O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 22

Teria passeado de um lado a outro de seu dormitório se não doesse tanto o tornozelo. Em troca, permanecia sentada junto à janela, com a perna descansando sobre uma almofada, inquieta por Ramón e preocupada com seu tio. De repente se ouviu o som dos cascos de vários cavalos.

Apertou o cinturão da bata rosa pálido, aproximou-se coxeando à porta e recebeu ao grupo de cavaleiros que entrava no pátio levantando uma poeirada.

A visão do corpo ensanguentado de seu tio, que vinha adiante do grupo, caído sobre a sela e amarrado ao cavalo, estremeceu-a de terror.

—Meu Deus — sussurrou. Firmou-se no marco da porta.

Cleve Sanders se adiantou.

—Está muito mal, senhorita McConnell.

Moveu a cabeça, enjoada.

—Depressa, entrem em casa para que possamos o atender. — Sanders e outros três homens o desataram e o desceram do cavalo e depois carregaram seu corpo empapado de sangue. Tinha rasgada e sujas as calças de montar pela queda que tinha sofrido e a camisa manchada de vermelho devido a uma enorme ferida no estômago. E outro buraco vertia sangue desde seu peito. —Levem-no ao dormitório.

Carly mordeu os lábios com força, tentando controlar os gemidos guturais que ameaçavam brotar de sua garganta. De repente já não importavam as acaloradas palavras, os desacordos nem as maquinações de seu tio. O tio Fletcher morria. Estava ferido e assustado. Tinha sido bom com ela, ao seu modo. Era seu único parente. O irmão de sua mãe. E ela tudo o que ele tinha.

—Caralee? —pronunciou seu nome tão fracamente que quase não o escutou. Aproximou-se um pouco mais enquanto os homens o depositavam no brando colchão de plumas e começavam a tirar as botas.

—Aqui estou tio Fletcher.

Obrigou-se a sorrir, enxugou as lágrimas e agarrou uma mão. Sentou-se em uma cadeira a seu lado. As pernas já não a sustentavam. Ao outro lado da cama, Rita e Cleve Sanders tiravam a rasgada e sangrenta camisa e começavam a lavar as feridas. Mas todos sabiam que o esforço seria inútil.

Um som baixo, rouco de dor, surgiu de sua garganta. Tragou ar e o deixou escapar lentamente.

—Não pensava terminar assim... — Elevou a vista para olhá-la. Tinha as bochechas afundadas pela dor e a pele tão pálida como a cera de uma vela. —Queria... Estar seguro de que... Estaria bem. Sua mãe... Teria querido isso.

A Carly ardia a garganta. Sentia que se afogava.

—Fez tudo o que pode tio Fletcher.

—Esperava que... Você e Vincent...

—Sei. Não tente falar. Tem que economizar forças.

Santo Deus estava morrendo! E ela não acreditava.

—Não há... Tempo para isso — sussurrou e apertou um pouco mais a mão. —Tem que saber que... A meu modo... A amei muito. Nunca disse isso a ninguém. Não sou... Assim. Tampouco o disse a sua mãe. E sempre... Arrependi-me por isso.

Carly tragou saliva. Tentava controlar a tristeza.

—Eu também te amo, tio Fletcher. Estava tão só depois da morte de minha mãe. E vim aqui e você acabou com minha solidão.

Fez uma careta que procurava ser um sorriso, mas uma onda de dor atravessava o corpo.

—Queria que fosse feliz... Que tivesse as coisas que sua mãe nunca teve.

Começou a tossir e um fio de sangue escapou entre seus magros lábios agora azul.

Carly passou um lenço branco pela boca para tirar o líquido vermelho. Tremiam as mãos e as lágrimas alagavam o rosto.

—Sou feliz, tio Fletcher. E tenho tudo o que quero... Juro-te.

Olhou-a com algo de sua antiga perspicácia e astúcia.

—Fala do... Espanhol. Ainda segue... Apaixonada por ele. Dei-me conta quase desde o começo.

—Já sei o que pensa dele, tio Fletcher, mas...

—Ele te cuidará... Nunca duvidei disso. É um bom homem para ter como amigo... E mau para tê-lo como inimigo.

Carly não disse nada. Limitou-se apertar a mão, já muito branca, de seu tio.

—Oxalá não tivesse acontecido tudo isto. Teria dado qualquer...

—Assim é a vida, querida. Há montões de coisas... Que oxalá não tivesse feito. Coisas que eu gostaria... Trocar. — Um soluço se insinuava, mas só emergiu um som suave. —Onde está Rita? —perguntou.

—Aqui estou senhor Fletcher.

Adiantou-se com o rosto cinzento e lágrimas que corriam livremente pelas bochechas.

Fletcher aspirou ar com suma dificuldade.

—Sentirei saudades, mulher. Tampouco havia dito isto antes a ninguém.

Rita começou a falar em espanhol, rogando que não a deixasse. Mas já estava indo. Carly quase podia sentir como a vida escapava de maneira inevitável.

—Caralee? —sussurrou.

—Sim, tio Fletcher?

—Seja feliz — disse com um último fôlego.

E morreu.

Rita se inclinou sobre ele, soluçando contra seu peito. Carly saiu silenciosamente do quarto. Caminhou aturdida, mal notava a dor de seu tornozelo, passou sob os abajures quase apagados do vestíbulo e chegou ao salão. Sentou-se frente às brasas que ficavam do fogo da grande lareira de pedra e se apoiou, esgotada, contra o respaldo do sofá de crinas de cavalo.

Sua vida tinha trocado por completo em uma só noite. Ramón estava ferido gravemente e seu tio tinha morrido. O xerife ainda patrulhava os bosques perseguindo Pedro Sánchez e ao resto dos homens.

Todos seguiam procurando o Dragão.

Inclinou a cabeça, entrelaçou os dedos e rezou uma prece silenciosa pela alma de seu tio. Quando terminou, orou também por Ramón e pelos outros homens. Um rumor a interrompeu. Havia vozes no vestíbulo.

Cleve Sanders se deteve junto a três de seus homens.

—Pelo menos matamos ao bastardo que o fez.

Carly se incorporou no sofá.

—O que... O que disse?

—Sinto muito, senhorita McConnell. Não sabia que estava aqui.

—Está bem. O que dizia você?

—Dizia aos homens que matamos ao que assassinou seu tio. Riley Wilkins matou ao Dragão espanhol.

Falavam de Ramón? Tinha acontecido algo em Las Almas depois que partiu? A Carly encolheu o coração. Meu Deus, não podia ser verdade.

—O que aconteceu?

—Os perseguíamos pelo atalho acima, ao norte do rio. Os bandidos se dispersaram e os perdemos nas colinas, mas o líder retrocedeu. Situou-se atrás de uma rocha e emboscou seu tio.

—E como sabe que era O Dragão? —perguntou.

—O vi quando entramos em Llano Mirada. Estávamos com o xerife Layton quando o levaram ao cárcere.

—E esse homem, é o que matou tio Fletcher?

—Sim. Riley Wilkins o matou como a um novilho.

Carly não disse nada mais. Ficou de pé, vacilante, frente à lareira apagada, e caminhou afirmando-se pelo corredor para seu quarto. Desejava ir onde Ramón estava, contar que seu tio tinha morrido e também seu primo. Mas não era o momento adequado. Não podia correr o risco de atraí-los para Ramón. Se descobrissem que estava ferido, podiam averiguar que aquela noite tinha estado com seus homens no cárcere.

Teria que enviar José para perguntar por ele. Agora estava segura que podia confiar nele. Possivelmente amanhã pela tarde poderia ir ela mesma. Agora que seu tio tinha morrido, a ninguém surpreenderia que voltasse com seu marido.

Esgotada até os ossos, mais assustada e só que nunca após a morte de sua mãe, Carly entrou em seu quarto e fechou lentamente a porta.

Ramón se movia inquieto sobre o colchão de plumas. Tinha dormido de maneira intermitente, debilitado pela perda de sangue. Tinha piorado da volta às Almas. No meio da tarde do dia seguinte tinha subido muito a febre e mais de uma vez perdeu a consciência. Apenas se dava conta do que ocorria a seu redor.

José informou a Carly de seu estado. Ela apertava as mãos e controlava as lágrimas, tremia e passeava de um lado a outro, mas não se atrevia a partir do rancho. E menos ainda se a esperava o xerife Layton, sentado em uma cadeira do despacho de seu tio.

Ficou de pé quando entrou Carly, franziu o cenho ao advertir a ligeira claudicação que tentava dissimular e a saudou amavelmente com uma inclinação de cabeça.

—Sinto muito por seu tio, senhora.

—Obrigada, xerife Layton.

Jeremy recolheu seu chapéu de asa larga do respaldo da cadeira onde o tinha deixado.

—Parece-me que... Tal como resultaram as coisas... Nunca saberemos o verdadeiro nome do bandido.

—Refere-se ao Dragão espanhol?

—Ninguém parece o conhecer por aqui. E não acredito que o digam se sabem. Possivelmente seja melhor assim. — O xerife a olhou inquisitivamente — e Carly não se atreveu a responder esse olhar—fez girar o chapéu entre suas mãos e se encaminhou à porta. —Suponho que como Fletcher morreu, você e dom Ramón viverão aqui, nos Carvalhos.

Carly elevou a cabeça. Deteve-se e ficou imóvel.

—O que você disse?

—Parece lógico. O lugar agora é seu.

—O Rancho dos Carvalhos é meu?

O xerife assentiu com um movimento de cabeça.

—Com certeza que sim, senhora. Fletcher Austin disse mais de uma vez com toda claridade. Dizia que se lhe acontecesse algo, o rancho pertenceria a você. Em várias ocasiões me disse que você era seu único familiar.

—Sim... Acredito que assim é. As coisas ocorreram tão rapidamente. Nem sequer o tinha pensado.

—Estou seguro de que fez todo o necessário para deixar os papéis em ordem. Pode ser que haja algo em seu escritório. Revise seus papéis. Algum desses advogados amigos que tem em São Francisco deve conhecer os detalhes do testamento. Seja como for, apostaria todo meu dinheiro que o lugar lhe pertence.

Carly o olhava e lhe custava entender o sentido de suas palavras.

—Obrigada, xerife Layton. Farei o que me sugeriu.

Era muito provável que o rancho dos Carvalhos fosse dela. Deus do céu! Custava-lhe acreditar. E, entretanto queria que fosse certo.

Sepultaram Fletcher Austin ao entardecer. Ele teria gostado da pompa de um grande funeral, e que assistissem seus poderosos amigos de São Francisco. Mas não havia tempo para que chegassem e a Carly parecia que os mortos estão mortos e ponto. Sua inquietação se derrubava agora para os vivos.

O toneleiro que trabalhava no rancho construiu um robusto ataúde de carvalho. Lavaram e prepararam o corpo de seu tio e o vestiram com o melhor de seus trajes. Carly, Rita Salazar, Cleve Sanders e uma dúzia da gente que trabalhava no rancho se reuniram no topo de uma colina sob um velho carvalho do qual se via toda a fazenda. Era um lugar magnífico para enfrentar a eternidade. Carly sabia que, com a escolha de seu lugar de descanso finalmente tinha conseguido o agradar.

Isso era tudo o que o formoso vale lhe devia. Mais do que merecia, teve que admitir Carly depois de descobrir, esta mesma manhã, a feia verdade sobre seu tio.

Entretanto, era seu tio. Por mais desumano que tivesse sido, ela o tinha querido. Chorou junto a sua tumba quando Riley Wilkins leu versículos da Bíblia. Oxalá as coisas tivessem sido diferentes. Terminou o serviço e todos voltaram para a casa, onde tinham preparado grande variedade de comidas: galinha assada, omeletes recém assadas, fontes de milho cozido ao vapor, batatas fritas e guisado de carne. Também havia um novilho assando em uns ferros sobre as brasas. E veio e sangria para beber.

Tão logo terminou de receber as condolências, Carly escapuliu para seu dormitório e trocou de roupa para vestir seu traje de montar. Tinha esperado o suficiente. Disse aos outros que ia às Almas reunir-se com seu marido. Necessitava-o, agora que seu tio já não estava. E o amava.

E tudo isso era certo.

Não contou quão preocupada estava por ele, nem que o coração doía mais com cada passo de sua pequena égua para o rancho de Ramón.


Ramón se moveu um pouco na cama e entreabriu os olhos. Palpitava o ombro e a pele em volta da ferida queimava como se o estivessem marcando com um ferro quente. Mas não doía tanto a cabeça e sentia a pele fresca, já não era nem quente nem avermelhada. Durante a noite tinha jogado a um lado o lençol e seu corpo nu se esparramava sobre o branco lençol de musselina.

Por uns momentos não disse nada. Desfrutava da sensação de voltar a viver, da vista do céu que passava de amarelo a azul fora da janela e da silenciosa respiração da mulher que dormia em uma cadeira junto a sua cama.

Sabia que tinha vindo, tinha-a sentido no instante em que entrou na estadia, mas em realidade ainda não a tinha visto. Seus olhos não se abriam e não tinha forças suficientes para elevar a cabeça.

Então, sentiu algo frio na testa, escutou a suave voz de sua mulher que o cuidava. Pensou vagamente, que não o abandonaria, que Caralee estava ali para ficar.

Tinha descansado melhor depois disso. Apagou-se o fogo de seu corpo e isto o permitiu dormir. Então suas forças começaram a recuperar-se.

Tão silenciosamente como pôde, cuidando de não despertá-la, incorporou-se até sentar-se, apoiou as costas contra a cama e estendeu a mão para tomar o copo de água que havia na mesinha de noite. Enxaguou a boca e bebeu o resto da água. Passou uma mão por seu revolto cabelo negro. Olhou sua esposa, notou que tinha desabotoado a blusa e que deixava ao descoberto sua pele suave e pálida. Estremeceu ligeiramente. Cobriu-se com o lençol para ocultar sua crescente excitação.

Sim, definitivamente se sentia melhor.

Mas não queria despertá-la. Ela precisava descansar e gostava de estar assim, quieto, sentado ao seu lado. Sorriu contemplando o brilho de sua cabeleira acobreada à luz do sol da manhã. Teve vontade de tirar os alfinetes que sustentavam o coque na nuca e poder acariciar o cabelo com os dedos. Perguntou-se quanto tempo passaria até que Carly o declarasse em condições de voltar para sua cama.

Sorriu pensando nisso. Jurou que seria menos tempo do que ela quereria.

Carly se moveu na cadeira e abriu lentamente seus imensos olhos verdes, e o olharam ao rosto.

—Ramón?

—Bom dia, querida.



—Ramón! — Levantou-se de um salto e esteve a ponto de lançar-se a seus braços. Mas alargou a mão para tocar a testa e comprovar a temperatura. —Já não tem febre!

—Sim, meu amor. Já começo a me recuperar. Quase me sinto bem.

Contemplava os lábios vermelhos de sua mulher e outra vez algo se erguia sob os lençóis. Sorriu maliciosamente.

Carly o examinava dos pés a cabeça, detendo-se nas ondas de cabelo negro que caíam sobre a testa e nos músculos que apareciam em seu peito quando se movia.

—Como pode ser que esteja tão bem um homem tão ferido gravemente como você?

Não pôde conter sua risada.

—Parece-me perfeito que pense isso, já que estou pensando te seduzir.

—Caramba, de verdade que está melhor — disse Carly, sorrindo. Mas o sorriso desvaneceu quando se sentou na cama a seu lado. —Estava muito preocupada, mas não pude vir antes.

—Era melhor que esperasse. Como vão as coisas no rancho dos Carvalhos?

—Há tantas coisas que tenho que contar — disse Carly, movendo a cabeça.

—Me diga que ficará em Las Almas. É o único que quero escutar.

Apertou-lhe a mão com mais força.

—Está seguro de que está bem? Possivelmente devesse descansar mais tempo. Não quero que se esgote.

—Me fale, jovenzinha. Quero ouvir o que tem que me dizer.

—Meu tio morreu. Morreu na briga fora de San Juan Batista. Também mataram Angel.

—Angel morreu?

Carly moveu afirmativamente a cabeça.

—Ainda acreditam que ele era O Dragão. Tudo terminou Ramón. O xerife diz que já não perseguirão aos outros. Assim, a menos que haja outros problemas, tudo isto terminou. — Ramón deixou cair à cabeça no travesseiro. Sentia-se muito aliviado, mas, de repente, também muito cansado. —Tinha razão sobre meu tio — disse Carly em voz baixa. —O xerife veio no dia do funeral. Sugeriu-me que revisasse os papéis de meu tio. Encontrei um chaveiro em seu escritório. Correspondia a várias gavetas. Em um deles encontrei um arquivo que continha o registro de sua conta bancária desde 1851. Havia uma transferência que efetuou a um tal Henry Cheevers. De dois mil dólares. Não teria pensado nada em particular, mas reparei na data, abril de 1853, e recordei que o tio Fletcher tinha assumido a propriedade do rancho dos Carvalhos menos de um mês depois. E em outro arquivo descobri que Henry Cheevers formava parte da Comissão de Terras. — Ramón absorvia em silêncio suas palavras, mas parecia estar ligeiramente tenso. —Acredito que meu tio subornou Henry Cheevers para que rechaçasse a demanda de sua família pelo rancho. Venderam então a terra a Thomas Garrison por uma quantidade irrisória. Também havia um arquivo dedicado a Garrison e outro destinado à compra do rancho. Incluindo a quantia do suborno, o tio Fletcher comprou as terras pela décima parte de seu valor real. — Seus olhos se nublaram de lágrimas. —Meu tio te roubou a terra, Ramón. Foi exatamente como você dizia.



Estou obrigado a amá-la e mostrarei minha perseverança. Que difícil é quando alguém ama tanto a uma mulher!

Que golpes recebe o pobre que a primeira vista se apaixona! Entrega-se ao vinho e se confunde e se deita sem provar um bocado.

Não me mate, não me mate com pistola ou com faca! Mate-me melhor com esses olhos. Toma minha vida com esses lábios vermelhos.

Antiga balada espanhola

"O Capotín" (A canção da chuva)



EPÍLOGO

Tinham organizado um fandango. Era uma noite especial, planejada por Ramón, embora, estranhamente, tinha falado muito pouco a respeito. Só havia dito que haveria uma grande festa para celebrar algo muito importante. Carly não estava segura do que se tratava, mas não importava. Tinha-lhe preparado sua própria surpresa.

Chegavam-lhe os sons da música. Além da janela, os violões e violinos tocavam melodias espanholas entretendo a quão convidados já tinham chegado. Carly tamborilava com os dedos o tamborete frente ao espelho esperando que Candelária terminasse logo de arrumar o cabelo.

—Não pode estar quieta? —chamou sua atenção a garota. —Se quiser que eu seja rápida não deve mover-se tanto.

—Não posso evitá-lo. Faz tempo que tinha que estar preparada. Ramón deve estar perguntando-se onde estou.

—Deveria ter deixado que Rita se encarregasse dos preparativos, como disse dom Ramón, em lugar de tentar fazê-lo tudo você mesma.

—Só ajudei com a comida. Queria estar segura de que haveria suficiente.

A pequena criada se limitou a franzir o cenho à espera que Carly deixasse de mover-se tanto. Tinham passado seis meses da morte de tio Fletcher. Várias semanas depois tinham aberto o testamento. Seu tio, tal e como havia dito o xerife, deixava-lhe o rancho. Mas teria que redigir documentos, transferir contas a seu nome e uma dúzia de papéis diferentes que assinar. Dois meses depois da morte de seu tio, ela e Ramón se instalaram no Rancho dos Carvalhos e Ramón se encarregou então de sua administração.

Sua mãe e sua tia tinham decidido permanecer na casinha de tijolo cru de Las Almas. Ficava a curta distância e as duas anciãs já a consideravam seu verdadeiro lar.

—Já não desejo viver no rancho dos Carvalhos — havia dito a mãe. —Ali vejo a mão de seu pai por toda parte. As lembranças são muito dolorosas. Aqui, estou mais tranquila.

Mariano, Azul e alguns peões ficaram com elas. O resto dos homens incluindo Pedro Sánchez voltaram para o rancho dos Carvalhos.

Em várias ocasiões ao longo dos últimos meses, Carly tinha falado com Ramón sobre a propriedade do rancho, mas ele se negava a falar do tema. Ramón repetia uma e outra vez que legalmente o rancho era dela. E bastava com que ele e sua gente tivessem podido retornar a sua casa.

Mas a Carly não bastava. Queria retificar a injustiça cometida, e esta noite era a oportunidade perfeita.

—Já quase terminamos senhora.

Carly ficou de pé quando Candelária retrocedeu para examinar o resultado. Aproximou-se do grande espelho.

Alisou a saia de seda, examinou sua imagem, contemplou os franzidos do corpete, satisfeita porque o decote era bastante amplo, mas não em excesso, contente porque sua cintura se visse tão magra, agradada pelos largos cachos acobreados que Candelária tinha disposto sobre um de seus ombros nus.

—Esta cor é muito bonita, não te parece?

—Sim, senhora. É o mesmo verde brilhante de seus olhos.

—Espero que Ramón goste.

—Seu marido gosta de tudo o que você faz — disse Candelária, sorrindo. —Oxalá pudesse encontrar um homem que me amasse só a metade do que ele ama a você.

Carly sentiu o calor que subia às bochechas.

—Espero que saiba quanto o amo.

A pequena faxineira de cabelo negro se limitou a sorrir. Tomou a formosa mantilha de encaixe negro, que combinava com os cós de seu vestido e ajudou Carly a situá-la sobre os altos pentes de prender cabelos com incrustações de madrepérola que Ramón lhe tinha presenteado esta mesma tarde.

—Sei que parece tolo, mas estou nervosa. E não sei por que.

—Possivelmente porque dom Ramón planejou esta noite especialmente para você.

Carly se voltou para olhar sua amiga.

—De verdade crê isso?

—Saberá muito em breve. Saia agora. Não deixe que seu impaciente marido a siga esperando.

Carly saiu do grande dormitório principal que agora compartilhavam, desceu pelo vestíbulo e entrou na sala. Seu bonito marido passeava de um lado a outro frente à janela. Os amplos reversos de cetim vermelho de suas rodeadas calças negras de montar ondulavam sobre suas brilhantes botas negras.

Sorriu quando a viu.

—Ai, querida... —exclamou com os olhos brilhantes pela emoção. —Ver-te me deixa sem fôlego.

—Estou contente que você goste do vestido — disse Carly, sorrindo.

—Mas eu gosto mais da mulher que vejo. —Esquadrinhou-a com um olhar tão atrevido que o calor lhe arrebatou as bochechas. —Mas vem aqui, já teremos tempo para isso mais tarde. Agora temos convidados. Esta noite há fandango!

Saíram juntos da casa ao pátio. Estava decorado com dúzias de abajures de cores e montões de flores de papel. Dos ramos das árvores penduravam serpentinas e as mesas estavam adornadas com grinaldas de rosas. Os músicos, vestidos com ajustadas calças negras e jaquetas, tocavam uma serenata ao extremo da pista de dança de madeira.

A festa já estava em pleno desenvolvimento. Tinha chegado os Montoya, os Juarez e os Herrera e dúzias de outros convidados. Dom Alejandro de Estrada e os Micheltorena tinham vindo desde Monterrey. Muitos peões — e entre eles Dois Falcões, orgulhoso de que o aceitassem no grupo — tinham vindo de longe, inclusive de San Miguel. Uns seguiam montados em seus cavalos, como era o costume, e outros tinham desmontado e participavam do baile.

A tia e a mãe de Ramón riam e desfrutavam como Carly nunca as tinha visto. Tia Teresa foi primeira em falar.

—É uma maravilhosa festa de matrimônio, verdade?

—Festa de matrimônio? —perguntou Carly, ruborizando-se. —Não acredito que...

—Sim, tia — interveio Ramón, com um sorriso. —É a celebração de nosso matrimônio.

Carly olhou Ramón.

—O que? Uma recepção por nossas bodas?

—Sim, assim a poderíamos chamar. Queria que meus vizinhos e amigos conhecessem minha mulher. Queria apresentar minha noiva como faz qualquer recém casado.

Em Carly já formava um nó na garganta. Compreendeu de repente por que tinha planejado esta noite com tanto cuidado. Era sua maneira de fazer saber a todas as pessoas que a estimava, quanto significava ela para ele. Estava-lhes dizendo que ela era a mulher que ele queria. E que não importava que fosse anglo-saxã. Agora era uma De La Guerra e estava orgulhoso de que fosse sua mulher.

—Obrigada.

Uma lágrima aparecia a seus olhos. Ramón deve ter notado, porque lhe elevou o queixo e a beijou brandamente.

—Me alegro de que você goste. Oxalá a tivesse feito muito antes. Agora, vem comigo. Quero te apresentar a algumas pessoas e depois, ensinar-te-ei a dançar a jota.

Começaram a mesclar-se com os convidados. Ramón a apresentou com orgulho às pessoas que ela ainda não conhecia. E se uniram ao baile.

Rindo felizes, dançaram uma peça atrás de outra. Ramón ensinava pacientemente os passos até que ela conseguia dominá-los. Os amigos rompiam sobre suas cabeças coloridas "cascas de ovo", ovos vazios cheios de papel e perfumados com colônia, como se verdadeiramente fossem um par de noivos, e os pedacinhos de papel brilhante se dispersavam pelo cabelo e pela roupa.

Os peões obrigavam Ramón a beber sua potente aguardente, e o poderoso álcool o fazia rir e brincar e unir-se ao coro que cantava umas canções bastante subidas de tom.

Não estava ébrio, como notou Carly quando se aproximou e a puxou pela mão para levá-la de volta à pista de dança, só estava desfrutando das coisas boas da vida, da alegria de compartilhar com velhos e bons amigos.

Ramón sorriu levemente e indicou algo aos músicos. Trocou o ritmo da música. Uma atrás da outra, os demais casais deixaram de dançar, voltaram-se para ele e formaram um círculo a seu redor.

Elevou uma mão de Carly, inclinou-se sobre ela e apertou ali os lábios.

—Esta dança é para ti — disse, com a voz rouca.

Elevou suas elegantes mãos escuras sobre sua cabeça. Aplaudiu uma, dois, três vezes e ao mesmo tempo golpeou o chão da pista de madeira com o taco de suas botas. Arqueou as costas e começou a dançar ao ritmo da música sem deixar de sapatear com força. A luz dos abajures cintilava nos adornos de prata de suas rodeadas calças negras.

Seus olhos escuros olhavam ardentemente para Carly, mantinha em alto a cabeça e seu olhar era tão apaixonado como o céu noturno. Parecia perfurá-la, mantê-la cativa como tinha estado aqueles dias nas montanhas. Suas mãos se moviam sinuosamente, com graça, e o fazia quase o mesmo efeito que se a tocassem.

A Carly acelerava a respiração e seus seios ameaçavam escapar do pronunciado decote. Seu coração se agitava e golpeava seu peito por dentro. Percorria o corpo de Ramón com os olhos, detendo-se no largo de seus ombros, no plano de seu estômago, nas fibras dos poderosos músculos de suas coxas, que se endureciam com cada um de seus movimentos. As calças eram tão rodeadas que destacavam o pesado vulto de seu sexo e exibiam sem margem a dúvida sua virilidade.

Queria estender os braços, tocar seu poderoso peito, sentir que essas mãos elegantes passeavam por seu corpo, acariciando-a, penetrando-a profundamente. Queria saborear o calor de sua boca, reconhecer o fogo queimante de seu sexo no mais fundo de si mesma.

Seus mamilos se ergueram, começaram a doer sob os laços que seguravam a parte superior do corpete. Os olhos de Ramón se detiveram ali no momento em que mais tensos estavam e sorriu sensualmente. Conhecia o poder de sua dança. Ela se deu conta de que já o tinha utilizado antes, e uma flechada de ciúmes a atravessou, mas também esquentou o sangue.

A música culminava, aumentava seu ritmo, com uma força coerente com o calor que a queimava. Ramón girava sobre si mesmo, sapateava e aplaudia. Arqueou as costas e sua virilidade se projetou para diante. Uma onda de umidade se acumulou entre as pernas de Carly. Tocou com a língua uma esquina de sua boca e umedeceu o lábio inferior. Os olhos de Ramón se obscureceram de fome. O significado desse olhar era evidente e todos os presentes o entenderam. Desejava-a. Era a fome de um homem por sua mulher. E ninguém duvidou que Ramón desejasse possuí-la.

Teria se ruborizado se não tivesse estado tão absorta. Mas quando a música terminava e suas botas golpeavam o chão com maior rapidez e força e a multidão começava a aplaudir e gritar a um ritmo frenético, simplesmente se aproximou mais a ele sem separar o olhar de seus olhos. E chegou o crescendo final. Ramón golpeou violentamente com os tacos, elevou a cabeça com força e seus olhos cravaram no rosto de Carly. Não piscou, não se moveu nem um só centímetro, só se manteve imóvel à espera, convidando-a a aproximar-se dele.

A multidão retrocedeu e ela deu uns passos para ele. Deteve-se muito a pouca distância de sua esbelta e firme figura. Ficou nas pontas dos pés e rodeou o pescoço de Ramón com seus braços. Sentiu que uma mão a agarrava pela cintura, esmagava-a contra ele, Ramón lhe levantou o queixo e se apoderou de sua boca com um beijo apaixonado que todos aplaudiram.

Estava sem fôlego quando acabou o beijo e mal teve consciência de que ele a elevava em braços e se afastava com ela a grandes passos em direção à casa. Então sim que se ruborizou e o calor abrasou suas bochechas... E foi descendo por todo seu corpo.

—Foi maravilhoso — sussurrou — formoso...

—É você a formosa, querida, e eu o homem mais afortunado do mundo.

Abriu a porta da casa com o pé e a levou dentro. Os abajures projetavam uma luz tênue e o suave resplendor de umas velas convidava a cruzar o vestíbulo. Caminhou nessa direção e entrou em dormitório, que cheirava a flores frescas que havia no vaso de vidro esculpido sobre o vestidor. Havia pétalas sobre a cama.

Ramón tirou os alfinetes do cabelo e deixou que uma cascata acobreada se derramasse por suas costas.

—Sabe quanto te amo?

—Sim, meu amor — respondeu Carly, que já sentia brotar as lágrimas. —Sei. Esta noite me mostraste quanto me ama.

—Só é o princípio. Será de dia quando finalmente conheça a verdadeira amplitude de meus sentimentos.

E começou a despi-la, mas Carly se afastou delicadamente.

—Antes, tenho que fazer algo.

Foi ao vestidor, abriu uma gaveta e tirou uma folha de papel dobrado. Voltou para Ramón e o desdobrou ante ele.

—O que é isso? —perguntou Ramón.

—Esta noite, tem-me feito o presente mais bonito que nunca ninguém me tinha dado. Converteste-me em uma verdadeira De La Guerra. Deste-me um lugar em sua vida.

—Só te dei o que merece. O que devia ter dado muito antes.

—Não, deste-me mais que isso. Deste-me amigos que me estimam. Deste-me uma família que amar. Tem-me feito sentir que pertenço a esta casa. E agora, sou eu que quer te dar algo. — Pôr-lhe o papel nas mãos. —Vamos, abre-o.

Desdobrou cuidadosamente o documento. "Concessão" lia-se em umas letras elegantes, escrito com tinta azul.

—É o título de propriedade do Rancho dos Carvalhos. — Olhou-a, a emoção se notava em seus olhos. —O documento diz que o rancho me pertence?

—Assim é. Pertence ao proprietário legítimo. E essa pessoa é você.

—Não posso...

—Pensa em Andreas, Ramón. Pensa em seu pai. — Agarrou-lhe a mão e a apoiou em sua bochecha. —Sou sua esposa. Estarei aqui para compartilhar tudo contigo. E muito em breve, dar-te-ei filhos. Mas esta terra te pertence como deveria ter sido sempre.

As lágrimas nublavam a vista e começaram a correr pelas bochechas.

—Amo-te, coração. Amo-te como jamais amei.

Ramón a abraçou com força. Contraíam-lhe os músculos da garganta e sentia seu coração a ponto de estalar de amor por ela. Carly se arqueou contra seu corpo quando sentiu que sua mão deslizava pelo decote de seu vestido e rodeava um dos seios.

Bastaram-lhe uns minutos para despir a e tirar ele mesmo a roupa e levá-la à cama. Desejava tomá-la com delicadeza e se amaldiçoou quando se encontrou penetrando-a apaixonadamente. Mas isso parecia ser exatamente o que ela desejava. Rogava por mais carícias atrevidas, por mais calor e paixão. Exigia que a inundasse em sua própria fome, que lhe saciasse o seu desejo.

Quando diminuiu a fúria deste encontro amoroso, jazeram em silêncio com as pernas e os braços entrelaçados, escutando as risadas e a música que continuava além da janela. Depois ele voltou a tomá-la, agora delicadamente, excitando-a com lentidão e depois a enchendo uma e outra vez até que chegou ao clímax e gritou seu nome em voz baixa. Manteve-a abraçada até que o calor se apagou em suas bochechas.

—Amo-te — disse ela, respirando lentamente.

Ramón lhe acariciou o cabelo, beijou-lhe a sedosa cabeleira nas têmporas.

—Como eu amo a ti, minha vida. Nunca acreditei que podia chegar a ser um homem tão afortunado.

E lhe sorriu, assombrado e agradecido pelo presente incrível que lhe tinha feito.

Tinha encontrado uma mulher forte e formosa para amar ao longo dos anos. A mulher de sua vida. Tinha conseguido recuperar suas terras e o Rancho dos Carvalhos pertenceria a seus filhos e aos filhos de seus filhos.

Por fim, tinha encontrado a paz graças à mulher que tinha entre seus braços.

Ramón tinha voltado para casa.


FIM

NOTA DA AUTORA

A década de 1850 se conheceu na Califórnia como a época do desesperado. Joaquin Murieta e dúzias de homens como ele, muitos deles californianos deslocados a quem os anglo-saxões tinham maltratado ou despojado de suas terras, invadiram e saquearam durante anos antes que lhes detivessem.

Harry Love é o homem a quem atribuem à morte de Murieta. Tomei a liberdade de trocá-lo com Ramón De La Guerra. Também me concedi alguma licença com a cidade de San Juan Batista: alguns dos edifícios que menciono não se construíram até anos mais tarde. Entretanto, o lugar era e ainda é o epítome dos primeiros povoados espanhóis.

As palavras índias que utilizo provêm do yocut, embora na velha Califórnia cada tribo pequena tivesse sua própria linguagem. Naqueles anos cinquenta era um lugar excitante em uma época de tremendas oportunidades. Espero que tenham desfrutado com a história de Ramón e Carly e que algum dia eu tenha a possibilidade de escrever outra novela situada neste período fascinante.

GRH


Romances Históricos

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1 O clipper é um tipo de veleiro mercante de grande porte muito veloz. O termo vem do verbo inglês to clip (avançar rapidamente) esse navio mercante de grande porte foi utilizado pela primeira vez nos Estados Unidos da América ao final da Guerra de 1812.

2 É um navio, geralmente de dois mastros, composto por duas velas quadradas, ou seja, velas dispostas em mastros velas penduradas da cruz ao eixo longitudinal do navio (que vai de proa a popa).

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