O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 03

Montava um garanhão tão negro como a roupa que vestia. Ramón De La Guerra chegou ao topo da colina e olhou abaixo, para o estreito arroio que deslizava atrás dos sicômoros. Andreas o esperava junto a uma dúzia de seus melhores homens. Todos tinham sido leais aos De La Guerra da época de seus pais e dos pais de seus pais. Dois índios yokut do grande vale central do este, cavalgavam na retaguarda.

Ramón fez adiantar seu cavalo e se deixou cair pela ladeira que levava ao arroio e seus cantos rodados. A lua chapeada indicava o caminho.

—Boa noite, amigos — disse a seus homens, puxando as rédeas quando esteve perto. —É bom os ver, como sempre. —Pedro Sánchez estava entre eles, junto com Ruiz Domingo, Ignácio Juarez, Cisco Villegas, Santiago Gutiérrez e vários outros, à maioria conhecia desde a infância. —Tal como disse a Andreas, o que faremos esta noite é o mais perigoso que já fizemos até agora. Austin e seus homens podem estar nos esperando. Também é possível que não nos esperem e que há esta hora tenha relaxado a guarda, mas não podemos estar seguros, e não devemos ficar muito confiantes. Se um de vocês virem que algo não esta bem, deve avisar aos outros. E abandonaremos o rancho imediatamente, com ou sem os cavalos.

—Necessitamos esses cavalos, Ramón — contradisse Andreas. —Não semeie o temor nos homens com o que possa ou não acontecer. Podemos controlar Fletcher Austin e seus homens!

Ramón o amaldiçoou em voz baixa. Andreas era sempre tão impulsivo! Mas não minaria a autoridade de seu irmão diante de seus homens.

—Só quero que tenham um especial cuidado. Que não subestimem Austin. E se acontecer algo, que corram tão rápido como possam. E fiquem a salvo!

Antes que Andreas pudesse abrir a boca, Ramón esporeou o garanhão e começou a descer pelo atalho. Dois dias de caminho, separava seu refúgio do Rancho dos Carvalhos, por isso Andreas e seus homens tinham acampado nas colinas próximas. Os cavalos estavam descansados, os homens alertas e em boas condições para o assalto dessa noite.

Chegaram à encosta que dominava o rancho e se detiveram em um bosque. Ramón, Andreas e Pedro Sánchez desceram de seus cavalos.

—O que te parece? —Andreas perguntou a Ramón, posando seu olhar na enorme fazenda, o estábulo, o celeiro, a casa dos trabalhadores, o matadouro e os currais cheios de cavalos.

—Tudo parece bastante tranquilo.

—Sim. E olhe quantos cavalos. Construíram um novo curral só para encerrá-los.

—Nosso comprador gringo de Sacramento gostará, e estará contente — disse Pedro. —Não lhe importa de onde venham os cavalos, sempre que forem muitos e estejam bem.

Ramón contemplou o conjunto longo momento. Tudo parecia em ordem, retornou junto a seus homens.

—Devemos conseguir as selas de montar dos homens do rancho. Desta maneira não poderão nos perseguir.

Elevou-se com agilidade na ampla cadeira espanhola de suas montaria, ajustou seu chapéu negro até cobrir seus olhos e subiu o lenço negro até tampar seu nariz. Depois, tocou ligeiramente os grandes estribos ao flanco do cavalo.

Carly não conseguia conciliar o sono. Ainda não se acostumou com a hora de jantar tão tardia dos californianos, nem tampouco aos estranhos ruídos que se escutavam de noite em seu novo lar. As pesadas vigas de madeira que tinha em cima de sua cama, rangiam ao menor passo, sem contar, os uivos dos coiotes e relincho dos cavalos, todos estes novos sons a inquietavam. O relógio que havia sobre sua mesinha indicava duas da madrugada.

Cansada, Carly se levantou da cama. Durante o jantar, tinha bebido um pouco do vinho tinto que seu tio fabricava com uvas do rancho e agora tinha sede. Cruzou a estadia até o jarro de porcelana que havia junto à bacia do vestidor, mas estava vazio. Seu tio em seu lugar despertaria Candelária, a pequena criada, mas ela não o faria. Além disso, necessitava uma desculpa para mover-se um pouco. Possivelmente depois, poderia dormir ao retornar a seu quarto.

Colocou uma bata bordada sobre a camisola de algodão branco. Elevou o ferrolho de ferro forjado da porta do dormitório e saiu ao corredor. Construída conforme um desenho espanhol, a casa da fazenda tinha um grande pátio central rodeado por uma ampla galeria coberta. A cozinha estava em uma edificação à parte, a certa distância da casa se por acaso se produzia um incêndio.

Carly ajustou sua bata, fazia frio. Cruzou o pátio e abriu a porta da cozinha. Estava escuro, mas podia cheirar as pimentas vermelhas que estavam penduras do teto, junto com as réstias de alho e as folhas de louro penduradas sobre a enorme mesa de madeira.

Contra a parede, havia uma fila de recipientes, cheios de trigo, feijões, ervilhas, milho e verduras frescas. Caminhou cuidadosamente para não se chocar com nada. Na estadia, havia dois fogões de ferro de seis queimadores e, em outra parede, frigideiras de ferro, panelas, caçarolas, colheres, espátulas e uma moedora de café que pendurava de um gancho sobre a caixa de madeira.

Sempre havia ruído na cozinha, mesclavam-se os golpes das omeletes sendo preparadas quase continuamente com os bate-papos das criadas indígenas e das mulheres da Califórnia que davam as indicações para a cozinha. Mas agora só havia silêncio. Não se ouvia nada. Carly passou diante da batedeira de manteiga, e abriu o grifo da água. Aproximou o jarro de porcelana e o encheu até a borda. Fechou depois o grifo e secou o jarro com um saco de farinha recém lavado que utilizavam para secar os pratos.

Ao chegar à porta da cozinha escutou um ruído: eram cavalos, sopravam, ouvia o ruído de seus cascos golpeando brandamente o chão sujo. De repente ouviu um rangido, devia ser a porta do curral ao abrir-se. Carly se aproximou da janela e olhou fora, perguntando-se o que podia estar ocorrendo.

Num primeiro momento não viu nada, pensou que os cavalos deviam ter forçado as portas e estavam escapando lentamente. Moviam-se sem pressa, mas sem pausa. Eram como uma série de manchas esfumadas que desapareciam pouco a pouco à medida que passavam. Tinham uma pelagem variada, alazãs, brancos, cinzas e negros. Passavam e passavam pela porta. Até que todos saíram e o curral ficou vazio. Carly correu para a porta da cozinha, no momento que ia abri-la, viu-os. Havia homens.

Deus do céu. Os homens eram peões. Deduziu por suas jaquetas curtas, suas calças e seus chapéus baixos e de asa larga. Mas não eram os homens do rancho dos Carvalhos. Meu Deus! Deviam ser os bandidos que tinha ouvido mencionar, os homens que cavalgavam com o Dragão espanhol.

A mão de Carly tremia enquanto elevava o ferrolho de ferro forjado e abria lentamente a porta de madeira. Olhou pela fresta. Tinha que avisar seu tio e aos homens da casa. Mas os bandidos podiam vê-la se saía lá fora. A matariam antes que desse o alarme.

Então viu o pesado sino de metal.

Ergueu-se e se esticou, tentando ter forças e valor. Usavam este sino de metal para anunciar a hora da refeição, a chegada do correio e uma dúzia de outras comunicações de vários tipos. Também era uma advertência sobre possíveis problemas e a esta hora da madrugada ninguém duvidaria de seu significado.

Carly olhou pela janela para ver se algum bandido estava olhando para a cozinha, contou lentamente até três e abriu de um golpe a porta da cozinha. Recolheu a camisola em cima de seus joelhos para poder correr melhor, o ar frio golpeou suas pernas, mas não sentia nada, nem o frio nem a umidade e tampouco os calhaus que feriam a planta dos pés.

Correu o mais rapidamente que pôde para o sino, que pendurava de uma grossa viga de madeira a uns sete metros da cozinha. Sua trança de cabelo castanho voava atrás dela. Carly agarrou a corda e tocou o sino com todas suas forças.

Ramón puxou as rédeas logo que escutou a primeira badalada. "Mãe de Deus" exclamou em voz baixa, olhando ao redor em busca do sino. Descobriu a pequena figura vestida de camisola, de pé na margem do pátio e imediatamente soube que se tratava da garota.

—Andem moços! Montar e correr!

—O que fazemos com as selas dos homens de Fletcher? —perguntou Andreas a Ramón — não podemos partir sem elas.

—Sánchez e Domingo as estão pegando. Ajudar-lhes-ei. Você segue os outros.

Mas Andreas já tinha esporeado seu cavalo de volta ao segundo curral. Ramón o amaldiçoou, mas sua exclamação se perdeu no meio do estrondo das badaladas, os relinchos e bufos dos cavalos e os gritos dos homens. Esporeou seu cavalo e se adiantou a Andreas, gritou instruções a Sánchez e a Ruiz Domingo, e depois girou o garanhão em direção à mulher que seguia tocando freneticamente o sino.

Os abajures, já tinham sido acesos dentro da fazenda de grossas paredes de tijolo cru. Os trabalhadores da fazenda saíam da casa, alertados pelos sinos, a maioria não estavam vestidos, alguns levavam armas. A Ramón os peões de Austin não se inquietavam. Muitos poucos se atreveriam a atacar ao Dragão e, além disso, a maioria simpatizava de algum jeito com qualquer homem de sangue espanhol que se opunha aos gringos. Mas os anglo-saxões estavam armados e disparavam com seus rifles. Fletcher Austin estava entre eles.

O sino estava em silêncio. Agora o ar vibrava com o mortal assobio dos disparos. Villegas devolveu o fogo e feriu dois homens de Austin, mas uma bala de chumbo se afundou no braço de Ignácio e a coxa de Santiago estava vermelha de sangue. A garota havia se abaixado atrás de uma madeira. Ramón tinha começado a afastar-se em direção a seus homens quando advertiu que Andreas cavalgava diretamente para ela.

—Andreas! —gritou. — Volta!

Mas era muito tarde. Ressonou um disparo. Seu irmão se sobressaltou quando a bala de chumbo lhe atravessou o ombro. Desabou sobre sua sela, com a camisa manchada de sangue.

Ramón sentiu em seu interior uma onda de fúria como nunca tinha experimentado. Correu para seu irmão, Pedro Sánchez já estava ao seu lado. Os três juntos cavalgaram para a porta traseira se afastando do rancho. Recordou à garota, o caos que tinha provocado, a frieza de sua conduta e sua altivez de mulher do Este. Voltou a evocar a corrida de seu irmão para ela e a escutar o ensurdecedor ruído da arma.

A raiva de Ramón se converteu em desmesurada cólera. Fez retroceder seu cavalo negro. Açulou o garanhão, cravou-lhe os estribos nas costelas, inclinou-se sobre a sela e galopou para a garota que se ocultava sob a madeira. As balas lhe roçavam a cabeça, mas não se alterou nem diminuiu a velocidade. Ela gritou quando o viu aproximar-se, ficou de pé e começou a correr.

Era exatamente o que queria.

O cavalo galopou até situar-se a seu lado. Ramón se inclinou para frente, deslizou um braço pela cintura da garota e a subiu à sela. Carly gritava e lutava tentando liberar-se, mas não podia com ele. Obrigou-a situar-se de barriga para baixo, atravessada sobre a sela, apertando-a com força abaixo da cintura. O espanhol podia senti-la tremer à medida que o cavalo adquiria maior velocidade. Via pendurada a espessa trança de reflexos avermelhados ao lado do animal. Agora ela não se atrevia a mover-se, pois o animal avançava a pleno galope. O cavalheiro sentiu por um instante uma triste satisfação. Alcançou os outros quando chegavam às árvores. Mais a frente, os peões conduziam sem pausa a manada de cavalos.

Moviam-se com rapidez e eficácia pela rota que tinham escolhido. Ainda se escutavam ao longe disparos de fuzil, mas seus homens já estavam fora de seu alcance. Seguiram um pouco mais sob as árvores, ganhando espaço entre eles e o rancho. Cavalgariam para as montanhas, até estar fora de perigo.

O espanhol se deteve um momento para amarrar as mãos e os pés da mulher e a amordaçou para acautelar seus gritos. Virou-a para colocá-la sobre a cernelha do cavalo e prosseguiu, agora em busca de seu irmão.

O encontrou desabado em sua sela. Mal podia manter-se sobre seu cavalo.

— Se encarregue da garota — ordenou a um vaqueiro chamado Enríquez, que a tirou do garanhão e a instalou sobre seu próprio cavalo.

O homem lhe pôs de barriga para baixo, atravessada sobre a sela. Sánchez olhou com dureza a Ramón, mostrando claramente seu desagrado por ter trazido a mulher, mas imediatamente voltou para Andreas.

—Como vai? —perguntou Ramón, inquieto pela aparente gravidade da ferida de seu irmão.

—Mau, muito mal, amigo meu — disse o homem mais velho. — Muito mal.

Ramón sentiu um calafrio. Não se tratava de uma mera ferida no ombro, como tinha acreditado a princípio.

—Não podemos nos deter até que cheguemos ao passo. Poderá chegar?

—Não acredito — disse Sánchez, movendo a cabeça.

A angústia de Ramón se multiplicou por dez. O coração começou a pulsar surdamente e seu corpo se esticou. Virou-se para Ruiz Domingo.

—E como estão os outros feridos? —perguntou ao vaqueiro de rosto enxuto —Poderão chegar ao passo?

—Sim, dom Ramón. As feridas dos outros são leves.

—Vão até o canyon de Los Ursos. Ali encontrarão proteção e água para os cavalos. E depois se separem tal como planejamos. Martínez, com cinco homens, continuará até Sacramento com os cavalos. Os outros nos esperarem na base do canyon. Se não chegarmos ali amanhã ao amanhecer, seguirão sem nós até o refúgio.

—Sim, patrão — disseram logo após vacilar um instante. Ramón somente assentiu com a cabeça. A preocupação por Andreas o impedia de pensar. Os homens partiram conduzidos por Ruiz. Enríquez levava a garota. Ramón voltou com Sánchez, que estava de pé junto a seu irmão. Andreas estava quase inconsciente, era uma forma flácida caída sobre seu cavalo. Ramón apertou as mandíbulas para controlar o medo que o invadia, tomou as rédeas e conduziu o animal sob umas árvores, perto de um pequeno arroio quase seco.

Com mãos que já começavam a tremer, elevou Andreas da sela. Escutou um fraco gemido de dor.

—Não se preocupe irmãozinho. Estou aqui. Tudo irá bem.

Sánchez desdobrou sua esteira e acomodaram Andreas. Ramón, com dedos inseguros, rasgou a camisa de linho de seu irmão e tirou o trapo ensanguentado que Pedro tinha apertado contra sua ferida para parar a hemorragia.

"Mãe de Deus"... A Ramón encolheu o coração. Apertou ainda mais as mandíbulas ao ver a carne destroçada de seu irmão e o fragmento de costela que se sobressaía da pele escura e suave. A pior era as fervuras de sangue que fluíam do buraco cada vez que seu irmão tentava respirar.

—O... Sinto Ramón — disse Andreas.

—Não tente falar — sussurrou Ramón, que sentia que fechava a garganta e tinha que piscar para evitar as lágrimas. —Tem que economizar energias. —Um som sibilante escapava dos lábios exangues de seu irmão. Ramón acariciou o cabelo negro de Andreas. —Por Deus, Andreas — sussurrou. —por que demônio não me escutou?

Andreas abriu os olhos. Viu o rosto de seu irmão, com as bochechas molhadas; seus olhos também se encheram de lágrimas.

—Não se... Torture... Ramón. O assalto... Foi minha ideia. O engano foi... Meu... Não teu.

Tossiu roucamente. O movimento o sobressaltou, esfaqueou-o com uma dor tão penetrante que sua testa se cobriu de suor. Ramón tentou lhe segurar, mas as mãos tremiam tanto que não conseguia fazê-lo bem.

—Descansa irmãozinho.

Andreas girou a cabeça.

—Diga a nossa mãe que... A amo.

Ramón tinha tão fechada a garganta que por um momento não pôde falar. Adiantou as mãos e segurou as de seu irmão, as apertando tudo o que pôde, desejando ser ele quem jazesse na esteira e padecesse essa dor insuportável.

—E também... A tia Teresa — murmurou Andreas.

— Direi.

Ramón mal conseguia pronunciar essas palavras. Lágrimas silenciosas rodavam por suas bochechas e empapavam sua camisa. Não estava preparado para isto. Mãe de Deus, não tinha suspeitado que seu irmão estivesse ferido tão gravemente.

—E também... Amo a ti, Ramón.

A escura cabeça de Ramón caiu para frente. Repetiu as mesmas palavras a seu irmão, umas palavras que nunca havia dito a ninguém.

Andreas voltou a tossir, e voltou a estremecer de dor. Ramón sentia sua agonia como se fosse dele. De repente, seu irmão pareceu descansar tranquilamente, sua boca relaxou, como se a dor tivesse partido.

—Um dia me disse... Que uma mulher seria a causa de minha morte. Em certo sentido... Parece-me que tinha razão.

Depois fechou os olhos. Exalou pela última vez um pouco de ar. E Andreas De La Guerra morreu.

—Não, não!

Ramón deixou cair à cabeça para trás e gritou na escuridão. O grito ressonou no silêncio da noite, era um terrível uivo de dor, uma agonia tão funda que parecia que o quebraria em dois. O som era primitivo, selvagem, como o lamento de um lobo ferido.

Sem dizer uma palavra, Pedro Sánchez se afastou, com os olhos tão úmidos como os de Ramón. "Vá com Deus, amigo", sussurrou a Andreas, com sua profunda voz agora rouca e tensa. Fez o sinal da cruz e se dirigiu para os cavalos. Retornou uns minutos mais tarde com uma manta, e a depositou delicadamente sobre o corpo sem vida de Andreas. Nenhum dos dois homens falava. Não havia nada que dizer.

Passaram várias horas antes que Ramón pudesse dizer uma palavra. Seu coração estava tão apertado que não podia falar. Finalmente soltou a mão sem vida de seu irmão.


CAPITULO 04

Rasgada pelo esgotamento e o medo, Carly se enrolava sob os ramos de um alto e grosso carvalho. Tinha as mãos e os tornozelos atados. Durante o resto daquela noite e todo o dia seguinte tinham avançado sem pausa. Durante toda a viagem Carly tinha estado na mesma posição sobre os arreios do robusto vaqueiro que o espanhol tinha chamado Enríquez. Doíam-lhe todos os ossos do corpo.

Separaram-se dos outros ao fundo de um canyon de paredes altas e retas. Cinco homens e os cavalos roubados se dirigiram para o norte e ela e os outros em uma direção que não conseguia adivinhar. Quando por fim se detiveram ao cair à noite, tiraram-lhe a mordaça e um vaqueiro jovem lhe trouxe algo para comer. Não pôde provar um bocado, e sua porção de coelho assado permaneceu intacto, frio e congelando-se ao amanhecer. A uns poucos passos de distância, o homem chamado Enríquez começava a se levantar de sua esteira, com o chapéu fundo até os olhos.

Como os outros, tinha dormido no acampamento com um sono leve, despertando com o menor som, alerta por qualquer perigo. Em realidade Carly não tinha dormido nada. Seus olhos cansados escrutinavam a escuridão, procurando o homem que a tinha sequestrado, esperando sua volta, aterrorizada pelo que lhe pudesse fazer.

Estremecia ao pensar o que lhe poderia acontecer: tortura, violação, assassinato. Tinha ouvido contar várias histórias sobre o Dragão. Sabia o tipo de homem que era.

Fechou os olhos ao evocar essa visão espantosa e finalmente dormiu, esgotada. Despertou alarmada pelo rangido de umas pedras, alguém estava de pé diante dela. O coração pulsava enlouquecido. Despertou por completo. Aterrada, viu um par de altas botas negras. Sua vista deslizou para cima, por umas pernas largas e magras, rodeadas por uma apertada calça de montar, por uns quadris estreitos e uma cintura que se convertia mais acima em um peito largo e sólido e uns ombros poderosos. Armada de valor se obrigou a olhar, e, ali estava o rosto do arrumado espanhol Ramón De La Guerra.

De repente, sentiu-se aliviada. A sensação era tão forte que quase se enjoou. O espanhol a tinha encontrado. Em lugar de ser assassinada, estava a salvo!

—Dom Ramón, graças a Deus! —exclamou e ficou de pé frente a ele, vacilando um pouco e esforçando-se por manter-se erguida. —Estava tão assustada. Acreditei que... Graças a Deus, veio.

—Senhorita McConnell — disse sem a menor cordialidade. —Me alegro que tenha vindo conosco.

Seu rosto era duro e mais triste que nunca. Seus lábios sensuais estavam tão apertados até parecer uma linha magra e tensa. Uns olhos escuros e frios a observavam, inescrutáveis, tão escuros que pareciam quase negros.

Um espanto frio lhe invadiu a alma. Bastou-lhe um olhar desses olhos frios e escuros para saber que nunca tinha estado menos segura em toda sua vida.

—Você não... Você não... Você não é...

—Dom Ramón Martínez y Barranca De La Guerra — disse, com uma leve reverência zombadora. —Ao seu serviço, senhorita. — O brilho de seus dentes retos e brancos o fazia parecer quase selvagem. —Ou possivelmente prefere me chamar O Dragão?

Carly cambaleou. O medo penetrou tão profundamente como uma adaga. Teria caído se ele não a tivesse segurado. Seus dedos se afundaram como garras na carne de seus braços. Carly se retorceu e se liberou.

Não pôde falar por um momento, só o olhava como se o visse pela primeira vez. Com mãos trementes e os pulsos ainda atados, acomodou a bata azul pálido ao redor de seu corpo. O medo se mesclava com a cólera. Elevou o queixo e o olhou nos olhos.

—O Dragão... —repetiu, e sua voz ressonou com desprezo. —Que impostor mais encantador... Nunca o teria imaginado desta maneira. Em realidade pensava que fosse um verdadeiro nobre espanhol, um homem que admirar. E a verdade é que não é mais que um ladrão e um assassino — terminou, elevando ainda mais o rosto quase desfigurado agora por uma careta.

—E você, senhorita, é a mulher responsável pelo sofrimento e morte de meus homens — respondeu dom Ramón, torcendo seus lábios.

Carly estremeceu. O fio do medo voltou a alarmá-la. Era uma loucura o provocar, mas não tinha podido evitá-lo. Tinha-a enganado, tinha enganado a todos.

—Você é o responsável, dom Ramón. Você e seus roubos, assaltos e assassinatos. Eu me limitei a avisar meu tio e seus homens. Só tentei lhes deter. E voltaria a fazer!

Uma raiva negra desfigurou seu rosto, seus olhos escuros gelaram. Tinha uma expressão cruel. Ao redor dele, os homens não se moviam. Limitavam-se a olhá-la com o mesmo ódio que transparecia nos olhos do espanhol. A bofetada chegou veloz e dura. Um golpe brutal em pleno rosto. Carly caiu ao chão. Ramón parecia enorme junto a ela, com seu corpo rígido de fúria e seus punhos apertados.

Carly fechou os olhos, preparando-se para outro golpe, endurecendo-se para suportar a dor. Mas quando abriu os olhos, Ramón tinha partido. Um homem mais velho se aproximou dela e cortou a corda que atava os tornozelos.

Falava rapidamente, em espanhol, umas palavras que ela tentou compreender. Mas não pôde: tinha o estômago apertado e a cabeça dava voltas.

O homem a puxou pela mão e a ajudou a incorporar-se.

—Sou Sánchez — disse, havia um matiz amável em sua voz. Era magro e duro, como os outros homens, mas os anos e uma vida à intempérie tinham temperado seus traços e cavado profundas rugas em seu rosto. —Tem que o compreender, senhorita. Dom Ramón não é um homem mau.

—É um monstro — replicou, levando uma mão à marca vermelha de sua bochecha.

—Só é um homem... Um que no momento não pensa com claridade. A tristeza o tem afligido.

—Tristeza? Não entendo o que me diz.

Por um instante, Carly acreditou que não diria nada mais. Os olhos ardilosos de Sánchez a escrutinavam. Suspirou e de repente pareceu ainda mais velho.

—Na expedição de ontem à noite mataram Andreas, o irmão menor de dom Ramón. Dom Ramón o queria muito. Teria dado sua vida para lhe proteger. E não pôde fazê-lo.

Carly reparou na dor que se insinuava no rosto do homem.

—Meu Deus — exclamou, e por um momento teve piedade dele, teve piedade dos dois, mas em seguida se controlou e ocultou sua inquietação. —Seu irmão era um bandido. Os dois são bandidos. O que esperavam? Que o tenham matado com um disparo possivelmente tenha sido o melhor para ele.

—Era um homem que tentava salvar seu lar, seu modo de vida. É possível que algum dia você o compreenda.

Carly estremeceu com o ar úmido da manhã. Nunca entenderia a homens como esses. Homens que roubavam e matavam. Homens sem escrúpulos nem piedade.

—Com o tempo voltará a ser o homem que sempre tinha sido — disse o velho vaqueiro. —Enquanto isso, não faça nada que possa incomodá-lo.

Carly observava Ramón por cima do ombro do velho, estava falando com um de seus homens. Era um bandido e um assassino... E a culpava pela morte de seu irmão. Um calafrio passou por suas costas, seguido por um estremecimento de pena. Tinha uma sensação de perda: o bom moço espanhol que tanto a tinha atraído era um homem que jamais tinha existido.

Contemplou ao alto e viril espanhol, tentando coincidir o homem duro que era com o homem encantador que tinha conhecido, tentando imaginar que tipo de homem era em realidade. Não sabia o que fazer, mas já não importava. Carly estava decidida a sobreviver.

Tinha-a enganado uma vez. Não voltaria a acontecer.

Devia resistir o tempo suficiente para que seu tio pudesse encontrá-la. Não duvidava que viesse procurá-la. Fletcher Austin era tão duro e decidido como o homem que se fazia chamar O Dragão.

Estes pensamentos a reconfortaram e permitiram controlar melhor o medo. Atou melhor sua bata azul pálido para se proteger do frio e retrocedeu para a sombra. Sentou-se no lugar onde a tinham deixado, sob uma árvore. Não era a primeira vez que se encontrava ante situações difíceis e cruéis. Foi muito duro perder sua irmã e seu pai. Teve que trabalhar na mina, junto a sua mãe, do amanhecer até a noite, e ainda mais duro foi ver agonizar lentamente a sua mãe. Mas tinha sobrevivido e também saberia sobreviver a tudo isto.

Seu valor aumentava à medida que passavam os minutos. Quando estiveram preparados para prosseguir a viagem, a mulher que esperava as torturas de seu sequestrador já não era Caralee McConnell, a jovem da escola de boas maneiras da senhora Stuart. Era Carly McConnell, a filha do mineiro da Pensilvânia. Uma mulher cuja força de vontade possivelmente equivalia a do cavalheiro espanhol.

—O que fez, se apoderar desta mulher, só nos pode trazer problemas — dizia Pedro Sánchez, de pé ante Ramón, enquanto sustentava seu chapéu de asa larga com suas mãos manchadas pela idade.

—O fato, feito está. É muito tarde para trocar as coisas.

—Não devia ter deixado que te visse a cara.

Ramón não fez caso da censura nem da preocupação perceptíveis na voz de seu velho amigo.

—Que os homens montem e se preparem. A garota pode ir com Enríquez. Já perdemos muito tempo.

—Seu tio a buscará. Tomará como uma ofensa pessoal. Não se deterá até que a encontre.

Ramón olhou à garota. Estava de pé, erguida e insolente. O desafio ardia na profundidade de seus grandes olhos verdes. Recordou Andreas e a ira voltou a invadi-lo, seguida por uma onda terrível de tristeza. Tentava fazer o possível por neutralizar a dor. Seus homens o necessitavam, as pessoas do refúgio também o necessitavam. E não permitiria que a morte de Andreas fosse em vão.

Mas a tristeza continuava ali, espreitando sob a superfície, à espera da menor palavra ou pensamento para voltar a desatar-se. Escondia-se como um animal de presa, preparado para lhe devorar em qualquer momento.

Seguia olhando à garota, e recordou as últimas palavras de seu irmão: "Um dia disse que uma mulher seria a causa de minha morte..." Aumentou a dor, agora de cegadora intensidade.

—Pensei melhor — disse — a mulher irá a pé. Veremos se esta gringa é algo mais do que aparentam suas maneiras condescendentes do Este.

E se encaminhou para Vento Escuro, seu cavalo. Pedro Sánchez o puxou pelo braço.

—Não pode fazer isso, Ramón. São muitos quilômetros até Llano Mirada.

Ramón se soltou do velho vaqueiro e seguiu caminhando.

—Enríquez! —O robusto vaqueiro, que estava ao outro lado do acampamento, elevou a vista. —Me traga a garota.

—Rogo isso, Ramón, não faça à garota algo do que tenha que se arrepender mais tarde.

—Não se meta nisto, Pedro.

Estava perto de seu grande garanhão negro e subiu de um salto na sela. Esteban Enríquez se aproximou com a garota. Vestia uma bata azul suave sobre uma camisola de algodão branco. O brilhante cabelo castanho formava uma grossa e larga trança que pendurava em suas costas. Ia descalça e tinha os pés azuis de frio.

Invadiu-lhe uma onda de culpa. Era tão pequena. E por mais valente que parecesse, certamente sentia medo. Mas imediatamente recordou Andreas, frio e arroxeado sob a manta que cobria seu corpo sem vida, e essa involuntária sensação de culpa se desvaneceu.

Desatou uma corda de couro atada a sua sela, armou um nó e o enlaçou em volta de seus magros pulsos. Atou o outro extremo a sua larga sela. Durante todo o processo, esperou que a jovem rogasse e implorasse, que chorasse e clamasse misericórdia, sabendo que isso não faria trocar sua decisão. Mas queria escutá-la. Só teria desfrutado um pouco mais se quem pedisse clemência fosse seu tio.

Pensou em Fletcher Austin, no rancho dos Carvalhos, nas terras roubadas a sua família, no assassinato brutal de seu irmão. Pensou em Caralee McConnell, na sofisticada garota do Este que se considerava superior a eles, que só pensava no dinheiro e em seu próprio bem-estar. A fúria se fez mais violenta, instalou-se em seu ventre como uma pedra.

—Temos que fazer uma longa viagem, senhorita — disse, olhando-a de cima. —É hora que nos ponhamos em marcha.

Puxou a corda, à espera de ver lágrimas, mas só viu que elevava o queixo. E uns olhos como fogo verde que queimavam seu corpo demonstrando abertamente o ódio que sentia.

Controlou, com dificuldades, sua raiva e esporeou o garanhão. Carly ficou a três metros atrás do cavalo e começou a seguir seus rastros. Abriram passo pelo fechado vale e depois começaram a subir para as colinas. A corda permanecia frouxa. A garota seguia facilmente os passos do cavalo.

Quatro horas mais tarde continuava caminhando e olhando ferozmente a suas costas, com olhos cheios de ódio. Ramón quase os sentia cravar-se nele.

Às vezes se voltava incapaz de resistir o desafio, atônito por não ouvi-la suplicar que se detivesse. Nem sequer tinha se queixado. Só fizeram uma breve pausa, em um arroio onde deram de beber aos cavalos e comeram um punhado de carne seca de boi. Quando a garota rechaçou a porção que ofereceu Sánchez, Ramón desmontou e se aproximou dela, estava de pé, ao extremo da corda.

—Fará o que diga Pedro —disse e lhe passou a parte de carne, sorrindo com frieza. —Não quero que diga que não somos hospitaleiros com nossos hóspedes.

Carly atirou a carne seca ao chão, junto a seus pés.

—Não tenho fome. E embora tivesse, não comeria com um animal como você.

Ramón montou seu cavalo enfurecido. E arrastou a corda uns poucos metros.

—Não desperdiçará a comida enquanto esteja conosco. Há homens que morrem porque necessitam o que você acaba de jogar. Mas não sabe dessas coisas, verdade, senhorita?

Ela se limitou a elevar o queixo.

—Por que teria que sabê-lo?

Sorriu-lhe cruelmente.

—Possivelmente com o tempo aprenda a apreciar as pequenas coisas da vida que agora dá por certas. Possivelmente chegue a implorar por elas inclusive.

—E possivelmente você aprenda que nunca vou implorar nada, e menos a você!

Amaldiçoou baixo, e ficou em marcha. A larga corda de couro a obrigou a partir atrás dele. Duas vezes, ao entardecer, Sánchez se situou ao lado de Ramón, lhe rogando que se detivesse, que deixasse que a garota montasse com um de seus homens. Mas, cada vez que Ramón se virava e a via, escutava as badaladas da noite anterior, via a bala de chumbo estalando no peito de seu irmão, escutava as suaves palavras de Andreas quando morreu estreitando sua mão.

Já era escuro quando chegaram ao lugar onde tinham decidido acampar. A garota caminhava às cegas. Tropeçava de vez em quando, mas seguia avançando, guiada somente por sua força de vontade. Enfurecia-lhe mais que nunca que a garota, tivesse decidido o encarar, que não tivesse cedido como esperava. Mas uma parte dele se alegrava por isso: podia desta maneira dirigir contra alguém à ira que o embargava.

Ela tremia, exausta. Ele advertiu quando desmontou. Cambaleava ligeiramente, lutava por manter-se erguida. A bata azul pendurava suja, rasgada pelas rochas afiadas e pelos ramos com espinhos que tinha roçado. Seu cabelo se soltou. Caía em ondas escuras cor cobre pelas costas e pegavam alguns cachos úmidos em suas bochechas um pouco queimadas pelo sol.

Em seu interior um ponto de culpa apareceu. Nunca tinha sido cruel, nem tinha elevado a mão contra nenhuma mulher. Mas esta não era qualquer mulher. Esta tinha assassinado seu irmão. Um calafrio passou por suas costas. Pagaria pelo que tinha feito. Seu tio pagaria. O devia a seu irmão.

Então, viu o sangue em seus pés. Mãe de Deus.

—Sánchez! —chamou, e Pedro chegou correndo. — Se ocupe da garota. —Suas palavras brotaram tensas e roucas. Algo o comovia dolorosamente, mesclava-se com a pena, provocava-lhe ondas insuportáveis, o impedia de pensar com claridade. —Deveria haver dito algo — disse em tom sombrio à mulher. — Teria me ocupado de que lhe providenciassem uns sapatos.

Carly cuspiu no chão a seus pés.

—Não quero nada de você. Ouviu? Nada!

Ela era tudo o que odiava. Tinha-o advertido apenas a conheceu. Era ambiciosa, hedonista, mimada e egocêntrica.

Tudo o que ele mesmo tinha sido um dia.

Afastou-se. Tinha a impressão de que sua cabeça ia explodir. Procurou algo na bolsa que levava atrás da sela e extraiu uma garrafa de forte aguardente. Tirou a cortiça e bebeu um longo trago, capaz de lhe nublar a mente. Mas não bebeu mais. Não se atrevia. Sabia que não se deteria mais se o fizesse. Pegar-se-ia à garrafa e beberia até não sentir nenhuma dor.

Atrás dele, Pedro levou a garota ao arroio e a ajudou a lavar seus pés ensanguentados. Poucos minutos depois se aproximou um dos homens, lhe levando um par de botas. Chegavam-lhe até os joelhos. O vaqueiro disse algo à garota, e embora Ramón não pudesse ouvi-lo, estava seguro sabia.

Por muito que custasse admiti-lo, por muito que não desejasse que fosse certo, o que via na cara deste homem era respeito, reticente, mas respeito. Seus homens tinham começado a sentir respeito por essa mulher, e ele também começava a senti-lo.

Cada ruído noturno parecia mil vezes mais potente. Carly não estava acostumada à intempérie. Seu pai tinha ordenado que não se afastasse sozinha da casa. Os bosques, havia dito, estavam cheios de animais selvagens e perigosos: leões da montanha, serpentes venenosas, enormes touros de agudos chifres, porcos selvagens e, o pior de tudo, gigantescos ursos cinza que comiam aos homens. Inclusive agora escutava algo que grunhia não muito longe do acampamento. E outra criatura noturna uivava mais abaixo da colina.

Carly estremeceu pensando nisto. Embora conseguisse escapar, o que parecia improvável, não conhecia o caminho de volta para casa e os animais estariam à espreita, à espera de poder parti-la em dois.

E, entretanto, a poucos metros de distância, no acampamento, havia outro tipo de perigo.

Estava esticado em sua esteira. O chapéu negro de asa larga cobria seus olhos. Acabava de voltar para a clareira, depois de haver partido sozinho ao bosque enquanto seus homens preparavam o acampamento. Havia voltado quando seus homens já começavam a dormir. Então tinha se sentado junto ao fogo e tinha contemplado em silêncio as chamas. Sánchez tinha despertado e tinha acudido De La Guerra, mas este tinha rechaçado a comida que o vaqueiro tentou lhe obrigar a comer.

Carly estava exausta, aterrorizada e ressentida pelo trato brutal do espanhol, mas algo nela se compadecia dele. Em uma época tinha tido uma irmã, uma garotinha chamada Mary, quatro anos menor que ela. Mary tinha morrido de febre quando Carly tinha nove anos. Recordava o pranto de sua mãe, recordava o vazio doloroso e impossível de encher que havia sentido, a amargura e a tristeza por ter perdido Mary. Resultava-lhe fácil imaginar a dor do espanhol pela perda de seu irmão.

Carly apoiou a cabeça contra a árvore e fechou os olhos. Tinha comido o pedaço de carne assada que Sánchez havia trazido e aceito a manta que tinha dado enquanto atava um de seus tornozelos a uma árvore. Aconchegando-se o melhor que pôde ao calor da manta, obrigava-se a não pensar em De La Guerra, a não pensar em seus músculos doloridos e cansados, em suas pernas exaustas e em seus pés cheios de cortes e tampouco na marca já escura que tinha na bochecha. Em lugar disso, tentava pensar em seu tio, desejava que viesse, estava segura de que o faria. Finalmente se afundou em um sono pesado e intranquilo.

Despertou antes da alvorada com o ruído dos cavalos e o toque do couro enquanto os homens selavam e preparavam a marcha. O jovem vaqueiro chamado Ruiz lhe trouxe um café da manhã: omeletes reaquecidas, algo das sobras da carne e uma taça de estanho de café quente que estava melhor que nunca. Ainda não tinha fome, mas se obrigou a comer. Estava ainda mais cansada que a noite anterior. Doía-lhe cada osso, cada músculo era uma tortura. Tinha os pés ulcerados, cortados e inchados, e os braços e pernas cheios de arranhões; os lábios, secos e irritados.

Escutou que o vaqueiro velho a defendia ante o espanhol. Mas este lhe deu as costas.

Pelo menos, estava viva. Não tinha sido violada como temia, e, à exceção do espanhol ninguém tinha sido cruel com ela. A estas alturas, seu tio e seus homens deviam estar a caminho e não demorariam em encontrá-la.

—É hora de partir, senhorita.

As palavras interromperam seus pensamentos. De La Guerra estava ao seu lado. O via endurecido e de uma vez desolado. Umas leves manchas vermelhas tinham aparecido sob seus frios olhos escuros. Era rude, desumano e insensível. Sentiu repugnância.

—Aonde vamos? Onde me levam?

Um sorriso triste curvou seus lábios.

—Viajaremos longe, às montanhas. A Llano Mirada, um lugar que às vezes é meu lar.

—Meu tio o encontrará onde esteja. Não descansará até que o cace como o animal selvagem que é.

—Homens melhores que ele tentaram. Ninguém conseguiu. Seu tio não será diferente.

—O que quer de mim? O que quer me fazer?

Seus olhos a percorreram atrevidos, sensuais, implacáveis.

—Isso está por ver-se, senhorita. —Apertou o nó de couro trançado que atava seus pulsos. Depois a conduziu para seu cavalo e saltou elegantemente à sela. —Enquanto isso devemos partir daqui.

A fúria a invadiu por completo, junto com a amargura e o ódio. Sem fazer caso do desarrumado estado de sua roupa nem de seu cabelo desgrenhado nem das botas muito grandes que calçava, dirigiu-lhe um sorriso frio e educado, tão altiva como pôde.

—Estou pronta tanto como você, senhor O Dragão.

O rosto do espanhol se esticou e um músculo palpitou em sua bochecha. Carly estremeceu de satisfação. Tinha tentado humilhá-la, vê-la gemer e suplicar. Parecia seguro de conseguir quebrá-la.

Mas cada vez que contemplava sua figura alta e de ombros largos, cada vez que o via sentado em seu cavalo negro como a noite, cada vez que reparava na arrogante inclinação de sua cabeça, pensava no outro homem, o bom moço que tinha conhecido antes. Aquele com quem tinha sonhado e que lhe tinha dado uma rosa. Fez um esforço e se obrigou a recordar ao atraente homem de pele escura cujo sorriso a tinha seduzido e tinha conseguido comovê-la até as vísceras.

O homem que sempre riu dela, que a tinha tomado por uma parva.

O garanhão sacudiu a cabeça e ficou em marcha pelo atalho. Carly caminhou atrás dele. Sem fazer caso de seus doloridos músculos, dos cortes, arranhões e feridas, fixou a vista nas largas costas do espanhol e forçou seus pés a dar um passo atrás do outro. Sánchez os seguia atrás, junto com outros homens.

Ao meio-dia, o sol era uma bola de fogo terrível sobre suas cabeças e brilhava com implacável resolução. A corda de couro trançado machucava seus pulsos e a bata azul pesava mais e mais com cada passo. Tropeçava e teria caído se o espanhol não tivesse diminuído a marcha. O atalho era uma encosta muito inclinada. Minava suas forças e sua vontade. Tremiam-lhe as pernas e tinha a boca seca. Não sabia quanto tempo mais poderia aguentar.

Como se tivesse lido seus pensamentos, De La Guerra deteve o cavalo, desatou o cantil, retrocedeu e a deu. Ela o levou aos lábios, saboreando cada gole longo e refrescante; era o único que podia fazer se queria que não tremessem as mãos.

—Llano Mirada está ali — disse, aceitando o cantil que lhe devolvia, e, apontando para o topo de um escarpado precipício, adicionou — Vamos para lá.

Seguiu a direção de seu olhar, mas não viu nada que se parecesse em algo a um lugar onde acampar. Só havia carvalhos, pinheiros, árvores espinhosas, e um longo canyon rochoso que terminava em um escarpado de granito.

—A ascensão é difícil — disse, torcendo os lábios cruelmente. —Se me pedir isso muito amavelmente, possivelmente a possa levar em meu cavalo.

As paredes do canyon pareciam inacessíveis. As pernas tremiam de cansaço sob a camisola. Como poderia subir uma encosta tão difícil? Estava perigosamente, a ponto de chorar, a ponto de render-se.

—Vá-se ao inferno.

Franziu o cenho, olhou-a, e depois deu uma olhada ao canyon semeado de rochas e a um atalho ao parecer inexistente. Pareceu duvidar um instante.

—Seu orgulho será sua perdição, senhorita.

Carly se arrepiou de raiva.

—E o que acontece com o seu, dom Ramón? Acaso seu grande orgulho espanhol só serviu para que matassem seu irmão? Ou foi tão somente sua cobiça?

O desespero a empurrava a provocá-lo. Necessitava da ira para poder seguir adiante.

A fúria ardia também nos escuros olhos do espanhol, tão ardente como uma labareda, mas ao mesmo tempo tão fria que sentiu um calafrio. O espanhol virou o rosto e Carly só pôde ver seu severo e elegante perfil. Então apertou os estribos contra os flancos de seu cavalo e iniciou a ascensão pelo atalho.

Avançaram um tempo ao passo. O caminho aparecia e desaparecia por momentos. Carly notou que não era possível vê-lo bem. Atrás, os homens utilizavam ramos e folhas para ocultar seus rastros. Seu corpo, esgotado, estava a ponto de render-se. Seu tio nunca acharia os rastros e, embora o obtivesse, havia guardas postados ao longo das paredes rochosas.

Carly tropeçava. Suas lágrimas, quentes, acumulavam nos olhos. Meu Deus, por que não tinha pedido ajuda a De La Guerra? Por que não deixava de lado seu orgulho e permitia a vitória que parecia tão decidido a obter? O que importava? Mas sabia, profundamente, que sim importava. O orgulho era o único que ficava, quão único impedia que aparecesse a garotinha assustada que era interiormente. Não podia deixar que o orgulho a abandonasse. Tratou de controlar as lágrimas.

Tinha subido mais da metade da encosta quando tropeçou e suas pernas cederam. Caiu de bruços no chão ressecado, sob um arbusto espinhoso. Alguns espinhos se cravaram em suas pernas. Um dos peões se situou a seu lado, desmontou e a ajudou a ficar de pé. Disse-lhe em espanhol, em voz baixa, palavras de fôlego. Pelo menos isso lhe pareceu, embora enjoada como estava não podia estar segura disso.

Pedro Sánchez se adiantou e situou seu cavalo ao mesmo tempo de Ramón.

—Basta, Ramón! Deve deixar que a garota parta.

—Não.


—Me escute, filho. Conheço-te desde que era menino. E sempre estive tão orgulhoso de ti como se fosse meu filho. Não faça isto.

—Se afaste amigo.

—Sei que está sofrendo. Sei que a tristeza o cega... Rogo-te que se detenha.

—Disse-te que se afaste.

O velho não se moveu por um momento.

—Me escute, Ramón De La Guerra. Se seguir com isto, será seu engano mais grave. E pela primeira vez, desde que te conheço, sentir-me-ei envergonhado de ti.

O espanhol apertou as mandíbulas. Olhava alternativamente Sánchez e ao jovem e um duro sorriso curvou seus lábios.

—Perguntaremos à garota. Se quiser montar, só tem que dizer e assim se fará. — Escrutinou-a com seus olhos duros e escuros. O desafio era evidente na cruel expressão de seu rosto. —Desejaria cavalgar comigo, senhorita McConnell? —perguntou, burlando, provocando-a, incitando-a a desafiá-lo. —Se esse for o seu desejo, basta que me diga isso e me ocuparei de que se cumpra imediatamente.

As lágrimas foram aos seus olhos. Ameaçavam derramar-se. Meu Deus, que não se desse conta. Olhou-o com dureza, o odiando pelo que estava fazendo com ela, ansiando poder apagar esse maligno sorriso desse formoso rosto.

Desejava ceder, aceitar a derrota e dizer às palavras que o espanhol queria ouvir. Mas sabia que não era possível. Olhou rapidamente para o final do atalho. Não parecia estar tão longe.

—Sim, senhorita — se mofou, como se estivesse lendo em sua mente — Llano Mirada está ali. —Apontou com o dedo para a cúpula. —Não é tão longe para alguém tão decidido como você. Ou o será?

—Por Deus, Ramón...

Carly o olhou aos olhos. Ergueu os ombros com as últimas forças que ficavam.

—Impede-me o passo, senhor. Avança ou me tire à corda e me deixe passar diante de você.

Algo cintilou nos selvagens olhos escuros. Olhou ao velho vaqueiro, que sacudiu a cabeça, apenado. Não retomou a marcha em seguida e depois esporeou seu cavalo. Avançaram a um passo um pouco mais lento. Cada vez que sentia um puxão na corda, quando ela tropeçava, o espanhol diminuía o ritmo da marcha. O garanhão começou a soprar ansioso por chegar a casa, mas Ramón sustentava as rédeas com firmeza e deste modo, a corda se mantinha frouxa e isso permitia que a garota marcasse o passo.

Por quê? Perguntava-se Carly, porque desejava tanto submetê-la, vê-la arrastar-se a seus pés. Até podia pensar que ele também desejava que ela conseguisse alcançar o topo. Era impossível, é obvio, e, entretanto...

Carly umedeceu os lábios. A corda se retorcia e balançava frente a ela. A bata azul parecia pesar uma tonelada. Debaixo, só levava sua camisola branca de algodão, muito suja agora e cujo pescoço de cor rosa se rasgou e pendurava sob sua garganta. Com um gesto desafiante que era indício óbvio de seu desespero, tirou a bata e continuou subindo. O suor escorregava pela testa e deslizava entre seus seios. Custava-lhe respirar, queimavam-lhe os pulmões, até o ar era uma verdadeira tortura. As ampolas de seus pés arrebentavam e sentia como sua pele se rasgava. O topo parecia afastar-se com cada um de seus passos vacilantes. Não obstante, continuou subindo.

Os outros foram atrás dela em silêncio. Ninguém falava e todos a contemplavam com olhos cheios de compaixão. Não importava. O único importante era chegar à cúpula da colina.

—Já estamos perto — disse De La Guerra, havia algo diferente em seu tom de voz, uma gentileza que ela não percebia nele desde o dia em que lhe tinha dado a rosa. —Só ficam uns poucos passos mais.

Descobriu que estava junto aos estribos. Não tinha a menor ideia de quando se adiantou nem de que estava se apoiando na sela. Também advertiu pela primeira vez que a corda já não estava ao redor de seus pulsos, tinham-na cortado. O cavalo avançou e também o fez Carly, com cuidado. O último passo a deixou em frente de uma ampla meseta que dominava as montanhas. Llano Mirada, uma planície com uma ampla vista.

Deu dois passos mais e tropeçou. O espanhol deteve o cavalo, mas a cabeça dava voltas. Sentiu uma mão na cintura, logo o chão que se aproximava, e se afundou na escuridão.
Ramón desceu do cavalo rapidamente, mas foi Pedro Sánchez quem pegou em seus braços à jovem

—Não se aproxime dela, Ramón — disse seu amigo em um tom que este não escutava desde que era menino. A culpa o invadia, sentia-se emocionado e confuso e de repente cheio de remorsos. Nunca tinha sido cruel. Era um homem duro, mas só quando devia sê-lo. Contemplou à mulher, viu seu magnífico cabelo castanho sobre o braço de Sánchez, viu seus altos seios que se elevavam com cada uma de suas breves e rápidas inalações, e em seu interior cresceu um nó de dor e tristeza.

Retrocedeu e deixou passar ao homem mais velho. Sánchez embalava a jovem como se tratasse de uma menina.

Mas não era uma menina, recordou Ramón. Era a sobrinha de Fletcher Austin. Era rica e consentida, sedenta de poder e de riquezas como seu tio. Era a mulher que tinha feito que matassem seu irmão.

Contemplou aos dois e encolheu seu peito. A jovem também era valente e orgulhosa e tinha conseguido fazer-se respeitar como nenhuma outra mulher.

Mas isso não trocava o que era. Não trocava seus sentimentos. E, entretanto...

Sánchez a levou a pequena casa de tijolo cru que tinham construído com suas próprias mãos e as de Andreas. Florência, a governanta, fechou a porta atrás deles. No recinto, os peões saudavam seus seres queridos, as suas famílias e amigos. Ignácio e Santiago, os dois homens feridos durante o assalto, foram descidos dos cavalos e levados a outra casinha onde suas mulheres poderiam cuidá-los.

Ruiz Domingo, o mais jovem dos peões, conduzia o cavalo de carga que trazia os restos de seu irmão. Já tinham avisado o padre Xavier, chegaria no dia seguinte. De pé à entrada, à sombra, Miranda Aguilar disse duas palavras a Ruiz e em seguida se dirigiu a Ramón. Era alta e muito bonita, de traços escuros e atrativos. Era em parte a Índia miwok e em parte castelhana, de pele suave e brilhante cabelo negro.

—Ramón — disse estendendo as mãos, com os formosos olhos escuros cheios de lágrimas. Seu pai tinha cavalgado com a Murieta e tinha morrido durante um roubo a um grupo de viajantes, dez meses depois do último enfrentamento de Murieta com a lei. —Meu Deus, sinto-o tanto — disse Miranda, lhe rodeando o pescoço com seus braços e apoiando a cabeça em seu peito.

Ramón sabia que desejava ir com ele, que o deixaria entrar em seu suave corpo de mulher e trataria de apaziguar sua dor. Mas também sabia que não a deixaria fazer.

—Todos o havemos sentido muito, querida — disse e se liberou de seus braços. —Por favor, vá com os outros.

—Mas quero estar contigo. Não me afaste Ramón.

Afastou-se mais dela.

—Disse que vá. E isso é exatamente o que quero que faça.

Ficou ali um instante, com a cabeça alta e o comprido cabelo caindo pelas costas quase até a cintura. Depois se voltou e partiu. Ramón sabia que não o desobedeceria. Não era como a norte-americana, como a gringa. Entretanto, era a gringa que ocupava sua mente enquanto se encaminhava silenciosamente para o bosque em busca de um lugar distante onde pudesse rezar.

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