O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 05

Esmigalhado entre a cólera e a compaixão, Pedro Sánchez observava ao homem que considerava como seu próprio filho. Ramón De La Guerra estava de pé junto à tumba de seu irmão, sob um enorme carvalho. Sustentando seu chapéu em suas mãos, com os olhos fechados e a cabeça inclinada. Era tarde. O padre Xavier tinha terminado cedo pela manhã a breve missa pela alma de Andreas. Desde esse momento, Ramón havia retornado três vezes à tumba.

Agora se afastava dali, caminhando para o recinto, embora não ia a sua casa nem sequer para dormir. Suspirando no silêncio, Pedro pensou partir e deixá-lo para que continuasse com seu duelo, mas sua raiva não o deixaria... Intuiu que possivelmente Ramón necessitava algo mais no que afirmar-se além da morte de seu irmão.

Apertou as mandíbulas. Pedro sabia agora exatamente o que era esse algo mais.

Atravessou o espaço que os separava e foi ao lado de seu amigo.

—Preciso falar contigo, Ramón. Há algo que devo te dizer.

—O que é Pedro? —perguntou Ramón, elevando a cabeça.

—É sobre a jovem.

—Não quero falar dessa garota.

—Não? Possivelmente tenha razão. Possivelmente seja melhor que veja o que fez por si mesmo.

Voltou-se, incômodo.

—Do que está falando?

—Vem comigo.

Sem dizer mais, Pedro se encaminhou para a casa. Ramón o seguiu de perto. Entraram na pequena construção de tijolo cru e imediatamente, perceberam o aroma das pimentas vermelhas que coziam a fogo lento em uma pesada panela de ferro que pendurava sobre o fogo da lareira, e o som da massa que golpeavam e convertiam em omeletes redondas.

Florência, uma mulher baixa, forte e de cabelo negro, de uns cinquenta anos, voltou-se ao escutar o ruído da porta, que fecharam com força.

—A comida já está quase pronta, dom Ramón — disse —Já é hora de que coma algo.

Ramón não disse nada, só seguiu Sánchez para a porta que dava ao único e pequeno dormitório. O velho vaqueiro abriu a porta e Ramón entrou.

Pedro se voltou e lhe olhou à cara.

— Culpou à garota pela morte de Andreas. E culpa a si mesmo. A garota não fez nada que nós não tivéssemos feito em iguais circunstâncias. Você somente fez o que desejava seu irmão. Não poderia ter evitado nada do que ocorreu. —Ramón não disse nada. Contemplava o pequeno vulto abaixado na cama. — Já é hora de que perdoe à garota. E possivelmente seja mais importante ainda que perdoe a si mesmo.

Carly jazia inconsciente, seu pálido rosto estava suado e as mantas afastadas a um lado, a roupa tinha subido até os joelhos. Viu que a camisola estava limpa. Florência devia ter lavado, ou conseguido uma de Miranda ou de alguma das garotas indígenas. Já não havia sujeira nem em suas pernas nem em seus pés, mas as feridas e os arranhões seguiam ali, alguns muito profundos. Ainda notava a marca na bochecha. Suas pálpebras se agitavam de vez em quando, como se os sonhos que tinha fossem ainda mais desagradáveis que a jornada que a tinha deixado nessas condições.

Ao Ramón secou a boca. O ar parecia arder em seus pulmões. Sentia que o sangue partia de seu rosto, devia estar mais pálido inclusive que a menina.

—Se está procurando uma penitência, amigo meu — disse Pedro em voz baixa— tem que pagar por este crime.

Ramón se inclinou, segurou-se nas bolas de bronze que havia aos pés da velha cama de ferro. Aconchegada no centro da cama, a jovem parecia uma menina inocente, com as mãos empunhadas sob o queixo, as pernas dobradas, o brilhante cabelo escuro enredado e sem pentear ao redor dos ombros.

Ao Ramón encolheu o peito, doía respirar.

—Mãe de Deus, o que tenho feito?

A tensão de Sánchez diminuiu quando se aproximou dele.

—O importante é que te importa, que parece pensar outra vez com claridade. Florência e eu cuidaremos da garota. Quando estiver melhor, pode...

—Eu me ocuparei da garota. Isto é minha culpa. Tudo isto. Por Deus, não posso acreditar que eu seja o responsável por uma coisa assim.

—Todo mundo comete enganos, meu amigo. Até você. O sábio aprende de seus enganos.

Ramón se limitou a sacudir a cabeça.

—Disse-me que era culpa dela, que ela era a culpada do que aconteceu a Andreas. Está mau o que fiz. Imperdoável. — Tirou a jaqueta de couro negro, deixou-a na cadeira e se sentou junto à cama. Inclinou-se e apoiou uma mão na testa da jovem, estava ardendo. —Tem muita febre — disse.

—Sim. Florência tentou baixar, mas até agora nada resultou.

—Me traga um pouco de água e vários panos limpos. Diga a Miranda que procure a Índia da aldeia. Diga-lhe que vá com Ruiz e que a traga o quanto antes melhor.

—Vou agora mesmo, chefe. —disse Pedro, sorrindo.

Ramón elevou a vista ao escutar essa palavra, que muito poucas vezes usavam entre ambos. Algo brilhava nos olhos do velho vaqueiro, possivelmente respeito, possivelmente aprovação.

—Obrigado, amigo — disse Ramón em voz baixa.

Havia um tremor no ar, um silêncio que dizia o que cada um sentia pelo outro. Então, Sánchez fez um gesto com a cabeça, retirou-se da estadia e fechou a porta.

Ramón passou toda a noite sentado junto à jovem, refrescando sua testa, abrindo a camisola e molhando os ombros, as pernas e os pés. Teria gostado de tirar sua roupa, para atendê-la mais completamente, mas se negou a submetê-la a mais vexames. Sabia o orgulhosa que era. E podia imaginar o que sofreria seu orgulho se pensasse que ele a havia visto nua.

Teria sorrido se não se sentisse tão mal. Inclusive sem atentar contra sua modéstia, podia apreciar quão formoso era seu corpo. Delineava-se nitidamente sob a magra malha de algodão: a estreita cintura, formosas pernas e altos seios cheios. As nádegas eram redondas e muito femininas, o pescoço pálido e esbelto, suas mãos pequenas e bem formadas.

Tomou desordenada cabeleira em suas mãos. Era de uma cor marrom canela. Em outros momentos, tinha brilhado esplendorosamente. Franziu o cenho. Agora não tinha como sua proprietária, o brilho de antes. Não podia lavá-lo para não aumentar a febre. Ocupar-se-ia de solucionar este assunto apenas quando estivesse melhor.

Estava umedecendo seu rosto quando recordou que se chamava Caralee. Carly havia dito ela. Um nome bonito, simpático e decidido como ela própria. Prometeu-se que voltaria a ser como antes.

Tossia e se movia na cama enquanto dormia. E de repente começou a falar, o que tirou Ramón de seus pensamentos. Em um começo as palavras não eram coerentes, resultado da febre, expressões sem sentido. Mas pouco a pouco as palavras começaram a formar frases.

—Pa é você, Pa? Amo-o Pa. — Apertou os lençóis com suas pequenas mãos e começaram a correr lágrimas por suas bochechas. —Não vá, Ma, por favor não me deixe.

Apartou-lhe o cabelo úmido da testa.

—Não está sozinha, menina — respondeu com o mesmo acento inglês que ela estava utilizando. —Descansa tranquila.

—Não vou fazer — disse Carly de repente. —Não vou deixá-la sozinha. Está doente. Está morrendo. Não me importa se me contagio. Não vou.

Ramón se inclinou para frente, escutando suas palavras, com um gesto de dúvida que o fez franzir o cenho. Nesse momento entrou Pedro.

—Não dormiu toda a noite, Ramón. Sentar-me-ei para cuidar da menina enquanto descansa um pouco.

— Esteve falando, Pedro. Falei com ela em inglês várias vezes, mas agora falava de outra maneira. Suas palavras estavam acostumadas a ser refinadas e cultas. E agora falou como esses gringos analfabetos que chegam aqui em busca de ouro. Há algo que não está bem.

—O que crê que pode ser? —perguntou Pedro, aproximando-se.

—Não sei, mas penso averiguá-lo. —Inclinou-se um pouco mais, escutou-a falar outra vez e se voltou de novo para seu amigo. —Quero que procure Alberto. Sua prima, Candelária, trabalha na fazenda dos Carvalhos. Ajudou-nos antes. Diga-lhe que trate de averiguar o que puder sobre nossa convidada.

—Enquanto isso, direi a Florência que deve cuidar...

—Fico aqui.

—Mas precisa descansar. Tem que...

Por favor, Pedro, faça o que digo. Diga a Alberto que precisamos saber algo o quanto antes.

Sánchez se limitou a assentir. Não tinha sentido discutir. Ramón tinha decidido ficar.

—Farei o que diz.

Passaram quatro dias. Dias longos nos quais Ramón quase não dormiu. Mas Carly piorava. Sua respiração era ofegante, soava a oco, tal como a de seu irmão pouco antes do fim. A adaga do remorso se retorcia com mais força em seu interior.

A mulher indígena chegou ao segundo dia. Trah-ush-nah, Arrendajo Azul, era seu nome. Os californianos a chamavam Lena era o nome que lhe tinham dado na missão. Era magra e de pele escura, com cabelo comprido e liso, com franja sobre a testa, conforme ao estilo da maioria das indígenas da região, mas seus traços eram mais suaves, mais refinados. Era jovem, de pouco mais de vinte anos, chamán por tradição familiar.

Não fez caso de Ramón enquanto trabalhava. Utilizou um morteiro e moeu cascas de limão até as converter em pó. Após esquentou no fogo, formando um caldo, e finalmente o deu a beber a jovem. Fez uma infusão de casca de abedul e obrigou a paciente a beber a cada três horas. Massageou Carly no peito com um unguento preparado com manteiga de porco, sementes de calandrinia e pepitas assadas de ranúnculo. Refrescou seu rosto pálido com um leque de plumas de águia. Ao Ramón não importava o que fizesse contanto que a jovem melhorasse.

Mas ao quarto dia tinha abandonado quase toda esperança. A mulher indígena tinha retornado a sua aldeia depois de dizer que tinha feito todo o possível. Se Carly não estivesse melhor na manhã seguinte, teria que chamar o sacerdote.

Eram duas da madrugada e, entretanto, um abajur ardia ainda na tosca mesinha junto à velha cama de ferro forjado. Ramón não podia dormir. Mal tinha comido algo. A mera ideia de uma nova morte em sua consciência provocava náuseas. Que fosse uma mulher, que fosse tão jovem e que ele fosse o responsável produzia um nó quente de dor na garganta.

Mãe de Deus, ele nunca tinha querido que isso acontecesse! Se só tivesse podido controlar sua tristeza. Se só tivesse podido pensar, dominar a dor.

Se só a tivesse deixado no Rancho dos Carvalhos.

Com o coração insuportavelmente pesado, e esgotado até os ossos, Ramón permanecia sentado e inclinado no assento, apoiando os cotovelos nos joelhos. Enlaçou os escuros e largos dedos, baixou a testa contra as mãos e começou a rezar em voz baixa.

Alguém a chamava. Carly mal ouvia as palavras, mas eram suaves e queixosas, um som incrivelmente formoso. A voz era profunda, rouca, melodiosa. Apelava à Virgem Maria, a San Juan, aos anjos do céu. Por favor, dizia a voz, permita que viva esta pequena.

Umedeceu os lábios e se moveu um pouco, atraída pela voz, pelo ritmo sensual das palavras. Reconheceu vagamente, que falava em espanhol. As profundas e sensuais vibrações a penetravam em ondas suaves e acariciadoras. Comoviam algo em seu interior, faziam que desejasse abrir os olhos para saber de onde provinham essas frases poéticas e líricas e argentinas.

Escutava a rica cadência masculina, que exigia e implorava uma e outra vez. O timbre masculino resultava um bálsamo para sua alma. Desejava ver o rosto atrás daquela voz, verificar se era tão admiravelmente belo como a voz.

Incorporou-se um pouco e abriu os olhos. Viu um homem de cabelo negro que rezava em voz baixa junto a sua cama. O rosto era tal qual esperava: sobrancelhas negras perfeitas, nariz magro e reto, maçãs do rosto altas e pronunciadas, uma mandíbula forte e uns lábios sensuais. Uma dupla fila de espessas pestanas negras tocava a pele sob os olhos fechados. Tinha a cabeça inclinada, o cabelo caia sobre a testa e havia lágrimas em suas bochechas.

—Não chore — disse Carly nessa mesma linguagem suave. —Você é... Muito formoso... Para chorar.

A cabeça se ergueu de súbito. Não disse nada durante um instante. E depois o espanhol falou tão rapidamente que ela não conseguiu distinguir suas palavras, mas seu amplo e brilhante sorriso a fez sorrir a sua vez.

—Menina — disse brandamente — por fim voltou conosco.

Observou-lhe um longo momento, hipnotizada pela calidez e força de seu rosto.

—Estou... Tão cansada — sussurrou, umedecendo os lábios, sem deixar de olhá-lo. —E tenho fome. Poderia me conseguir algo de comer?

Levantou-se da cadeira, alto e esbelto e de largos ombros.

—Sim, é obvio. Ocupar-me-ei eu mesmo. —Secou a testa, suspirou aliviado, inclinou-se para ela e roçou a mão. Adicionou — Não se mova. Prometo que voltarei em seguida.

Sorrindo, Carly se acomodou sob as mantas. Agradava-lhe que o homem estivesse ali cuidando dela. Quando voltasse a despertar, estava segura que contaria com algo bom para encher seu estômago vazio.
Caralee McConnell havia voltado a dormir quando Ramón voltou com uma sopa quente. Mas já não tinha febre. Suas orações tinham sido escutadas. Estava seguro de que a jovem viveria.

O alívio fez que de repente sentisse o cansaço. Deixou a bandeja de comida no vestidor, instalou-se na cadeira e se permitiu dormir um momento, até que Pedro bateu à porta. O amanhecer já se mostrava na janela embora o frio da noite seguisse reinando na estadia. Levantou-se da cadeira e esticou sua dolorida musculatura e depois se ajoelhou para atiçar o fogo.

—Baixou a febre — disse a seu amigo quando este entrou. —Acredito que ficará bem.

—Obrigado, Virgem Maria — disse Pedro, fazendo o sinal da cruz.

—Já agradeci — disse Ramón, com um sorriso, a primeira que se permitia em mais de uma semana.

—Tenho notícias, Ramón — disse Pedro, com um suspiro.

—Do Alberto?

—Sim. E me parece que não irá gostar.

—Ultimamente eu não tenho gostado de nada — disse Ramón, franzindo o cenho. —Mas me diga do que se trata.

—A jovem... A senhorita McConnell. Não é a mulher que crê.

—O que significa isso?

—Candelária, a prima de Alberto, trabalha como faxineira pessoal da senhorita. Diz que o tio da garota lhe ordenou não falar de seu passado. Mas estava muito sozinha. Acredito que necessitava uma amiga. Confiou em Candelária e lhe contou a verdade.

—A verdade?

—Sim.


—E qual é essa verdade?

—A garota não é rica, como acreditávamos. Seu pai era um pobre mineiro ignorante. Morreu do pulmão quando a senhorita ainda não tinha dez anos. A garota e sua mãe se dedicaram a lavar roupa para ganhar o pão. Sua mãe morreu de cólera faz quatro anos. O senhor Austin é irmão de sua mãe, o único parente que tem. Enviou-lhe dinheiro e depois a matriculou em um bom colégio para que terminasse sua educação e aprendesse boas maneiras. Candelária diz que a senhorita deseja lhe pagar por tudo o que tem feito por ela. Obedece-lhe, inclusive quando não está de acordo. Foi ele que se negou que ela dançasse contigo. Ordenou-lhe que não te incentivasse em nenhum sentido. Candelária diz que a garota se sentiu muito mal pela maneira como te tratou quando lhe deu de presente uma rosa. Candelária diz que a senhorita não trata mal a ninguém.

Ramón sentiu que em seu estômago produzia um oco profundo. Equivocou-se muitas vezes na vida, mas nunca como agora.

—Tratei-a muito mal.

—Sim, é certo, mas pelo menos agora sabe a verdade.

Ramón começou a passear aos pés da cama.

— Vou reparar isto com ela. Procurarei uma maneira... Juro-o.

A mulher se moveu na cama. Ramón foi ao seu lado no momento que abria os olhos.

—Você! —gritou e teve um instante um enjoo e ao mesmo tempo seu belo rosto empalideceu—O que faz em meu dormitório?

Pedro, prudentemente, manteve-se em silêncio, retrocedeu, saiu e fechou a porta.

—Parece-me, menina, que este é meu dormitório, não o teu — disse Ramón, brandamente e sorrindo. Branca como o papel, compreendeu de repente a verdade, e um tremor percorreu seu corpo; seus olhos mostraram medo por um instante. Ramón amaldiçoou interiormente. —Não se assuste menina. Não lhe farei mal. Dou minha palavra.

—Sua palavra? — Incorporou-se e se apoiou no respaldo da cama. O esforço fez que seu débil corpo estremecesse. —Que valor pode ter a palavra de um homem como você?

—Mais de que poderia acreditar — disse em voz baixa. —Mas não a culpo por abrigar alguma duvida. De momento, não quero que se esforce. Sua enfermidade foi longa e grave. Necessita tempo para ficar bem e recuperar as forças. Descansa tranquila, pequena. Direi a Florência que traga algo de comer.

O espanhol saiu do quarto e Carly ficou olhando a parede, assombrada. Tremendo apreensivamente por sua debilidade produto da enfermidade, tentou recordar a cena que acabava de ter com Ramón, mas as imagens muito em breve se voltaram imprecisas, como desfocadas. Essa amabilidade era impossível. Nele não havia nada de amável. Possivelmente tinha imaginado tudo.

Passeou o olhar pela pequena e acolhedora estadia, pelo edredom de vivas cores que cobria a velha cama de ferro, pelo tapete tecido à mão que havia sobre o chão de terra calcada. Contra uma das paredes havia um rústico armário de carvalho, parecido à mesa que tinha junto à cama, e ainda por cima uma lascada terrina de porcelana azul junto a um jarro.

Carly lutou contra o incômodo pulsar de seu coração e contra o nó de seu estômago e tentou fazer um quadro da situação a partir do pouco que sabia. Estava no dormitório do espanhol, em sua casinha de tijolo cru das montanhas. Em um lugar chamado Llano Mirada. O Dragão a tinha sequestrado em sua própria casa e a culpava pela morte de seu irmão. Carly estremeceu ao recordar isto. Por Deus, o que faria agora o espanhol?

Segurou com força o edredom de cores. Quantos dias tinha estado ali? Ele havia dito que sua enfermidade tinha sido longa. Sentia-se muito débil e devia ter estado doente mais de dois ou três dias. Contemplou a camisola de algodão branco que estava usando, maior que a sua, imaculadamente limpa, cheirava a lixia. De quem era? Por que a tinham dado? Quem tinha cuidado dela? E por que esse bruto se incomodou em cuidar dela?

O quarto de repente pareceu muito frio e levou o edredom até o queixo. Fosse qual fosse à razão, averiguaria muito em breve. Carly fechou os olhos. Quase desejava não havê-los aberto.


Ramón se afastou da casa com o coração leve, embora soubesse que isso não duraria muito. A jovem já estava bem e era tempo de retornar a sua fazenda. Tinha esperado mais do que o prudente. Não podia permitir que suspeitassem ou acreditassem que estava relacionado com O Dragão.

E, além disso, tinha que ver sua mãe e sua tia. Tinha enviado uma mensagem anunciando a morte de Andreas. As mulheres deviam estar sofrendo tanto como ele. Necessitavam de seu apoio, e em realidade ele mesmo se consolaria junto com elas. Tranquilizaria-as saber que o Padre Xavier havia rezado a missa. No momento oportuno, quando passasse o perigo de que o descobrissem, ocupar-se-ia de que transferissem o corpo de seu irmão às terras da família, ao Rancho das Almas. Era o lugar onde gerações De La Guerra descansavam em paz, a única razão pela qual a pequena parcela de terra tinha permanecido em mãos de sua família quando tinham arrebatado todo o resto.

Roubado, corrigiu-se. E tinha sido o gringo Fletcher Austin e sua banda de ladrões.

—Já parte para casa? —perguntou Pedro, que chegava onde estava Ramón, à sombra, preparando-se para selar um alto e ossudo alazão. Vento, o garanhão que montava o Dragão, permaneceria em Llano Mirada. Agora contaria com um só cavaleiro.

Ramón controlou uma espetada de dor. Alisou a grossa manta de lã sobre o lombo do cavalo, elevou a pesada sela de vaqueiro e a pôs em cima.

—É tempo de que retorne às Almas. Voltarei aqui quando for seguro.

—Florência e eu nos ocuparemos da garota.

—Sei que o fará. Estou seguro que a terá de pé quando retornar. Já estou me preparando para este desafio — disse fazendo uma careta.

—O que fará com ela, Ramón? Não pode deixá-la ir. Sabe quem é e onde está este lugar.

Escutaram passos na quadra. Calaram atentos.

—Possivelmente poderíamos vendê-la. —Francisco Villegas se aproximava. Era um vaqueiro de rosto duro, que tinha se unido a eles uns meses antes. —Dizem que o preço por uma gringa bonita é bastante alto do outro lado da fronteira, em Nogueiras.

Ramón apertou a correia sob o ventre do cavalo, dando tempo para controlar uma fúria que não esperava.

—A garota permanece aqui. Pertence-me! —disse e terminou de ajustar a correia. —Já esclareci aos outros homens.

Cisco Villegas sorriu por baixo de seus grossos bigodes. Faltava-lhe um dos incisivos. O outro estava coberto de ouro.

—Não acredito que Miranda goste disso.

Ramón se voltou lentamente. Sua paciência tinha chegado ao limite.

—Miranda não é teu assunto e tampouco a gringa. Aconselho-o que recorde.

O duro olhar já era uma advertência e Cisco retrocedeu um passo.

—Sim, dom Ramón. O que você diga.

Girou sobre seus calcanhares e saiu da sombra, a caminho do curral.

—Não gosto desse homem — comentou Pedro.

—E eu tampouco — disse Ramón.

—É amigo de seu primo Angel, e seu irmão confiava nele.

—Sim. Espero que não abuse dessa confiança.

—Vigiar-lhe-ei.

Ramón assentiu. Deslizou o pesado bocado espanhol entre os dentes do cavalo, instalou as largas rédeas trançadas e as segurou com as mãos. Introduziu uma bota no estribo de couro, e montou na sela.

—Adeus, compadre.

Pedro sorriu, acentuando as rugas de seu curtido rosto.

—Adeus, amigo.

Montado em seu grande cavalo cor cervo, Fletcher Austin tirou o chapéu de tecido marrom e secou o suor da testa com o braço.

—Algum sinal deles? —perguntou a Cleve Sanders, seu capataz, um homem alto e magro com o cabelo liso.

—Nem o menor rastro. Sempre acontece o mesmo quando os perseguimos. Desaparecem.

—Possivelmente Collins e Ramírez consigam recuperar os cavalos — disse Fletcher, embora não tinha muitas esperanças. Dois dias depois do assalto, a banda se dividiu em duas. Tinham levado os cavalos para o norte e a maioria dos homens tinha continuado para o este. Fletcher fazia o mesmo: enviou um pequeno grupo para o norte e a maioria de seus homens seguiu para o este, com a esperança de apanhar ao Dragão.

Tinham procurado o Dragão durante quase uma semana. Estava exausto, seus homens também, mas queria recuperar seus cavalos. Mas por cima de tudo quem o interessava era O Dragão.

Este bastardo levou sua sobrinha. Agora o assunto era pessoal entre os dois.

—O mais provável é que os cavalos já estejam nas minas de ouro — disse. —Há tanta demanda de carne, que os atalhos do gado se utilizam continuamente. Collins e seus homens estão pelo menos a um dia de distância deles. Se os bandidos forem hábeis, e até agora o foram, manter-se-ão no atalho principal até que outros apaguem seus rastros, e depois se dirigirão, em algum ponto, para as colinas. Não há modo de que Collins os encontre, a menos que tenha muita sorte.

—E o que fazemos com O Dragão?

Fletcher se esforçou por controlar a raiva.

—Tem a Caralee. Não vou renunciar até que a devolva. Enquanto isso, voltamos para o Rancho. Pediremos a alguns rancheiros que se unam conosco, juntaremos mais mantimentos e trocaremos de montarias. Depois deveremos esperar que algo aconteça. Mas juro que não descansarei até ver esse bastardo pendurado de um ramo de um carvalho do rancho.

Fletcher apertou os punhos e sorriu cinicamente ao pronunciar sua última palavra. Não seria a primeira vez que enforcava um bandido. E provavelmente não seria a última.


CAPITULO 06

Florência Núñez abriu a pesada porta de carvalho e entrou no dormitório. Sorriu ao ver Carly fora da cama, sentada na cadeira de respaldo reto junto à cama.

—Já se encontra melhor, verdade?

Trazia uma bandeja com café e várias omeletes recém assadas. Suas gordas bochechas brilhavam calidamente.

—Sim, estou muito melhor. Estava me perguntando... Eu gostaria de me vestir. Estava pensando se alguém poderia me emprestar um pouco de roupa.

Fazia uma semana que o espanhol partiu. Os últimos dois dias, Carly tinha passeado pela casa, já tinha recuperado grande parte de sua força. Mas ainda não saía para fora. Não estava segura de que a deixariam sair.

—Sim, é obvio senhorita. — O sorriso da governanta fez tremer sua papada. —Já me ocupei da roupa. Agora a trago.

Deixou a bandeja no vestidor e se retirou do quarto. Pouco depois, retornou com uma longa saia de algodão amarelo e uma blusa de camponesa azul. Deixou tudo na cama, junto a um par de sandálias de couro sem saltos.

—Espero que tudo sirva. Miranda Aguilar me emprestou. Cortei a saia um pouco e diminuí a cintura. Pedro fez os sapatos.

—Você e o senhor Sánchez... São muito amáveis. — Não esperava. Estava segura de que a tratariam mal. — Sobre tudo se considerarmos que sou a prisioneira de dom Ramón.

—Você é uma convidada especial de dom Ramón — disse a gorda mulher, sorrindo. —Isso foi o que nos disse.

Convidada especial! Era quase divertido. Perguntou-se o que estaria preparando o demônio de cabelo negro para quando retornasse.

—Igualmente quero lhe agradecer. Cuidou de mim, possivelmente me salvou a vida.

—Isso não é verdade, quem cuidou de você foi dom Ramón. Eu só me ocupei de suas necessidades mais pessoais. Mas foi dom Ramón quem trouxe a mulher indígena da aldeia. Ele foi o que...

Um golpe na porta interrompeu o que estava a ponto de dizer. A corpulenta mulher foi à porta, abriu-a e deixou entrar dois meninos que levavam jarros de água fervendo.

Carly contemplou a água e suspirou.

—Obrigada, senhora Núñez. Nunca vi algo melhor.

—Meu nome é Florência, como já disse. E um banho quente será maravilhoso.

Assim foi. Até lavou o cabelo. Estava sentada na cama, tentando tirar os nós e pentear-se quando bateram pela segunda vez na porta. Elevou a vista e viu o espanhol entrar no quarto.

O estômago de Carly se encolheu. O espanhol sorria. Era um sorriso diferente do que esperava, o mesmo que tinha mostrado no dia que a conheceu. Um ligeiro tremor a estremeceu.

—Senhorita McConnell — disse — vejo que se encontra muito melhor.

Olhou esse rosto tão sedutor e revolveram as vísceras. Conhecia esse rosto, sabia como esses formosos traços podiam se tornar frios e duros, como esses olhos a podiam olhar sem um pingo de compaixão. Passaram velozmente por sua cabeça imagens da noite em que a tinha sequestrado do rancho dos Carvalhos, da brutal jornada através das montanhas. Imaginou o que um homem como esse poderia lhe fazer a seguir, e uma fibra de temor se infiltrou em sua alma. O espanhol deve ter notado, porque apagou seu sorriso.

—Sinto muito. Não vim para te assustar. O que aconteceu antes foi... Um engano. Um grave engano. Aqui não te acontecerá nada mal. Espero que acredite em mim.

Carly levantou da cama, molesta consigo mesma por ter deixado que visse sua debilidade, estava mais furiosa que nunca com ele.

—E por que vou acreditar em você? Por que devo acreditar o que diz um homem como você?

—Porque é a verdade.

Recordou as frias noites que tinha passado na montanha, a violência com que a tinha obrigado a caminhar pelas colinas. E outra vez o medo voltou em suas vísceras. Carly elevou o queixo.

—Não acredito em nada do que diz. É vil, desprezível... Um bandido e possivelmente um assassino. Sejam quais sejam suas razões para me haver tratado mal, só se relaciona com seus próprios planos egoístas.

Ramón não afastava os olhos de seu rosto.

—Se eu estivesse em seu lugar, sentir-me-ia igual. Possivelmente com o tempo se dê conta que as coisas não são assim.

Carly sopesou essas palavras. Não acreditava, não acreditava nem por um instante.

—Se o que diz é certo, por que trocou de atitude? Sou a mesma mulher. A mulher que despreza. A mulher que culpa pela morte de...

—Não diga isso, porque não é assim — replicou Ramón e esticou a pele das maçãs do rosto e certa rigidez se instalou em sua alta e sólida estrutura. —Eu sou o culpado. Não estou acostumado a culpar a outros por meus próprios enganos.

Em seus olhos havia algo, algo que ela tinha visto antes, uma desolação matizada de dor que desta vez não parecia superada pela raiva. E parecia dirigir-se para dentro, para ele mesmo, não para ela.

Carly sabia o que era perder um ser querido. O coração quebrado, o lugar vazio que nunca volta a encher-se. Sua família se foi. Sua irmã, seu pai e sua mãe. Só de pensá-lo, doía-lhe. Incomodava-lhe imaginar que ele podia estar sentindo o mesmo, o mesmo tipo de dor. De repente, sentiu compaixão.

Obrigou-se a reprimi-la. Um homem como este não merecia sua compaixão. Além disso, seguro que nem sequer a queria.

—Florência diz que sou sua convidada. Se for assim, então agradeço sua generosidade, dom Ramón, mas preferiria que terminasse minha estadia aqui. Há muitas coisas que tenho que fazer no Rancho dos Carvalhos e estou segura de que meu tio deve estar muito preocupado por mim.

Ramón sorriu.

—Nunca me pareceu tola menina. Assim seguramente sabe que não posso deixar que você parta.

—Então, estou segura que sabe que não sou sua convidada — disse Carly e sorriu penosamente. —Sou sua prisioneira. E isto é muito diferente.

O espanhol se apoiou contra a parede.

—Só se quiser sê-lo. Poderá passear por todo o recinto. Só há um caminho para descer e está muito bem vigiado. Não acredito que possa achar o caminho de sua casa embora conseguisse escapar. — Carly não disse nada. O espanhol a observou atentamente. —Se pudesse, mudaria as coisas. Desgraçadamente já é muito tarde para isso. Mas aqui há boa gente, gente que te tratará amavelmente, inclusive amigavelmente, se for o que deseja.

—Até quando, dom Ramón? Quanto tempo tem planejado me manter aqui contra minha vontade?

O espanhol sacudiu a cabeça. O sedoso cabelo negro se moveu contra o pescoço aberto de sua camisa. Tinha o pescoço magro e musculoso e se sobressaíam os cabelos frisados de seu peito.

—Acredito que não sei ainda.

—Quer dinheiro? Quer um resgate? Se for isso, vai descobrir que não valho tanto como crê.

Suavizaram-se seus traços, seus olhos a percorreram com uma expressão que poderia ser de piedade. Sentiu-se exposta, nua, como se a pudesse ver por dentro, pudesse ver a pessoa que era em realidade. E isto a assustou mais ainda que o espanhol.

—Não quero nenhum resgate — disse Ramón.

—Então deixe que eu vá. Se quiser que aceite sua palavra, aceite também a minha. Se me permite partir, não direi a ninguém quem é, nem onde está este lugar.

Uma gargalhada suave ressonou em seu peito.

—Sinto muito, senhorita. Não posso fazer isso. Embora estivesse disposto a aceitar sua palavra, aqui há outros que não a aceitariam.

Carly lhe deu as costas, furiosa, mas estranhamente nervosa. Não confiava nele e sabia que podia ser muito cruel e implacável. Mas agora, havia algo distinto no homem, algo que recordava ao que lhe tinha dado uma rosa.

—Como sua convidada — disse em tom áspero — meu tempo é minha coisa. E se esse é o caso, prefiro que parta.

—O que você ordene, senhorita — disse, sorrindo ligeiramente. —Pode dedicar seu tempo a uma triste rebelião, se assim o desejar, mas também pode aproveitá-lo melhor e aprender algo a respeito das pessoas destas terras que quer que seja seu lar. Eu poderia ensinar muitas coisas, se me permitisse isso.

Carly o olhou inquieta. Por que era tão amável agora? Sabia o desumano que era, embora mostrasse encanto uma vez mais.

—Quero voltar para casa, senhor O Dragão. Isso é o que desejo, e quanto antes melhor. Enquanto isso, se tiver liberdade para me mover, como você diz, eu gostaria de ver o resto de minha prisão.

Endireitou as costas e cruzou o quarto para onde estava apoiado Ramón, junto à porta, e tentou seguir, mas o espanhol a puxou pelo braço.

—Como dizia, aqui há boa gente, mas também alguns se uniram a nossa causa porque lhes necessitamos e assim podem obter certas vantagens. São homens rudes e cruéis.

—Homens como você — disse ela, friamente.

—Possivelmente. Mas comigo estará a salvo. — Agarrou-a pelo braço, e a acompanhou pela porta, a uma sala pequena onde havia um sofá de vime junto com uma sela. Ambos os móveis estavam cobertos por almofadas de cores brilhantes. No chão de terra calcada, havia um tapete de lã. —Voltaremos antes do jantar — disse o espanhol a Florência. Ela os saudou enquanto Ramón levava Carly fora da galeria. Vestido com uma camisa de mangas largas de linho branco e uma apertada calça negra de montar que logo que cobriam os saltos de suas brilhantes botas negras, Ramón De La Guerra gotejava virilidade e fortaleza. Odiasse ou não o odiasse, era cruel ou sedutor, era de todos os modos o homem mais atraente que jamais tinha visto.

Uma espetada de alerta deslizou por seu corpo. Não devia esquecer que tipo de homem era o Dragão.

Ramón caminhava junto à pequena norte-americana e admirava seu aspecto vestida com a indumentária singela de uma camponesa. Recordava-a encantada aquele dia na corrida, com seu traje de franjas verdes, mas curiosamente, hoje lhe parecia ainda mais bela. Possivelmente se devia a seu comprido e sedoso cabelo que levava solto, era uma verdadeira cortina de cobre escuro e brilhante pendurando até sua cintura. Ou possivelmente, era o movimento sedutor de seus seios sob sua blusa enquanto caminhava, deixavam entrever algo de sua suave curva pelo decote.

Ramón olhava o movimento de seus quadris e algo se inflamava em seu ventre. Sentia-se atraído por esta mulher. Do primeiro dia que a conheceu, tinha notado uma atração. Mas agora muito mais, pois conhecia sua fortaleza e seu valor, e sabia, além disso, que não era como tinha imaginado.

Pelo menos ainda não o era.

Entretanto, era uma gringa. Fosse o que fosse o que sentia, não podia ser mais que desejo. E agora não a submeteria a um trato dessa índole. E menos depois do que lhe tinha feito.

Não obstante, não podia deixar de admirar a perfeição de seus traços, suas magras sobrancelhas cor castanha, seu nariz arrebitado, seus grandes olhos verdes e seus sensuais lábios vermelhos. Ao contemplar essa beleza doce e amadurecida, parecia impossível que tivesse podido tratá-la tão mal.

—Dom Ramón! E a senhorita McConnell — disse alegremente Sánchez aproximando-se e interrompendo os pensamentos do espanhol. Contemplava os pés e as sandálias de Carly. —Vejo que ficaram bem os sapatos.

—São perfeitos. Obrigada, senhor Sánchez.

Moveu a cabeça e se dirigiu a Ramón:

—É bom te ter de volta.

—Não posso ficar muito tempo. Só uns dias. E pensei que possivelmente poderia mostrar os arredores à senhorita.

—Bom. O ar fresco lhe fará bem. Estou seguro de que desejava sair da casa.

—Voltaremos antes do jantar, ou possivelmente um pouco depois — disse Ramón, afastando-se de Sánchez. Sorriu a Carly e ofereceu seu braço. Tal como esperava, não fez caso e começou a caminhar.
O acampamento em si mesmo não era muito grande. Compunha-se basicamente de barracos improvisados entre os pinheiros no topo do montículo. Alguns dos solteiros viviam em tendas. Os dois índios yocut que os tinham acompanhado viviam em umas choças de vime que tinham construído a um dos extremos. Havia um curral no centro e dois abrigos. Um arroio de rápida corrente discorria a margem do acampamento e graças a ele dispunham de água em abundância e trutas de montanha.

—Quanta gente vive aqui?

Carly contemplava às mulheres que lavavam roupa no arroio e aos meninos que jogavam com uma bola no centro do recinto. Surpreendia-a o agradável do lugar e o bem cuidado que estavam às singelas casas de tijolo cru.

—Umas trinta e cinco pessoas — disse o espanhol, sorrindo a uma menina que se aproximava e não tinha mais de três anos. Rindo de boa vontade, elevou à menina em seus fortes braços, beijou-a nas gordinhas bochechas e depois a devolveu à mulher que chegava correndo.

—Obrigado, dom Ramón. Minha Célia sempre escapa brincando.

A mulher não tinha mais de vinte e cinco anos, era de traços agradáveis e de olhos marrom claro. Olhou Carly e sorriu timidamente.

— Maria, esta é a senhorita McConnell — disse Ramón. —Será nossa convidada por um tempo.

A menina se aproximou de Carly e passou os dedos por sua espessa cabeleira cor cobre. Carly não pôde evitar sorrir.

—Carly — disse à mulher. —Meu nome é Carly.

—Muito prazer em conhecê-la.

E partiu em silêncio, sorrindo a Ramón e sustentando perto à menina.

—Não sabia que os bandidos viviam com sua família — comentou Carly, tentando que não a afetasse a soltura com que o espanhol tinha tratado à menina.

—A maioria são rancheiros deslocados, homens que perderam suas terras por culpa dos gringos. Os peões e outros que trabalhavam com eles também perderam seu lar. Substituíram-nos por gente mais barata, por índios que os norte-americanos compram e vendem. Tratam-nos quase como a escravos.

—Isso não pode ser verdade. A escravidão não se permite na Califórnia.

—Não? A remuneração dos índios é de dez dólares ao mês e a maior parte dessa quantidade volta para o fazendeiro para pagar a comida e a moradia. Se encontram vagando um índio, leiloam-no ao melhor pastor. E o dinheiro que produz o leilão é para o governo. Querida gringa, isto me parece, aproximar-se muito à escravidão.

Carly não disse nada. Tinha visto os índios trabalhando no rancho de seu tio, mas nunca tinha sabido o pouco que os pagavam. E não gostou de imaginar que podia ser certo o que dizia Ramón.

O som de golpes de martelo sobre o ferro atraiu sua atenção para um grande abrigo de madeira situado a um lado do recinto. Foices, cavas de folha larga, martelos, serras, tochas e braçadeiras cobriam uma parede. Dois enormes colares de cavalo penduravam do teto junto com várias selas e outros arreios.

Ramón se dirigiu à parte traseira do abrigo e apresentou Santiago Gutiérrez, um homem que ela recordava do assalto. Agora trabalhava de ferreiro, inclinado sobre uma grande bigorna de ferro. Reparava com o martelo o eixo quebrado de um carro.

Elevou a vista e a olhou com o mesmo receio com que olhou a ele.

—Vejo que se sente melhor. Isso está bem.

Carly dissimulou sua surpresa. Quão último esperava é que se preocupassem com ela.

—Estou... Muito melhor, obrigada.

Não parecia um bandido, só um homem que trabalhava duro. O suor cobria sua testa e o esforço destacava seus músculos. O espanhol lhe perguntou por sua mulher, Tomasina e por seus dois filhos. Santiago disse que estavam bem.

Reparou na grossa faixa que tinha ao redor da coxa e recordou a ferida que tinha sofrido durante o assalto. Estava a ponto de perguntar por sua ferida, mas se deteve; recordou que o homem era um criminoso. Por Deus, tinha sido ferido enquanto roubava os cavalos de seu tio. Não correspondia que se interessasse por sua saúde!

De La Guerra perguntou por ela:

—A ferida está melhor?

Gutiérrez tirou uma parte de ferro resplandecente do fogo e o afundou em um balde de água, produzindo um jorro de vapor.

—Tomasina tirou a bala de chumbo. A ferida está curando muito bem.

—Alegra-me sabê-lo.

O ferreiro sorriu e começou a golpear o ferro ainda quente. Ramón se afastou com Carly.

—Parece muito simpático para ser um bandido — comentou ela.

O espanhol riu baixo e sacudiu a cabeça.

—Só é um homem. Um que luta pelo que lhe arrebataram. Nenhum de nós se criou um bandido.

Carly poderia haver discutir o ponto, mas não o fez.

—Surpreende-me que não me deteste. Acreditava que assim pensavam todos estes homens.

Encolheu-se de ombros e olhou em outra direção.

—Possivelmente foi assim... Durante um tempo. Queriam a Andreas tanto como eu.

E ali estava outra vez esse sombrio momento de dor. Mas desapareceu em seguida.

—Então por que...

—Possivelmente pensam que se fui capaz de aceitar o que fez, eles teriam que se esforçar por fazer o mesmo.

Carly esticou o pescoço.

—Se você pode aceitar o que fiz! Eu sou a que não pode aceitar o que você fez!

Carly segurou com uma mão sua saia amarela e saiu precipitadamente do abrigo. Não foi em direção da casa. Tinha estado muito tempo fechada. Dirigiu-se ao arroio e começou a passear pela borda. Não devia se zangar. Sua parte racional reparava nisso. Era sua prisioneira, estava completamente a sua mercê. E, entretanto, negava-se a ceder. Não o tinha feito antes e não o faria agora.

Alcançou-a em um lugar tranquilo, onde a água formava redemoinhos. Ali estava sentada, abatida, desejando estar de volta ao Rancho dos Carvalhos para poder chorar tranquilamente. Mas agora, estava decidida a não chorar. Com a vista cravada na agitada corrente, sentiu sua presença antes de vê-lo.

—Sinto-o — disse De La Guerra, brandamente. —Não é o que queria dizer. A verdade, é que os homens aprenderam a te respeitar. E se o deseja, aceitar-lhe-ão entre eles.

Tinha uma voz tão suave, tão masculina e formosa. Recordava-lhe algo... A alguém... Tentou recordar, mas o ponto lhe escapava. Carly endireitou as costas e lhe olhou à cara.

—Oxalá possa voltar para casa, dom Ramón. Dou-me conta do problema, mas suplico que encontre uma solução.

O espanhol não disse nada. Não existia modo algum que lhe permitisse retornar para casa e ambos sabiam. Mas por quanto tempo poderia obrigá-la a ficar? E o que faria com ela quando se cansasse desta convidada não desejada?

Começaram a voltar para a casa. Carly se esforçava por controlar a raiva que aumentava em seu interior e retorcia seu estômago. Mantenha a calma, disse a si mesma. Pelo menos no momento, está a salvo. Seu tio devia estar procurando-a e ela possivelmente encontraria uma maneira de escapar.

Sem deixar de pensar nisso, dedicou-se a observar o recinto, aos homens, mulheres e meninos absortos em suas tarefas cotidianas, mas também aos carros e cavalos e quanto pudesse servir de arma. Seguiria fazendo-o para conhecer o melhor possível este lugar e achar algo que servisse.

Distraída por seus pensamentos, surpreendeu-se, ao dobrar uma esquina, encontrar uma formosa mulher de cabelo negro, de pé na galeria. Era alta e esbelta, com seios pequenos em ponta, cintura estreita e quadris magros. A mulher era elegante, nada infantil, exótica e tão bela como a mais bela que Carly tinha visto.

Também parecia zangada. Seus olhos negros a olhavam profundamente e seu peito se elevava e caía com cada fôlego hostil.

—Boa tarde, Miranda — disse Ramón amavelmente, mas tinha os traços em tensão e era evidente que não o agradava vê-la ali.

—Não vai me apresentar à mulher que trouxe para nosso acampamento? —disse em tom mordaz. —A mulher que matou seu irmão.

Os olhos escuros do espanhol cintilaram. Sua postura se tornou rígida, esticaram-se seus músculos, a fúria gotejava por todos seus poros. Carly conhecia muito bem esse olhar. Alegrou-lhe não ser o objeto de sua ira desta vez.

—Já lhe disse Miranda, que esta mulher não é responsável por isso. E, enquanto eu o ordene, é nossa convidada. E deverá tratá-la como corresponde.



Enquanto eu ordene. Essas palavras provocaram um tremor de medo ao longo das costas de Carly. Quanto tempo demoraria a desdizer-se? Essas palavras, combinadas com o ódio perceptível na mulher de cabelo negro, fizeram que Carly se sentisse quase doente.

—Sou Miranda — disse a mulher em tom de ameaça e seus olhos não desmentiam a advertência. —Sou a mulher de dom Ramón. Vim até aqui para que saiba. Para que não haja nenhum mal-entendido entre nós.

De pé ao seu lado, o temperamento de Carly estalou.

—E você, senhorita, espero que não me entenda mal. Não tenho o menor interesse em seu… no Dragão. Quanto a mim concerne, não é mais que um cruel bandido. Se lhe agrada dormir com ele, é problema seu. Quão único desejo é voltar para minha casa.

Ao Ramón pareceu que a raiva da jovem era tanta como a sua própria. Sentia respeito por Carly, embora custasse admiti-lo. Carly não fez caso dos dois e entrou rapidamente na casa. Ramón recordou as humildes origens de Carly, e não pôde deixar de admirar com que perfeição tinha conseguido disfarçá-las. Era tão distinta como qualquer das mulheres da nobreza que tinha conhecido, tão altiva e orgulhosa como qualquer mulher puro-sangue espanhola.

A ideia o incomodou. Era uma gringa. Nada podia trocar isso. Da mesma maneira que nada poderia trocar a parte de sangue de índia de Miranda. Por sorte sentia algo mais que afeto por Miranda. E não se permitiria sentir nenhum tipo de afeto pela descarada garota norte-americana.

Carly se sentou junto a Ramón durante o jantar. Florência e Pedro Sánchez se sentaram ao outro lado da sólida mesa de carvalho. Tal como antes, o espanhol se mostrava encantador e atento para Carly, sua atitude a punha nervosa e a voltava introvertida. Não sabia decifrar o que pretendia o homem. Só sabia que não devia esquecer quão duro podia chegar a ser.

Queixou-se de dor de cabeça, retirou-se da mesa e partiu a seu quarto, mas não conseguiu dormir. Por que atuava assim? Por que era tão amável se antes tinha sido tão cruel? Estava arrependido do que tinha feito? Nunca o havia dito. Só disse que tinha cometido um engano. Possivelmente tentava fazer as pazes, mas ela não lhe acreditava.

E nada mudaria, embora assim fosse. Seguia sendo sua prisioneira e ele o dono de seu destino.

Deitada na cama, olhando as toscas vigas do teto trabalhadas à mão, recordava o furioso olhar que Ramón tinha dirigido a sua amante, à mulher que havia dito chamar-se Miranda. Era formosa, de pele escura, exótica. Era óbvio que o objetivo do espanhol para ela não era a sedução. Já contava com uma mulher que lhe esquentasse a cama.

A ideia a perturbou de um modo estranho. Possivelmente agora mesmo estivesse com Miranda, beijando-a, lhe fazendo amor apaixonadamente. Carly sabia muito pouco dessas coisas, mas até agora, tudo aquilo lhe parecia romântico. Esperava se casar um dia com um homem de boa aparência como Ramón. Com um tão encantador como ele.

Mas que não fosse nem de perto tão desumano.

Finalmente adormeceu; mas sonhou. Vestido de negro, o espanhol vinha para ela cavalgando em seu fogoso cavalo negro. Tomava-a em seus braços, instalava-a em sua sela e galopava com ela para o bosque. Detinha bruscamente o animal e a arrastava, espantada e gritando para um montículo coberto de grama, junto a um arroio, e ali começava a beijá-la.

Carly deixava de lutar. O calor de sua boca abrandava seu corpo e suas vísceras se derretiam. Seus lábios eram mais quentes e suaves do que tinha imaginado. Seus braços esmagavam-na contra ele, eram duros como granito e implacáveis, mas não lhe faziam mal.

Contato possessivo e ardente. Queria algo dela, algo mais que as liberdades que já tinha tomado: seus beijos o exigiam, mas ela não sabia exatamente o que era.

Uma parte dela queria lutar, se libertar do abraço. Mas outra parte...

Carly despertou sobressaltada. Seu corpo ardia com um calor estranho, úmido, invasor. Estava tremendo e tinha os mamilos duros e sensíveis ao toque dos lençóis.

Levantou-se da cama. As pernas apenas a sustentavam. Verteu água na bacia de porcelana, umedeceu um pano e molhou o rosto. Voltou para a cama, suspirando, mas uma vez mais lhe custou conciliar o sono. Quando por fim o conseguiu, faltavam uns minutos para que o dia começasse a mostrar-se através das singelas cortinas de musselina. Muito em breve seria outro dia. Perguntou-se se veria Ramón.

Ou se permaneceria com aquela mulher.
Miranda Aguilar passou as unhas pela coxa poderosa do Ramón. Estava ao seu lado na cama. Moveu-se com a primeira luz da alvorada e se acomodou de costas. Miranda sorriu contemplando a dura eminência que se levantava para cima desde seu ninho de espessos cachos negros, forte e sedutora contra seu ventre plano.

A noite anterior não tinham feito amor. Ramón estava muito molesto com ela. Não devia ter ido ver a mulher. Ele lhe tinha advertido, mas a Miranda não importava. Não importava o que teria que fazer contanto que Carly permanecesse longe de Ramón.

Apertou-lhe o pulso com os dedos e deteve o movimento da mão.

—Não tolerarei que me desobedeça — advertiu em voz baixa, como se tivesse lido seus pensamentos e olhando-a com seus olhos escuros. —Se tratar à garota com algo menos que respeito, você não gostará nada das consequências. Advirto-lhe isso.

Fez um bico com a boca. Inclinou-se sobre ele e beijou a ponta do mastro. Conseguiu que se erguesse e tremesse.

—Sinto muito te haver incomodado.

— Se lembre, a moléstia será muito pior se voltar a fazer.

Ramón tinha um temperamento terrível, mas nunca a tinha agredido. Em certa ocasião, pouco depois de chegar a Llano Mirada, Elena Torre, a garota que então era sua mulher, tinha roubado um pouco de dinheiro de um dos homens. Ramón a encarou e exigiu que devolvesse o dinheiro, ela gritou obscenidades e o insultou. Ramón a levantou, a pôs sobre seus ombros e a levou ao cocho dos cavalos e a jogou na água. A mulher merecia e o mergulho de cabeça não lhe fez mal. Mas a humilhou.

Não, nunca tinha sido cruel com uma mulher. Só com a gringa. E sabê-lo não apaziguava absolutamente os temores de Miranda.

—Não se zangue Ramón — disse em seu tom mais sedutor.

Inclinou-se para frente e percorreu o peito com os dedos, aproximou-se mais e levou sua boca a um de seus mamilos e começou a brincar com ele com sua língua. Baixou a mão até lugares excitados e endurecidos. Sua mão ficou ali até que se esticaram os músculos de seu estômago. Acelerava-se o pulso cardíaco de Ramón sob seus dedos. Ergueu-se para beijá-lo, mas ele tomou pelos ombros, situou-se em cima dele e começou a lhe beijar os seios. Sua mão deslizou até as dobras de seu sexo. Estava úmida e disposta. Ramón lhe abriu as pernas e a penetrou profundamente.

Levou-a ao clímax em poucos minutos e em seguida alcançou o seu. Permaneceu um momento em silêncio, olhando as vigas sobre sua cabeça. Depois se afastou.

—É muito cedo ainda — disse Miranda, brandamente. —Mal saiu o sol. Não poderia ficar alguma vez um pouco mais?

—Hoje não — disse em tom brusco.

Tomou uma toalha de linho limpa que havia junto à bacia, a levou ao pescoço, colocou as calças negras de montar e se encaminhou para a porta da cabana. Dali tomou o curso do arroio para o lugar reservado para o banho dos homens.

Miranda suspirou. Estava cada dia mais longe dele. Estava-lhe perdendo. Sabia e, entretanto não podia fazer nada. Pensou na garota, na formosa norte-americana de fogosa cabeleira castanha.

Ramón a tinha tratado muito mal. É verdade que então o dominava a tristeza. Miranda se preocupava, tinha que sentir muita paixão para comportar-se deste modo. E essa paixão, tinha passado do ódio a outra coisa.

Miranda golpeou o colchão de plumas com seus punhos. Ramón desejava à formosa gringa. Miranda via em seus olhos cada vez que ele olhava para onde ela estava.

Perguntou-se quanto demoraria em possuí-la.

Também se perguntou o que poderia fazer para impedi-lo.


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