O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 07

Simón cruzou o recinto para o lugar onde Sánchez trabalhava com os cavalos. À maioria os tinham capturado em estado selvagem, nas escassas manadas que ficavam. Pedro, Ignácio e Ruiz os tinham treinado para montar.

—Bom dia, amigo — gritou Ramón ao vaqueiro. O velho trotou em uma esbelta égua bago até a grade de madeira. Os peões preferiam montar potros. Consideravam que as éguas eram para as mulheres e os meninos. Um homem de verdade montava um cavalo de verdade. Mas aqui nas montanhas, recorriam ao melhor que encontravam.

—Decidiu o que fará com a garota? —perguntou Pedro.

—Temo que não, meu amigo, ainda não. Visitei seu tio quando estive no vale. Passei pelo Rancho dos Carvalhos para manifestar minha preocupação pelo sequestro de sua sobrinha e oferecer ajuda para tentar encontrá-la. Disse-lhe que o sentia, mas que estava fora quando ocorreu o roubo.

—E?


—Disse-me que já procuraram nas terras altas, mas que não acharam rastros de sua sobrinha nem do Dragão. Supõe que pedirão algo assim como um resgate.

—E?


—E não aceitou minha ajuda. Tenho a sensação de que o que menos deseja neste momento é a ajuda de um californiano.

—Tem sorte — disse Pedro.

—Sim, muita sorte. Uma semana mais de rodeio com Fletcher Austin teria sido um atentado contra meus interesses.

—Não é porque quer estar aqui com a garota.

Ramón não fez caso da insinuação.

—Tenho uma dívida com ela. Não posso permitir que parta, mas há outras coisas que posso fazer para compensá-la.

—Como te deitar com ela?

Ramón se ergueu.

—Não seja besta, Pedro. Não farei nada que a desonre. Já lhe fiz suficiente dano.

—Tal como vão às coisas, espero que o deixe presente.

Ramón não disse nada. Desejava a jovem, é obvio que a desejava. Mas era virgem, e o matrimônio estava fora de discussão. Quando chegar o momento, casar-se-ia com uma mulher puro-sangue espanhola, tal como o tinha prometido aos seus.

Devia isso a sua gente, a sua família e a si mesmo.

Ramón suspirou. Oxalá soubesse o que fazer com Caralee McConnell, mas, enquanto não soubesse, faria o que havia dito e trataria de compensar o sofrimento que tinha provocado. Pensando nisso se encaminhou para a casinha de tijolo cru.
Cansada por uma noite de insônia, Carly saltou da cama justo quando Florência entrava precipitadamente na estadia.

— Veio dom Ramón. Quer que o acompanhe a um passeio a cavalo. Diz que se prepare rapidamente.

— Lhe diga que vá sozinho.

Florência fez o sinal da cruz.

—Meu Deus, não! Não pode dizer isso a dom Ramón!

Carly elevou o queixo.

—Possivelmente você não possa, mas eu sim. Me visto em seguida.

Ramón esperava pacientemente na sala. Poucos minutos mais tarde, Carly entrou golpeando o chão, vestindo a saia amarela e a blusa azul de camponesa. Levava o cabelo recolhido e preso com pentes de prender cabelos.

—Bom dia, senhorita — disse, ficando de pé — Está muito bonita esta manhã.

—Estou igual à ontem pela manhã. E estarei igual todos estes dias se esta for minha única roupa.

Ramón esteve a ponto de sorrir.

—Verei o que posso fazer. Enquanto isso, como está claro que recuperou as forças, me ocorreu que possivelmente você gostaria de visitar a aldeia indígena.

—Parece-me, dom Ramón, que não fui bastante clara. Ontem concordei em passear com você pelo recinto. Mas, fora disso, não quero suportar sua companhia mais do estritamente indispensável.

Ramón se encolheu de ombros, embora começasse a divertir-se. Gostava de sua atitude e sua fogosidade. Gostaria de ser o homem que a suavizasse e domesticasse.

—Isso está muito mal. É um lugar extremamente interessante. E a mulher, Lena, merece que lhe agradeça. É a mulher que veio aqui quando estava doente.

Ela sopesou esse ponto, estudando seu rosto com esses olhos cor erva da primavera.

—O senhor Sánchez foi muito amável. Possivelmente queira me levar.

—Temo que esteja muito ocupado. Portanto, só conta comigo. Há muito que aprender nessa aldeia, coisas que a ajudarão a entender este país. Mas... Se tiver medo de sair comigo, pode permanecer aqui.

Elevou ainda mais a cabeça. As formosas bochechas adquiriram coloração acesa.

—Não lhe tenho medo.

—Não?

—Se me nego, é só porque não quero saber nada de um homem como você.



Sairia com ele. Não deixaria que a dominasse. Estava disposto a apostar até o último centavo nisto. Permaneceu à espera.

—Por que faz tudo isto? A noite que me tirou da fazenda de meu tio não pensava em nada amável. Por que agora sim? O que quer de mim?

Percorreu com a vista todo seu corpo e finalmente se concentrou em seus saborosos lábios vermelhos. Soube, em um instante, o que queria, o que tinha querido todo o tempo.

—Quão único desejo, querida, é ver-te instalada em minha cama. Mas te prometo que isso não acontecerá. Já te disse que comigo está a salvo.

Carly abriu seus olhos o máximo possível, suas pupilas dilataram-se, não podia acreditar no que acabava de ouvir. Umedeceu os lábios antes de falar.

—Não sei... O que pensar de você. Um dia é cruel e o outro galante. Hoje se faz de descarado. Afinal de contas, dá-me medo.

—Não acredito — respondeu Ramón em voz baixa. —Possivelmente tem um pouco de medo de si mesma, mas já não me teme.

Carly não disse nada, mas o olhava como tentando ler sua mente, algo que nunca lhe permitiria.

—Sairá para cavalgar comigo, senhorita?

—Possivelmente poderia... Se soubesse montar.

Moveu a cabeça, sorrindo.

—Sim, tinha esquecido. Disse-me isso o dia da corrida. Possivelmente por essa razão preferiu caminhar até Llano Mirada.

Carly não pôde menos que sorrir ante seu tom provocador.

—É um homem duro, dom Ramón, mas pelo menos têm senso de humor.

—Como você, senhorita McConnell, devo confessar. —Então pegou sua mão e começou a caminhar. —A aldeia não está longe. Viajará comigo. E amanhã começaremos as lições de equitação. Você me disse que gosta dos cavalos. Faz tempo que deveria ter aprendido a montar se deseja permanecer na comarca.

Teve que admitir que a ideia resultasse muito atrativa... Sobre tudo se queria escapar. Desejava aprender desde que tinha chegado ao Rancho dos Carvalhos. Seu tio tinha prometido um professor, mas a ocasião ainda não se apresentou.

E tinha visto o espanhol montar. Nunca tinha visto tal desdobramento de habilidade com os cavalos.

—Ruiz! —chamou De La Guerra quando chegaram ao curral de troncos. —Selou a Vento?

—Sim, dom Ramón — respondeu o jovem vaqueiro, sorrindo. —E uma égua tranquila para a senhorita.

Era magro e forte, mais baixo que o espanhol, mas bonito, com um rosto agradável e perspicazes olhos escuros. O jovem lhe tinha levado comida e água durante a difícil travessia pelas montanhas. Possivelmente poderia voltar a ajudá-la.

Carly lhe sorriu. De La Guerra o notou e franziu o cenho.

—Pode deixar de lado à égua — disse em tom brusco. —A senhorita McConnell ainda não sabe montar. Amanhã começará suas aulas. Agora me traga o Vento. — O jovem assentiu e saiu rapidamente para cumprir a ordem. —Ruiz trabalha com Sánchez e com Ignácio. Encarregam-se dos cavalos que mantemos aqui no refúgio. É o mais jovem dos peões, o que não quer dizer que seja um louco.

Carly se ruborizou pensando no sorriso que lhe tinha dirigido.

—Não sei o que quer dizer.

—Estes homens me são leais, jovenzinha. Aqui ninguém te ajudará.

Carly endireitou as costas.

—O moço foi muito bom comigo nas montanhas. Muito mais que você. É agradável de ver e se quero lhe sorrir vou fazer.

A De La Guerra obscureceu o olhar.

—Você está sob meu amparo, senhorita McConnell. E isto será assim enquanto saiba comportar-se. E seduzir um de meus peões não é a maneira de fazê-lo. Está claro?

—Mas que descaramento! Suponho que considera uma conduta muito apropriada a atitude da jovem que conheci ontem. Suponho que isso lhe parece perfeitamente bem.

Encolheu-se de ombros.

—Sou um homem. É diferente em meu caso. Mas me alegra comprovar que está um pouco ciumenta.

E teve o atrevimento de sorrir. Era um sorriso tão brilhante e encantador que a Carly transtornou o estômago. Abriu a boca para negar suas últimas palavras, para disparar uma resposta insultante, mas o grande garanhão negro chegou nesse momento, excitado e ansioso por sair de passeio, agitando a formosa cabeça e golpeando o chão com as patas. Carly retrocedeu um passo, nervosa.

—Não tenha medo. Vento deseja sair para passear, mas não te fará mal. — Levantou-a com facilidade e a instalou no arreio e imediatamente saltou com graça e se situou atrás dela. Carly sentia seu braço ao redor de sua cintura, justo debaixo de seus seios e seu quente fôlego muito perto de sua orelha. Estremeceu, mas não era de frio. —Saiu o sol — disse ele — mas parece que sua enfermidade ainda não terminou de tudo. — E antes que pudesse detê-lo, já tinha ordenado a Ruiz que trouxesse da casa um xale, que acomodou sobre os ombros para protegê-la. —Assim esta melhor?

Carly assentiu. Só podia pensar no sonho que tinha tido de noite. Em cavalgar com o espanhol em seu grande cavalo negro, na fogosidade de seus beijos, na sensação de suas mãos sobre seu corpo. Perguntou-se quão longe estava à aldeia indígena e de repente, desejou ter rechaçado o convite para cavalgar.

O passeio resultou mais desconcertante do que tinha imaginado. As duras coxas masculinas a apertavam por trás, notava seu peito, seus fortes braços, estavam tão perto um do outro, que custava respirar. Avançavam através do custodiado atalho por onde tinham vindo, mas antes de chegar ao final giraram por outro caminho e penetraram sob uma espessa folhagem.

Sob a espessura dos ramos e apesar de que o sol lhes dava diretamente em cima, Carly não podia distinguir o norte do sul nem o este do oeste. Compreendeu, de repente, que isso era exatamente o que ele tinha planejado.

Já não tentou imaginar onde estavam e relaxou um momento, mas imediatamente voltou a endireitar-se ao sentir o contato do poderoso peito contra suas costas. E agradeceu que o espanhol detivesse o garanhão em uma colina que dominava a aldeia.

Estava em uma clareira rodeada de pinheiros. Eram entre quinze e vinte choças com forma de cúpula, feitas de barro e vime entrelaçado com juncos. A um extremo havia uma estrutura maior, meio cavada no chão, De La Guerra comentou que os espanhóis o chamavam um "temescal", era uma choça para descansar e onde os índios também guardavam as armas. Grandes canastos, do tamanho de um homem, penduravam das árvores e armazenavam bolotas e sementes.

—A maioria são índios yokut — disse Ramón, esporeando o cavalo. —Do grande vale central e do este. Também há miwok e mutsen — lhes chamam costeiros, pois antes viviam perto do mar.

—Por que vivem todos juntos agora? Acreditava que os índios viviam cada um com sua tribo.

—Assim era antes das missões. A maioria das tribos não abrangia mais de duzentos quilômetros quadrados. Mas quando chegaram os padres das missões, grande parte de seu modo de vida foi destruído. Não me entenda mal. As intenções dos padres eram boas. Acreditavam que os índios se beneficiariam do contato com a igreja. Aprenderiam a cultivar sua própria comida, a construir pequenos "rancheríos" para eles mesmos, e salvariam suas almas. Desgraçadamente nunca se adequaram a essa vida e eram sensíveis a todo tipo de enfermidades. A maioria morreu.

Carly sentiu uma onda de compaixão.

—E estes?

—Quando foi destruído o sistema de missões, entregaram-se parcelas de terras aos índios, mas eles terminaram por perdê-las. Enganavam-lhes com muita facilidade. Não lhes permitia dar testemunho nos tribunais, o que significa que não tiveram como defender-se. Foram trabalhar nos ranchos, mas agora nem sequer lhes serve essa vida. E voltaram para seus antigos costumes. As distintas tribos se reuniram em pequenos grupos, como este, nas montanhas.

—Meu tio me falou deles. Diz que assaltam os ranchos e matam pessoas inocentes.

Sentada diante dele no cavalo, percebeu o movimento de seus músculos quando se encolheu de ombros. Algo se revolveu em seu estômago.

—É ainda pior — disse. —Às vezes golpeiam a mão direita e sinistra. Estão lutando por sobreviver, como nós.

Como eu, pensou Carly, mas não disse nada. Continuaram descendo para o centro da aldeia, mas só uma anciã e dois jovens foram lhes receber. Os homens levavam barba e bigodes e vestiam somente um objeto parecido com uma tanga de pele de coelho. Na cabeça levavam uma rede para cabelo de fibra de algodão. As mulheres vestiam camisas soltas que chegavam um pouco acima dos joelhos.

—Estiveram nus durante milhares de anos — disse o espanhol, divertido pela expressão de assombro da jovem. —A escassa roupa que vestem agora é uma herança das missões. — Inclinou-se para frente para ajudar Carly a descer do cavalo e depois baixou. —Onde está Lena? —perguntou à anciã de costas encurvada. —E Trah-ush-nah e os outros?

Respondeu-lhe no castelhano que tinha aprendido na missão.

—Há uma enfermidade terrível. Começou faz mais de uma semana. Mata sem piedade. Não devem ficar aqui.

A tensão do espanhol era evidente.

—Varíola? —perguntou.

A mulher negou com a cabeça.

—A enfermidade a chamam sarampo. Já levou quatro dos mais velhos. Todos os homens e a maioria das mulheres estão doentes. Não há ninguém para cuidar dos meninos.

—Mas já avançou muito o ano para que tenham sarampo. Está segura de que é isso?

—Vi-o na missão. Eu mesma a tive.

Diminuiu um tanto a tensão do espanhol.

—Agora retorno ao refúgio. Verei quanto de minha gente já teve a enfermidade. Enviarei toda a ajuda que possa.

Rodeou com as mãos a cintura de Carly. Começou a levantá-la para deixá-la na sela, mas ela se liberou do abraço.

—Tive sarampo de menina. Posso ficar e lhes ajudar.

Algo brilhou no fundo dos olhos do homem.

—Cuidar dos doentes não é uma tarefa agradável, jovenzinha.

—Já sei. Cuidei antes de outros doentes.

—Sim — disse em voz baixa. —Parece-me que já o fez.

Carly o olhou com curiosidade, perguntando-se como podia saber que tinha cuidado de sua mãe e a quão mineiros adoeceram durante a epidemia de cólera. Tinha sido uma época terrível e o estômago doía somente de recordá-la. Tinha trabalhado até que já não se pôde manter em pé, mas não foi suficiente para salvar sua mãe. Quatro mulheres, dois homens e três meninos tinham morrido e ela tinha ficado completamente sozinha. Carly se obrigou a não recordar.

—Entretanto — disse De La Guerra —não me parece prudente que permaneça aqui. Apenas se recuperou da febre.

—Sinto-me bem — replicou ela —Faz dias que descanso. Quero ficar.

Contemplou sua expressão resolvida, a maneira como apoiava os pés na terra, solidamente e finalmente cedeu.

—Está bem. Deixo-te então, mas quero que me prometa que não tentará escapar. Perder-se-ia nos bosques e ali há muitos perigos, serpentes e leões da montanha, enormes ursos cinza bastante grandes para perseguir um homem. —tocou-se o queixo com os dedos. —Promete-me isso?

Abriu desmesuradamente os olhos.

—Irá aceitar minha promessa?

De La Guerra sorriu.

—Sim. Mas também acredito que é inteligente e sabe que sem preparação não chegará a nenhuma parte. E, como acabo de dizer, sua vida estaria em verdadeiro perigo.

Sabia que tinha razão. Por um momento tinha acreditado que confiava em sua palavra. Por alguma razão isso lhe teria gostado, embora pensasse escapar.

—Como diz, dom Ramón, seria uma loucura tentar escapar.

O espanhol se limitou a assentir com a cabeça. Durante um instante pareceu que se dava conta de sua decepção, que compreendia seus sentimentos. Não gostava da facilidade com que lia seus pensamentos. Carly lhe deu as costas e falou com a anciã Índia.

—Onde está Lena? Ela é a curadora, verdade?

—Vem. Levar-te-ei.

Carly se voltou para Ramón.

—Melhor que não volte com os outros. A ninguém servirá que você também adoeça.

Sorriu-lhe dessa maneira devastadora que lhe acelerava o coração.

—Também tive sarampo, jovenzinha. Conseguirei todas as provisões que possa e retornarei.

Carly o olhava e olhava. Que tipo de bandido ajuda a um montão de índios doentes? Por mais que se esforçasse, não conseguia compreendê-lo. Sem poder articular palavra, deu meia volta e seguiu à anciã encurvada para uma das choças com forma de cúpula.

A pouca distância da porta redonda e baixa, uma esbelta mulher estava de joelhos sobre o tapete de juncos entrelaçados. Aplicava uma espécie de emplastro sobre o estômago de um menino muito suscetível. Em um rincão havia canastos com sementes, raízes e pescado seco e no chão, havia várias peles de cervo e de urso umas sobre outras.

—Lena? —perguntou Carly e a esbelta mulher se voltou. Tinha traços finos, sobrancelhas magras e arqueadas e maçãs do rosto altas. Umas sombras escuras, de esgotamento, formavam uma sorte de vazio sob seus olhos.

—É a mulher do espanhol do acampamento — disse.

—Sou a mulher que ajudou quando estava doente — a corrigiu Carly, sem fazer caso do calor que a invadiu. —Espero poder te ajudar agora. Diga-me o que posso fazer.

Trabalhou muitas horas seguidas junto à Lena, cuidando das pessoas da aldeia. Deu colheradas de um líquido revigorante que combatia a desidratação e utilizou a água gelada do arroio, a última do degelo das montanhas, para molhar os rostos e combater a febre. Os doentes tinham uma tosse seca e uma erupção ardente na pele. Começava junto ao cabelo e no pescoço e dali se difundia por todo o corpo.

Lena preparou uma infusão de raiz seca de boj para a febre e Carly levava a amarga bebida em uma chaleira de madeira até os lábios dos doentes. Ajudou Lena a ferver folhas secas de trevo e formar um espesso e pegajoso xarope para tosse. Também fez um unguento de folhas de erva mora e manteiga de porco que se aplicava sobre a erupção.

Ramón retornou com mantas e comida, com Pedro Sánchez e três mulheres: Tomasina Gutiérrez, a esposa do ferreiro, Florência, a governanta de Ramón, e uma robusta mulher de grandes peitos, Serafina Gómez. Todos trabalharam sem descanso.

E também Ramón.

Trabalhavam até muito tarde. As mulheres se ocupavam dos doentes, os homens ajudavam na pesada tarefa de levantar os pacientes, cortar lenha, atiçar o fogo e cuidar dos cavalos. Cedo pela manhã, saíam para caçar nos bosques; caçavam coelhos, que logo preparavam e colocavam em grandes recipientes de ferro junto com cebolas silvestres e ervas.

Uma vez, depois da meia-noite, Ramón apareceu ao seu lado em uma das choças.

—Já tem fez bastante por hoje — disse. —Agora deve descansar. Vem comigo.

Puxou-a pelo braço, mas ela se soltou e voltou a ajoelhar-se ao lado de um menino recostado na palhinha de juncos. Não parecia ter mais de treze anos. Era um menino desajeitado, que sorria apesar da enfermidade.

—Não posso sair ainda. O irmão de Lena, Shaw-shuck, Dois Falcões, necessita deste chá para lhe baixar a febre. Está ardendo. Ele...

Ramón puxou das mãos trementes e cansadas a tigela de madeira.

—Eu me ocuparei do menino — disse. Deixou a chaleira a um lado e a pôs de pé. —Precisa descansar... Pelo menos um pouco.

—Mas...

—Prometo me ocupar de que o menino beba essa infusão.



Levou-a fora, através da pequena e baixa abertura da choça. Segurou-a, pois cambaleou e teve que apoiar-se nele. Tinha as pernas duras depois de estar tanto tempo ajoelhada. Jurou baixo e com toda soltura a tomou nos braços e começou a caminhar para trás da aldeia.

—Já estou melhor, estou bem. Pode-me baixar.

—Não. Faz o que digo e ponha seus braços ao redor de meu pescoço. Não devia tê-la deixado aqui. Ainda não se recuperou completamente de sua própria enfermidade.

—Só estou cansada e ponto. Florência e as demais estão tão cansadas como eu.

Mas fez o que disse. Pendurou-se de seu pescoço enquanto Ramón caminhava resolutamente. Tentou não reparar nos poderosos músculos que roçavam seus peitos nem na pele suave de seu pescoço, que suas mãos roçavam.

Deteve-se na margem do bosque e se ajoelhou sob um pinheiro afastado cuja folhagem formava um verdadeiro dossel em cima deles. A poucos passos, um fogo crepitava na silenciosa escuridão. Sob a árvore, havia um esteira desenrolada, o espanhol a depositou em cima com cuidado.

—Tem que dormir um momento. Se adoecer não poderá ajudar a ninguém.

—E os outros?

—Pedro se ocupará de que tenham onde descansar.

—E você? Também trabalhou todo o dia. Deve estar tão cansado como eu.

Sorriu e um relâmpago de brancura faiscou a luz do fogo.

—Como já te disse, sou um homem. As coisas são diferentes para mim.

Possivelmente fossem, mas ela não acreditava. Era mais forte, possivelmente mais decidido. Fosse o que fosse o fato é que à medida que passavam os minutos e continuava recostada na esteira, as pálpebras pesavam mais e mais até que nada importou. Dormiu, mas não descansou bem, agitava-se e dava voltas, sonhou com sua mãe e com a terrível e feia morte por cólera que tinha combatido na mina. Então algo quente se aconchegou ao seu lado, algo sólido e forte que anulou as lembranças. Por fim pôde dormir, profundamente.

Pela manhã, despertou embalada entre os fortes e sólidos braços do espanhol.

A respiração de Carly era um assobio e seu coração golpeava violentamente contra o peito. Tentou mover-se, mas tinha soltado o cabelo e uma mecha estava apanhada sob o largo e poderoso ombro de Ramón. Uma das pernas De La Guerra se situou muito acima entre suas pernas e suas nádegas se apertavam intimamente contra o ventre do espanhol.

Meu Deus! Os batimentos de seu coração se aceleraram ainda mais e já ressonavam nos ouvidos. O fôlego do homem era uma brisa contra seu pescoço e lhe movia o cabelo junto a uma orelha. Os músculos de sua coxa pareciam uma rocha e a pressionavam de maneira perturbadora. Carly se moveu, tentando liberar-se sem despertar, tentando não fazer caso do crescente calor que sentia em seu estômago nem da debilidade que invadia todos seus membros.

—Seria melhor, querida — disse ele em voz baixa — que agora não se movesse desse modo.

Carly se imobilizou. Era a primeira vez que notava a excitação de um homem. Notava contra suas nádegas o duro penhasco de desejo palpitando à espreita contra a parte dianteira da calça de Ramón. Era ingênua, mas soube em seguida o que significava essa pressão.

—Eu... Como... Por que está...?

—Silêncio. Não tem por que se assustar. Custava a adormecer, isso é tudo. Fecha os olhos e volta a dormir. Amanhecerá muito em breve.

Carly tragou saliva, apertou as pálpebras e se acomodou em uma posição menos íntima. Mas ele manteve seus braços ao redor dela. Carly tentou relaxar-se, controlar a tensão que dominava seu corpo, mas não havia modo de que conseguisse conciliar o sono.

Não com ele abraçando-a. Não com sua formosa boca a poucos centímetros de seu pescoço.

O espanhol suspirou, soltou-a, puxou a manta e se incorporou.

—Possivelmente tenha razão depois de tudo. O sol sairá pelo horizonte dentro de poucos minutos. Temos que pensar nos outros, fica trabalho. Prepararei um pouco de café.

Carly afastou o cabelo enredado de seu rosto.

—Obrigada.

Mas tinha a boca tão seca que as palavras se engasgaram em sua garganta e não sabia se ele as escutou.

Os dois dias seguintes trabalharam dia e noite. Morreram dois dos pacientes de Carly. Mas o menino, Dois Falcões, viveria. Tinha doze anos, conforme disse Lena. Era um menino bonito, de altas maçãs do rosto e negro cabelo liso. Sempre sorria e parecia agradar ao espanhol tanto como a Carly. Ela nunca esqueceria a imagem do alto e bonito espanhol de joelhos junto ao menino, embalando sua cabeça enquanto aproximava de seus lábios ressecados uma tigela de caldo.

Todas as noites tinha dormido a seu lado, não tão unidos como na primeira noite, mas o bastante para poder lhe tocar se tivesse querido. E ele, cada manhã, ao despertar, estava ali, observando-a com um olhar estranhamente protetor. Ontem pareceu nervoso e começou a distanciar-se. Ontem à noite tinha chegado muito tarde. E esta manhã, quando Carly despertou, De La Guerra já tinha partido.
Ramón observava à jovem, que caminhava pelo recinto para a curadora. Seu rosto estava pálido, tinha a roupa suja e enrugada e o cabelo ligeiramente despenteado, mas não se queixava. Tinha trabalhado sem pausa durante três dias, fazendo tudo o que pediam, por mais desagradável que fosse a tarefa. Não era absolutamente a mulher que tinha imaginado, não era egoísta nem desdenhosa nem preocupada somente com dinheiro e os luxos que este implica.

E tudo isto, o fazia sentir-se ainda pior por havê-la tratado tão mal.

E fazia que a desejasse mais que nunca, mais do que nunca tinha desejado uma mulher desde Lily. Possivelmente ainda mais que a Lily.

Quando dormiu a seu lado naquela primeira noite tinha sonhado que estava penetrando-a, afundando-se em seu calor suave e úmido, esquecendo suas responsabilidades para com sua gente, esquecendo a promessa feita a seu irmão de recuperar o Rancho dos Carvalhos.

Em troca imaginou, lhe fazendo amor, saboreando seus beijos, entrando nela até despertar sua paixão, amá-la. Queria deixar livre seu ardente desejo que por um tempo poderia obter que esquecesse a morte de seu irmão.

Não mais duelos por Andreas.

Não mais preocupação pelo futuro, pelo que fazer por sua gente quando se esgotasse o dinheiro ganho com a venda dos cavalos. Martínez e o resto de seus homens tinham retornado a salvo ao refúgio. O dinheiro dos cavalos duraria uma temporada, mas cedo ou tarde se acabaria. Sem seu irmão Andreas, as expedições do Dragão seriam muito mais perigosas. Os do rancho não demorariam muito em dar-se conta que cada vez que havia um assalto, ele não estava no rancho.

E ficava por resolver o problema da garota. Não podia deixar que partisse e tampouco podia retê-la. Se o fazia, cedo ou tarde lhe falharia as forças e a levaria a cama.

Mãe de Deus, oxalá soubesse o que fazer!

Ramón passou a mão pelo cabelo e depois colocou seu chapéu negro de asa larga sobre a cabeça. Pensaria em algo. E tinha que pensá-lo logo.


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