar que Villegas se aproveitaria disso. — Jogou o chapéu para trás, caiu sobre suas costas, pendurando de seu pescoço por uma magra fita trançada. Passou a mão por seu cabelo negro. —O bastardo quer vendê-la. Quanto faz que se foram?

—Foi em busca de provisões. Saiu com o carro ao amanhecer.

Ramón se deixou cair de seu cansado cavalo, passou as rédeas a Ruiz Domingo, que acabava de chegar, e se preparou para sair com Sánchez.

—Sela a Vento — disse Ramón. —Imediatamente.

—Sim, dom Ramón.

—Tem provisões nas bolsas? —perguntou a Sánchez.

—Sim. Pelo menos para uns três dias.

—Necessito-as.

—Direi a Florência que traga mais, se vier conosco.

Ramón sacudiu a cabeça.

—Irei sozinho. Ganharei tempo se o fizer sozinho. Além disso, este assunto é entre Villegas e eu.

Pedro quis discutir, lhe recordar que Cisco era um homem muito perigoso, mas finalmente não o fez. Só uma vez tinha visto antes o espanhol com este olhar tão terrível: a noite que tinha morrido seu irmão. A noite que tinha raptado a jovem.

—Necessito minhas armas — disse Ramón.

—Trago-as em seguida.

Quando Pedro voltou para o curral, Vento esperava selado e preparado, com uma esteira presa atrás da sela, cheio de provisões e um pesado rifle Sharp inserido na capa encostada em seus flancos.

Ramón ajustou na cintura os revólveres que trouxe Pedro e saltou sobre o grande cavalo negro.

—Se não retornar dentro de três dias, te dirija a Nogueiras com alguns homens. Encontre a jovem e mate Villegas... Porque ele terá me matado.

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