O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 02

Ramón De La Guerra montou o Rei do Sol, seu alazão andaluz, através do pasto seco, em direção ao grupo de gente que esperava o começo da corrida. Todo mundo tinha vindo. Os poderosos amigos de William Bannister, de São Francisco, chegaram acompanhados de um pequeno grupo de mulheres, vizinhos anglo-saxões de Austin e rancheiros californianos das fazendas próximas.

Ao redor da meta, havia pelo menos quarenta peões. Ali estavam os Montoya e também a mãe de Ramón junto com sua tia Teresa.

Austin tinha se esforçado ao máximo. Preparou uma pista de três quilômetros, construiu bancos de madeira para que seus convidados pudessem se sentar, decorou a linha de partida com bandeirinhas azuis e vermelhas e a meta com um grande arco. A multidão estava ansiosa, alvoroçada; as apostas aumentavam em todos os momentos.

Uns trinta minutos antes que começasse a corrida, Ramón se deteve na meta para falar com alguns de seus homens e viu entre eles seu irmão Andreas. Embora fosse cinco ou seis centímetros mais baixo, Andreas, como Ramón, era magro, forte de musculatura e moreno. Era muito atraente. Andreas era inteligente e um consumado sedutor.

Só seus melhores amigos conheciam seu parentesco. Durante os anos que viveu no México, anos que passou brigando com seu pai, Andreas tinha mudado muito. Com a chegada da febre do ouro muitas velhas famílias espanholas perderam suas terras e optaram por partir. À exceção dos De La Guerra, ninguém soube da volta de Andreas. Seu pai morreu então e Andreas foi para as colinas, jurando que um dia faria justiça e se vingaria. A maioria das pessoas o conhecia como o vaqueiro Pérez.

—Dom Ramón! —chamou-lhe seu irmão, dirigindo-se a ele como se fossem um par de conhecidos. —Um momento! Posso falar um instante com você?

Ramón assentiu com um gesto. Esperava que seu irmão estivesse ali. Andreas De La Guerra tinha vinte e seis anos, era impetuoso, alegre e inclusive um tanto irresponsável. Não perderia a oportunidade de ver como Ramón derrotava o cavaleiro anglo-saxão. Andreas não gostava dos norte-americanos, ainda menos que Ramón. Desfrutava com a ideia de vê-los derrotados e não duvidava que seu irmão ganharia.

Ramón sorriu interiormente, embora não estava tão seguro que ganharia. O sentido de honra lhe tinha obrigado a aceitar a aposta, e a de Bannister parecia honrada.

—Boa tarde irmãozinho. Não me surpreende te ver, embora na realidade possivelmente não devesse ter vindo.

Andreas sorriu e lhe aplaudiu afetuosamente os ombros.

—Não queria perder esta corrida. Além disso, estava cansado de me esconder.

—Cansa-te porque não tem uma nova mulher que lhe esquente a cama. Soube que trouxeram algumas a San Juan Batista. Possivelmente deveria passar por ali e ver se encontra uma que você goste.

Andreas deixou vagar seu olhar sobre o grupo de anglo-saxões, que tinham se reunido na linha de partida.

—Parece-me que não preciso ir tão longe.

Ramón seguiu o olhar de seu irmão até a sobrinha de Fletcher Austin. Estava radiante com um vestido de tafetá cor menta e uma sombrinha do mesmo tom. Sua estupenda cabeleira estava penteada com cachos que caíam sobre seus ombros.

—Acredito que estou me apaixonando.

—Não seja insensato, irmãzinho — disse Ramón, franzindo o cenho. —Essa, só te trará problemas.

—Conhece-a?

—Sim. A conheci no fandango de Austin. É oca e pretensiosa, não merece que preste atenção nela.

—É possível que não.

Andreas voltou a olhá-la um momento. O som da risada suave de Carly lhes chegou, levada pelo vento. O ar elevou a barra de sua saia, e os irmãos De La Guerra puderam ver um brilho de uns pés pequenos e de umas meias que cobriam uns magros tornozelos. Ramón advertiu que lhe endurecia algo mais abaixo do ventre.

—Embora... —disse Andreas— possivelmente a senhorita valha os problemas que possa provocar.

Sorriu dessa maneira brincalhona que lhe era tão própria; mas desta vez Ramón não o acompanhou no sorriso.

—Um destes dias, irmão, vai morrer por culpa de uma mulher assim.

—Ah, mas se um homem deve morrer, há melhor morte que essa?

Ramón esboçou um sorriso. O garanhão se movia nervosamente, seguro pela corda. Sacudiu a formosa cabeça e desdobrou ondeando as pálidas crinas.

—Rei está ansioso por conhecer seu competidor. Devo partir.

—Uma última coisa.

Andreas o olhou, inquieto. Ramón soube imediatamente que isto era o que Andreas tinha vindo a lhe dizer.

—Adiante.

—Acabo de saber que dentro de três dias Fletcher Austin trará uns cavalos.

—Sim, já sabia. Seus homens os estiveram reunindo estas últimas semanas.

—E por que não havia me dito isso? Necessitamos tempo para juntar os homens, fazer os planos e nos organizamos. Necessitaremos...

—Não comente isso porque atacar o rancho dos Carvalhos é muito perigoso. Não roubaremos esses cavalos.

—Não diga tolices. Estamos escassos de animais. Necessitamos deles urgentemente.

Ramón fez uma careta.

—Mas com todo o ouro que roubou a semana passada...

—Sabe que não fui eu — disse e se incomodou ao ver o sorriso de seu irmão — Não estava brincando.

—Não, suponho que não — acessou Ramón, tão molesto como seu irmão pelos atos que lhes atribuíam e que não eram obras deles. Olhou um momento para o grupo de peões que apostavam e voltou a fixar a vista em seu irmão, dizendo — Austin estará alerta. Contratou mais homens. Os cavalos estarão muito protegidos durante a viagem até o rancho.

Andreas sorriu e se formaram profundos sulcos em seu rosto.

—Por isso, esperaremos que cheguem à fazenda antes de atuar.

—Necessita tanto de uma mulher que lhe nublou a cabeça — grunhiu Ramón.

—Pensa Ramón. Uma vez que os cavalos cheguem ao rancho, os homens que Austin acaba de contratar partirão. Não pensará que pegaríamos os cavalos tão perto da mansão. Entraremos ao anoitecer, roubaremos os cavalos e partiremos antes que se dêem conta do que está ocorrendo.

Ramón refletiu sobre as palavras de seu irmão, acariciando distraidamente o pescoço esbelto de Rei. Não era tão má ideia, mas seria extremamente arriscado. Por outra parte, como Andreas tinha insinuado, havia bocas que alimentar e não teriam outra oportunidade como esta possivelmente em muito tempo.

—Já falei com os outros — continuou Andreas. —Os homens estão de acordo. Iremos pelos cavalos, Ramón.

Ramón cravou os olhos em Andreas e proferiu um juramento baixo. Ele era o chefe da família De La Guerra, suas palavras eram lei, mas nisto não podia dar ordens a seu irmão.

—Se estiver tão decidido a fazer então eu mesmo estarei na liderança.

—Não. Seu rancho está muito perto do de Austin. É melhor que permaneça em casa.

Ramón sacudiu a cabeça.

—Você dirigiu a última operação. Corresponde à liderança se formos roubar os cavalos.

Começou a caminhar com o garanhão para a linha de saída, mas Andreas o puxou pelo braço.

—Tenho um interesse pessoal nisto, Ramón. Permaneci na retaguarda cada vez que atacamos os Carvalhos. Esperei muito por minha vingança. Agora estarei na primeira linha mande quem mande!

—Muito bem — disse finalmente, embora não pensava deixar que Andreas enfrentasse sozinho esta operação. Ramón, já tinha falhado uma vez a sua família. E devido a isso seu pai tinha morrido e tinham roubado suas terras. Amava seu irmão menor e faria o que fosse para protegê-lo. Não voltaria a falhar outra vez a sua família. —Então cavalgaremos juntos desta vez.

Andreas sorriu e a tensão desapareceu de seu esbelto corpo.

—Quando daremos o golpe?

—Dentro de cinco dias, antes do amanhecer — disse Ramón, afastando-se. —Nos reuniremos perto do arroio.

Andreas assentiu e Ramón levou a garanhão para o ponto de partida da corrida. Rei agitava seu poderoso pescoço e soprava à medida que se aproximavam da ruidosa multidão. Nesse momento um cão diminuto, branco e marrom, não maior que um esquilo bem alimentado, ladrou duas vezes e se situou ao lado de Ramón. Este conteve a risada, abaixou recolheu ao animal, que cabia na palma de sua mão.

—Assim sente falta do seu amigo — disse.

Deteve-se um instante, acomodou ao pequenino na cadeira e imediatamente depois o garanhão se mostrou contente e se tranquilizou em seguida. Rei e Baixinho tinham nascido quase no mesmo dia. Tinham sido criados juntos no mesmo local do estábulo e os unia uma curiosa amizade.

Ramón sorriu ao pensar no estranho casal e seguiu avançando para o lugar onde Raja, o magnífico puro sangue empinava impaciente, perto da linha de saída.

Carly tentava prestar atenção ao que dizia Vincent Bannister, mas sua vista se desviava continuamente para o espanhol e seu soberbo alazão. Nunca tinha visto um animal tão formoso: peito amplo, pescoço poderoso, crinas longas e pálidas e uma cauda ainda mais longa. Nem tampouco teve que admiti-lo, um homem tão atraente.

Hoje não levava nada prateado, só uma camisa de linho branca de manga longa e umas calças de montar marrom rodeados a suas fortes coxas. Observou que suas calças mal cobriam as botas de couro marrons. Um chapéu negro de asa larga se pendurava em suas costas, estava preso por um colar que rodeava seu largo pescoço.

Sorriu ao pensar neste poderoso homem, com seu formoso cavalo e em seu diminuto cão marrom e branco que agora montava tranquilamente no garanhão. Contemplou o curioso trio enquanto se detinha um momento para conversar com uma mulher pequena e enrugada. Carly supôs que devia ser sua mãe. Também havia outra mulher, era magra, alta e um pouco mais jovem, estava ao lado do cavaleiro, e em frente estava Pilar Montoya sorrindo ao espanhol, com evidente calidez.

Carly tinha conhecido Pilar na noite do fandango. Seu tio Fletcher havia dito que era viúva e que tinha terminado sua época de luto. Pilar andava a caça de marido e Ramón De La Guerra parecia o principal candidato.

Carly franziu o cenho ante essa ideia e se assustou ao suspeitar o motivo de sua inquietação.

Sentiu-se atraída pelo espanhol apenas ao tê-lo visto. Não se parecia com ninguém que tinha conhecido antes, era mais alto, mais sedutor e muito mais excitante. Bastava somente um olhar desses olhos negros para que ela se derretesse. Mas sabia que essa atração não a levaria a nenhum lugar. Fez uma promessa a seu tio e pensava cumprir sua palavra.

Além disso, pelo que tinha podido observar o cavalheiro não parecia sentir o mesmo interesse por ela.

—Estão preparando-se para começar a corrida — disse Vincent. —Melhor irmos sentar.

—Sim, e ali está o tio Fletcher.

Reuniram-se com ele e se sentaram nos assentos principais da primeira fila no alto do estrado de madeira, de onde poderiam ver toda a pista. William Bannister e outros dos amigos de seu tio se instalaram rapidamente em outros lugares e outras pessoas se situaram junto à linha de saída.

Menos da décima parte dos assistentes eram mulheres. A penosa perspectiva de passar pelo Cabo de Hornos, o passo posterior pelo istmo, ou uma comprida e perigosa viagem por terra firme, fazia que a maioria dos homens da Califórnia decidisse viajar sozinhos ao oeste. Havia mulheres da zona, é obvio, e a habitual multidão dos acampamentos que tinha chegado em busca de algum ganho nas minas de ouro. Mas as mulheres do Este escasseavam. Carly tinha conhecido muito poucas e a nenhuma que pudesse chamar amiga.

—O que te parece o cavalo de meu pai? —perguntou Vincent, enquanto Raja se aproximava da linha de saída.

Era um cavalo pintalgado, cinza, esbelto, de patas largas e magras, de boa constituição e mais formoso que nenhum outro que já viu.

—Parece bastante veloz, mas a pista é muito longa e, além disso, está um pouco irregular. Tio Fletcher, se preocupa que não tenha suficiente força.

Vincent deu um pulo, como se o tivessem esbofeteado.

—Rahja pode derrotar qualquer cavalo da Califórnia. Meu pai pagou uma fortuna por ele, e Stan McCloskey é o melhor cavaleiro da costa oeste. —A maioria dos homens vestia roupa de trabalho e os peões usavam camisas de pescoço aberto e calças de couro mal cortado, Vincent, sentado a seu lado, vestia uma jaqueta azul marinho e uma grande gravata branca atada com muito esmero. —Rahja ganhará — disse. —Pode apostar por ele.

—Pode ser que não resulte tão fácil — se sentiu obrigada a responder Carly. —Me disseram que os californianos são os melhores cavaleiros do mundo.

A expressão de Vincent se tornou azeda. Arqueou uma sobrancelha.

—E eu digo que já veremos.

Os cavaleiros montaram seus cavalos. Ambos os animais se viam extremamente nervosos, moviam-se de lado, corcoveavam e agitavam sua magnífica cabeça. Os homens foram dominando pouco a pouco. Era como tratar de controlar o vento. Carly observou que o espanhol usava desta vez uma sela diferente, menor e leve, sem nenhum adorno de prata.

Era muito mais alto que Stan McCloskey, o que era sem dúvida uma desvantagem. Carly era incapaz de tirar os olhos de cima dele, admirava sua maneira de montar o cavalo. De repente os olhos negros do espanhol se cravaram nos seu e dom Ramón lhe dedicou um magnífico sorriso, levando a mão à borda de seu chapéu negro para saudá-la. Carly se ruborizou.

A corrida estava a ponto de começar, e o cavaleiro entregou a um de seus homens seu colar e seu chapéu.

Embora Carly se sentisse um pouco culpada, por ter semelhantes sentimentos, rezou silenciosamente para que ganhasse a corrida.

Quase caiu de seu assento quando soou o disparo que dava a partida à corrida.

—Começou! —gritou seu tio.

O cavalo cinza, em seguida conseguiu adiantar o alazão do espanhol. Poucos metros os separavam, correram assim toda a primeira volta. Carly, inclusive do seu assento, podia escutar o ressonar dos cascos dos cavalos e teria jurado que seu coração pulsava com a mesma intensidade. Os cavalos rodearam um grande carvalho que indicava o final da primeira volta e começaram a segunda. A pista subia por uma colina, seguindo um largo espaço de pasto seco, que tinham limpado para a ocasião.

Ao chegar ao riacho o cruzaram de um salto, salpicando a água ao aterrissar do outro lado, o cavalo cinza ia em primeiro lugar, mas Rei do Sol o seguia muito perto, a distância de separação dos dois cavalos tinha diminuído ainda mais.

O chão estava ainda úmido pela chuva que tinha caído dois dias antes, os cavalos afundavam seus cascos na terra. Cada passo era um esforço para seus músculos. O alazão, de constituição mais forte, não parecia afetado por isso, mas McCloskey se inclinava sobre o cavalo cinza para animá-lo, a cada movimento do puro sangue o cavaleiro se elevava. Dom Ramón, em troca parecia mais coordenado com seu animal e se movia com a mesma fluidez e graça do cavalo.

—São tão formosos — disse Carly, pensando que nunca tinha visto outro homem montar com tanta perfeição.

—Já chegam à parte plana de trás — disse Vincent. —O cinza é mais rápido... Ganhará.

Mas Carly não estava tão segura. O cinza parecia estar cansado, enquanto o andaluz parecia não haver dado tudo de si. Atravessaram voando a parte plana da cúpula da colina e começaram a descer o leve pendente do outro lado: o cinza mantinha uma vantagem de meio corpo.

Já tinham superado as três quartas partes da terceira volta da corrida e Vincent começava a franzir o cenho. Segundo sua teoria, Raja teria que ter estado claramente na frente.

— Apostei mil dólares em seu cavalo, William — disse seu tio. —Oxalá não nos defraude!

Bannister era um homem alto, cujo cabelo loiro começava a branquear. Vestia impecavelmente e se movia com uma espécie de elegante precisão. "Distinto" era a palavra adequada para descrever William Bannister.

—Eu apostei muito mais — disse. —Não se preocupe, McCloskey terminará ganhando.

Os cavalos se aproximavam de uma grande rocha de granito, sinal da última volta. A multidão emitiu ao uníssono um grito afogado e Carly ficou de pé de um salto. O alazão tinha tropeçado e quase caído. Mas se recuperou e continuou galopando. Carly pôde sentir a orgulhosa resolução do animal... Ou possivelmente era a do cavaleiro.

Fosse o que fosse o cavalo e seu cavaleiro pareciam mais decididos que nunca a ganhar.

—Meu Deus — disse Fletcher Austin. —O garanhão De La Guerra é incrível.

—Sim — disse Bannister e nesse momento, Carly intuiu que até William Bannister desejava que o formoso animal triunfasse. —Nunca vi nada tão magnífico.

—O cinza acabará vencendo — disse Vincent, obstinado.

Mas o alazão diminuía rapidamente a vantagem. Suas patas se estendiam tão longe que às vezes pareciam tocar com o focinho.

A meta estava perto. Todo mundo ficou de pé e começou a gritar e a aplaudir, inclusive Fletcher e Carly.

—Pode fazê-lo — sussurrava ela. —Pode fazê-lo, sei que pode!

E assim foi. O magnífico alazão e seu elegante cavaleiro cruzaram a meta apenas umas polegadas por diante do cavalo cinza. Carly gritava de alegria, ria, de repente seus olhos se encheram de lágrimas. Vincent Bannister a olhou horrorizado, e Carly se ruborizou envergonhada.

Temia olhar seu tio e mais ainda ao pai de Vincent, William Bannister. Quando finalmente o fez, Fletcher franzia o cenho, mas William sorria.

—Incrível — foi tudo o que disse.

—Me custou mil dólares — disse seu tio, suspirando profundamente. —Mas esteve a ponto de ganhar.

—Vamos à meta — propôs Carly, esperando que os homens a apoiassem. E o fizeram. Quando chegaram ali, dom Ramón já estava rodeado por dúzias de alegres peões, por sua mãe e sua tia que sorriam, pelos Montoya, Estrada, Herrera e várias outras famílias da Califórnia.

Viu-lhes chegar e o sorriso se apagou de seu rosto.

—Felicitações, dom Ramón — disse Bannister. —Uma vez mais demonstrou que monta o melhor cavalo da Califórnia.

—Muito amável de sua parte, senhor Bannister. Não o esperava... Vindo de um homem que tratou de ganhar enganando.

Bannister trocou imediatamente a expressão de sua cara e Austin estava muito tenso.

—Do que fala? —perguntou Bannister.

—Falo disto — disse dom Ramón tirando um objeto da manga curta e três pontas afiadas a um extremo. As pontas tinham ligeiros rastros de sangue. —Seu homem, o senhor McCloskey, utilizou isto contra meu cavalo na última volta. Desgraçadamente para ele, eu pude pegá-lo de sua mão.

O grupo abriu passo a Bannister, que se encaminhava para Rei do Sol. Pôde ver as leves espetadas sob as costelas do animal, cobertas por um pouco de sangue e cabelo entre loiro e avermelhado. Virou-se, tenso e com o rosto vermelho, para Ramón De La Guerra.

—Dou minha palavra de cavalheiro: não sei nada de tudo isto. Um dia, espero ser o dono de Rei do Sol. Nunca quereria ver ferido desta maneira um animal tão formoso. — O espanhol se calou. —Sinto profundamente, dom Ramón — continuou William. —Prometo que me encarregarei pessoalmente deste assunto com McCloskey. Espero que aceite minhas mais humildes desculpas.

O espanhol o contemplou longo momento. Foram uns momentos muito tensos.

—A ferida é menor. Alegra-me saber que você não participou do acontecido. Aceito suas desculpas... E seus dois mil dólares.

Um rugido surgiu da multidão. O espanhol voltava a sorrir com esse incrível e cegador sorriso que revolvia o mais profundo de Carly. Especialmente quando o espanhol a olhava do modo que agora fazia.

—Felicitações, dom Ramón — disse em voz baixa. —A corrida foi magnífica.

De La Guerra arqueou uma sobrancelha marrom, observava-a com renovado interesse, verificando que a agradava que tivesse ganhado.

—Muito obrigado, senhorita. Os cavalos a interessam?

—Li bastante sobre eles durante a viagem de navio do Este. Estou aprendendo a montar, mas sim... Eu gosto muito.

Pareceu surpreender-se com as palavras da mulher. Ela pensou nesse momento que as jovens de boa sociedade aprendiam a montar desde meninas. Ruborizou-se e esperou que seu pequeno engano não tivesse sido advertido por mais pessoas e menos até pelos amigos de seu tio.

—Parece que à maioria de nós se interessam por cavalos —interveio então William Bannister, entregando ao ganhador seu prêmio, uma bolsa de couro cheia de moedas de ouro. —Ainda desejo comprar esse semental. E estou disposto a pagar o dobro de qualquer preço razoável que me indique.

De La Guerra se limitou a sacudir a cabeça.

—Rei é um dos últimos cavalos andaluzes de meu pai. Quero conservá-lo para a reprodução.

Carly tinha lido a respeito desses cavalos que chegaram ao novo mundo junto com Cortês.

—Podemos chegar a algum acordo para um serviço de reprodução. Eu adoraria...

—Sinto muito, senhor Bannister, mas Rei do Sol não está à venda. —Bannister suspirou, o espanhol ficou olhando Carly. —Possivelmente quando a senhorita McConnell tenha aprendido o suficiente, o senhor Austin se interesse por algum dos potros de Rei. Uma formosa égua alazã seria um arreio perfeito para uma dama como ela.

Fletcher arranhou o queixo.

—Possivelmente tenha razão dom Ramón. Um dos potros deste semental seria muito adequado para o Rancho dos Carvalhos.

Para selar sua promessa, dom Ramón se inclinou e recolheu uma rosa vermelha de cabo longo, uma da mais de meia dúzia que as mulheres da Califórnia tinham jogado quando cruzou a meta.

—Para você, senhorita. Em memória deste dia... Embora a beleza desta flor empalideça ante uma mulher tão formosa.

Carly aceitou a rosa e um quente resplendor coloriu suas bochechas. Começou a sorrir para agradecer seu gesto galante, quando viu a careta de seu tio. Por Deus, outra vez o estava fazendo, estava permitindo que o bom moço espanhol a seduzisse. Tio Fletcher estaria furioso quando retornassem para casa.

O cálido sorriso não chegou a materializar-se; sorriu amavelmente, sem mais.

—Obrigada senhor De La Guerra — disse formalmente, recorrendo a um tom mais distante. Cheirou a rosa. — Você é muito amável. Estou segura que recordarei deste dia.

A expressão de seu tio relaxou. Agarrou a mão de Carly e a apoiou na ampla manga de seu fraque cor Borgonha.

—É hora de partir, querida.

—É obvio tio.

Deu as costas a De La Guerra. Não queria voltar a encontrar-se com seus olhos. Começaram a caminhar para os outros homens.

—Muito bem feito, querida. Elegante, digno de uma dama, mas pondo o homem em seu lugar. Estou orgulhoso de ti.

Carly de repente se sentiu mal. Assim é como tinha feito? Tinha posto dom Ramón em seu lugar? Não era o que tinha querido fazer. Olhou para o cavaleiro e pôde ver seu olhar escuro e profundo e o radiante sorriso que dirigia a Pilar Montoya.

Afogou um grito quando cravou o dedo num espinho da rosa vermelha.

Andreas De La Guerra retornava com o grupo de peões para os cavalos. Tinham vindo de uma dúzia de fazendas distintas para ver a corrida de Ramón contra o gringo. De La Guerra não os tinha decepcionado. Cada homem saboreava essa vitória como algo pessoal como a honra de um californiano.

Andreas apertava os punhos, recordando a incrível corrida e a sórdida traição do anglo-saxão. A intrépida corrida de seu irmão tinha salvado o dia, mas isso não diminuía sua ira pelo que poderia ter acontecido.

Mas que outra coisa podia esperar?

Tinha combatido os gringos desde sua volta a Califórnia, desde que encontrou seu pai em seu leito de morte, na pequena fazenda Rancho ‘As Almas’. O núcleo inicial do Rancho dos Carvalhos, abandonado quando construíram a casa maior.

Tinha lutado durante seis longos meses antes que seu irmão voltasse da Espanha, tentando recuperar o que lhes tinha pertencido.

No princípio, Ramón o apoiou com certo escrúpulo, já que pensava que a violência não era o melhor modo para arrumar as coisas. Mas com o tempo, o sentimento de culpa que albergava em seu interior superou sua resistência. Culpava-se pela morte de seu pai nas mãos dos anglo-saxões, pela pobreza de sua mãe enquanto ele vivia muito bem na Espanha.

Andreas sabia que seu irmão não se perdoava por não ter retornado antes, por não ter estado ao lado de sua família em tempos difíceis.

Não tinha sido somente culpa dele. Diego De La Guerra, seu pai, estava convencido de que poderia, ele sozinho, arrumar os problemas que tinham. Pensava que poderia provar que a terra era dele e se fosse preciso lutaria contra os anglo-saxões para conservá-la. Depois de sua morte Andreas acreditou o mesmo. Sentia-se forte: já não era um homem à sombra de seu irmão mais velho. Estava decidido a vingar-se, a fazer justiça seguindo ou não, a lei dos anglo-saxões.

Tinha começado a luta utilizando o apelido de Dragão, e seguia fazendo-o até agora.

—É hora de retornar às colinas, amigo — disse Pedro Sánchez, que cavalgava a seu lado. Pedro era um dos segundos de seu pai, e o segundo ao mando no antigo Rancho dos Carvalhos. Tinha pouco mais de sessenta anos, tinha todas as virtudes e as destrezas de um vaqueiro, vigoroso e duro, era tão resistente como a sola de suas botas.

—Pode continuar — sorriu Andreas. —Eu tenho um assunto pendente em San Juan Batista.

—O mesmo tipo de assunto que seu irmão deseja com a formosa jovem gringa? —perguntou Pedro, que tinha visto Ramón dar de presente à rosa.

—Disse-me que ela era somente um problema. Não acredito que para mim o seja tanto como para ele.

—Ao senhor Austin não gostará deste seu interesse. E a seu irmão não convém enfrentar abertamente com este tipo de homens.

—Ramón sabe muito bem. Não acredito que pretenda fazê-lo. Jurou que nunca um andaluz dos De La Guerra, voltaria a pisar na terra dos Carvalhos até que não recuperássemos o que nos pertence — disse encolhendo os ombros e continuou — Ah, mas creia ou não creia, meu irmão é só um ser humano... E a mulher é deliciosa, não crê?

—É um problema, como disse Ramón.

—Possivelmente tenha que salvá-lo. Possivelmente se me acompanhar a San Juan...

—A viúva Pilar pode salvá-lo muito bem. E sempre há Miranda. Sofre por ele a cada minuto que está longe do refúgio.

—Sim, suponho que tem razão.

Andreas deu uma última olhada ao grupo de pessoas que formavam redemoinho como insetos ao pé da colina. Pareceu-lhe que avistava uma mulher de cabelo castanho brilhante sob uma sombrinha de listras rosa e branco. Sorriu.

—Pelo resto, o que é a vida se não houver um ou outro probleminha?

Pedro riu e os dois homens açularam seus cavalos em direção às colinas. Chegaram a uma encruzilhada e Andreas girou para o sul e Pedro continuou mais acima. Andreas não cessava de pensar na norte-americana de formosos olhos verdes e pele pálida, em seus seios altos e cheios, que possivelmente o receberia com gosto em sua cama em troca de umas moedas ou das adulações adequadas.

Perguntou-se se seu irmão terminaria com Pilar ou teria a paciência suficiente para esperar à formosa garota anglo-saxã.



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