O cavaleiro da Meia-Noite Tradução/Pesquisa: grh




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CAPITULO 16

Carly queria ficar no hotel, era verdadeiramente sua intenção, mas o dia era muito agradável e nunca tinha estado em Monterrey.

Decidiu dar um breve passeio pelos arredores e dar uma olhada à sonolenta e pequena cidade que Ramón tinha prometido mostrar. Caminhou pela rua principal olhando as diminutas cristaleiras das lojas. Dali, baixou à baía e se deteve para contemplar um bergantín2 de dois mastros cujas velas se inchavam para os lados enquanto entravam na baía.

—Parece que este navio reboca algo — disse Carly, a um ancião e enrugado pescador que estava sentado nas rochas na margem da baía e levava uma vara de pescar na mão. —O que estão fazendo?

—É um baleeiro de Boston, moça. Está arrastando sua carga... Uma baleia cinza de vinte e cinco metros diria eu. Dará pelo menos cem barris de azeite.

—Trazem baleias a Monterrey?

—Isso é o que fazem. Depois de pegar tudo o que podem vender, jogam os restos da baleia na baía. A praia do sudeste está toda branca com centenas de ossos de baleia queimados pelo sol.

—Já vejo.

Observou um momento o navio e depois, seus olhos repararam em outro setor do mar. A não muita distância da costa, um animal marrom, coberto de pêlos, deixava-se levar pela corrente.

—Uma foca, moça. São uns formosos diabinhos.

—O que está fazendo?

—Abrindo sua comida. Comem ostras. Ocupam uma concha vazia para abri-las enquanto flutuam de costas ao sol. Dão-se a boa vida, sem dúvida. —Mas então, ruborizou-se um pouco sob a barba que cobria suas bochechas. —Perdão, moça, mas faz muito que quase não falo com uma dama, pelo menos desde que cheguei de Aberdeen.

—Está muito bem, senhor...

—MacDugal. Quase todo mundo me chama MAC.

—Um prazer o conhecer, MAC — disse Carly, sorrindo. —Sou Carly De La Guerra.

—Um gosto, senhora... De La Guerra há dito?

—Sim. Por quê? Conhece meu marido?

—Chama-se Angel? Um jovem muito bonito, um pouco fraco e com o cabelo negro e encaracolado?

—Meu marido se chama Ramón.

—Será outro — disse e sacudiu a cabeça, agitando sua larga barba cinza. —E me alegra sabê-lo. Aquele passou toda a noite bebendo com putas na cantina da Conchita. Não é a classe de homem que uma moça como você queria ter como marido.

Definitivamente não. Entretanto Carly se perguntou se Angel e Ramón seriam parentes. Havia dito que seus primos estavam na cidade, embora só tivesse nomeado Maria e sua filha.

—Está ficando um pouco tarde — disse Carly. —Acredito que tenho que ir. Eu gostei muito falar com você, MAC.

—A mim também, moça. E agora, cuide-se.

Carly assentiu e começou a caminhar para o hotel pensando ainda em Angel De La Guerra, mas sobre tudo em Ramón e na solitária que seria essa noite sem ele.

Apoiado sob um portal, com o joelho dobrado na parede, Angel De La Guerra observava afastar-se à formosa norte-americana. Tinha-a seguido toda à tarde, tinha espiado o hotel desde que viu seu primo sair cavalgando do estábulo. Angel sentia curiosidade, desde que o tinha escutado falar com sua irmã a respeito, de conhecer a mulher de seu primo.

Aspirou profundamente seu cigarro feito a mão e deixou que a fumaça saísse lentamente por seu magro e reto nariz.

Assim que essa era a cândida mulher de Ramón.

Não estava mau... Por ser uma gringa. Seu primo sempre tinha tido bom gosto.

E tinha desfrutado das mulheres com toda liberdade durante os últimos cinco anos enquanto Angel apodrecia em um cárcere no Arizona. Sempre tinham competido. Recordou quantas vezes tinha desejado uma mulher, para descobrir logo que essa mulher preferia a seu primo. Inclusive desde que eram meninos. E até nesses primeiros anos Ramón sempre o tinha superado em tudo.

Angel sorriu amargamente. Por quê? O pai de Ramón, Diego De La Guerra era mais rico, mais poderoso que seu pai. Ramón era mais educado, mais alto e muito melhor cavaleiro. As mulheres se sentiam atraídas por seu aspecto e suas maneiras sedutoras e se burlavam das torpes tentativas de Angel para atraí-las. Ao lado de Ramón De La Guerra, Angel sempre tinha sido o segundo.

Inclusive Yolanda, seu amor de juventude, preferia em segredo Ramón. Uma vez o havia dito: não podia casar-se com ele porque estava apaixonada por outro homem. E que Ramón não a quisesse não trocava o fato que queria a ele.

Angel deu uma última imersão ao cigarro e o atirou ao chão. Pensou na mulher de cabelo acobreado e percebeu o endurecimento dentro de suas calças de pele de cervo. Já não era o mesmo menino imberbe que Ramón tinha visto a última vez. Os últimos cinco anos se encarregaram de lhe trocar.

Desejava à mulher. Era outra vez um homem livre e pretendia tomar quanto desejasse. Já era tempo de equilibrar as coisas.
Carly pediu emprestado das prateleiras do hotel um livro encadernado, Pilgrim's Progress, e voltou a subir a sua estadia. Pensava jantar ali, mas depois de dez largos minutos, cedeu à tentação e baixou ao salão. Não era muito grande, havia uma grande mesa larga no centro, com bancos a ambos os lados e ao redor, umas quantas mesas pequenas, cada uma com duas cadeiras de pernas magras. Sentou-se na mais distante e apareceu uma mexicana de busto proeminente e grande sorriso.

—Senhora De La Guerra. Seu marido nos disse que poderia jantar conosco. Disse que a cuidássemos enquanto ele estivesse fora.

—Sei que se pode comer na estadia — disse Carly, sorrindo — mas me pareceu mais agradável fazê-lo aqui.

—É obvio senhora. Por que, uma mulher tão formosa, deveria ficar só em uma estadia vazia? — Carly sorriu ainda mais ante o elogio. —Tem fome?

A mulher de busto proeminente limpou as mãos no avental que levava seguro a seus robustos quadris.

—Estou morta de fome. A caminhada da tarde me abriu o apetite.

—Solucionaremos isto, já verá. Gosta de uma empanada? A massa é dourada e está muito bem assada. Prometo que está deliciosa.

—Obrigada, parece uma magnífica ideia.

A mulher partiu em busca da comida e enquanto isso Carly examinou outros comensais. Quatro eram espanhóis, um homem, sua mulher e seus dois filhos. Havia dois homens vestidos como mineiros, com calças de lona e camisas de flanela. Vários outros vestiam fraque; eram homens de negócios ou funcionários de governo. Havia uma mesa pequena perto da porta com um homem magro de olhar duro, cabelo negro ondulado e olhos escuros. Dava as costas à parede, mas Carly notou que a estava observando.

O homem sorriu quando ela o olhou aos olhos. Ficou de pé lentamente e começou a caminhar para ela, com passos largos e seguros. Parecia-se bastante a Ramón e Carly demorou pouco em saber quem era exatamente.

—Senhora?

—Sim?


—Sou Angel, o primo de seu marido. Importa-lhe que a acompanhe?

—Não... É obvio que não. Tinha ouvido que parte da família de Ramón estava na cidade. É um prazer lhe conhecer.

Acomodou uma cadeira e se sentou. Era mais baixo que Ramón, um pouco mais magro, mas de ombros largos e fortes músculos, evidentemente estava bem constituído. Como havia dito MAC, o homem era bonito, de um modo diferente e mais austero que Ramón, mas atraente.

—Meu primo a deixou sozinha? Não é muito próprio de Ramón deixar a uma mulher tão formosa para que se arrume sozinha... Especialmente se essa mulher é sua esposa.

—Aconteceu algo inesperado. Teve que partir. Disse-lhe que estaria bem enquanto estivesse fora.

Angel sorria. Seus dentes brilhavam muito brancos, mas seu sorriso carecia da calidez de Ramón.

—Sinto não o haver encontrado. Só cheguei à cidade esta tarde.

Não era o que MAC, o pescador tinha contado a Carly.

—Então sua irmã não sabe que está aqui?

—Ainda não. Antes tinha que solucionar outros assuntos.

Como beber e ir com putas na cantina da Conchita, pensou Carly, que quase desejava ter ficado para comer em seu quarto. Em Angel De La Guerra havia algo que não conseguia precisar completamente, mas que a desagradava. Obrigou-se a sorrir.

—Me... Acompanhará para jantar?

—Temo que já jantei. E tenho que atender um assunto de certa importância. — Levantou-se da cadeira, tomou uma mão e a levou aos lábios. A Carly pareceram frios e secos, nada agradáveis. —Foi um verdadeiro prazer lhe conhecer...

—Caralee — disse, mas curiosamente desejava não ter tido que dizer seu nome. Mas este homem era primo de seu marido. Não tinha opção.

—Foi um prazer, prima Caralee. Saúde Ramón de minha parte.

Carly se limitou a assentir com a cabeça. Olhou-o afastar-se, pavoneando-se mais que caminhando. Quando chegou a gorda mexicana com a comida, Carly descobriu que já não tinha fome.

Entretanto, comeu um pouco, rapidamente, obrigando-se a tragar e depois, voltou para seu quarto para ler. Várias vezes pensou em Angel De La Guerra e na desagradável sensação que tinha experimentado em sua presença. Finalmente, as páginas do livro começaram a fazer-se imprecisas e deixou o livro na mesinha de noite. Cansada, apagou o abajur e deslizou entre as savanas. Não custou muito conciliar o sono.

Sonhava com Ramón. Era um sonho muito prazeroso, cheio de amor, calidez e esperança. Perguntava-se se Ramón também estaria sonhando com ela.

Angel De La Guerra deslizou silenciosamente pelo corredor, movendo-se com o sigilo de um homem que sabe como ocultar-se. Tinha a confiança que lhe tinha faltado até esses anos no cárcere... Possivelmente até que tinha matado seu primeiro homem.

Abaixo, na recepção, o grande relógio fazia tic tac brandamente, rompendo apenas o silêncio. Já tinha passado da meia-noite. Nenhuma luz se filtrava por debaixo das portas fechadas das estadias. Os hóspedes do hotel estavam dormindo. Prestou atenção se por acaso escutava pisadas, mas não ouviu nada. Tirou um arame do cinturão de suas calças de pele de cervo e o inseriu na fechadura da porta. Moveu-o para um lado e logo para o outro, até escutar o som da fechadura que começava a girar.

Tirou o arame, abriu com muito cuidado a porta e entrou sem fazer ruído no quarto.

Deteve-se os pés da cama. Caralee De La Guerra estava dormindo com o comprido cabelo acobreado desdobrado sobre o travesseiro. Tinha uma camisola posta de seda branca delicadamente bordada, tão fina que podiam se ver as rosadas aréolas na ponta de seus seios redondos. O lençol e a manta descansavam mais abaixo de sua cintura. Notou a magra cintura mais acima dos delicados quadris.

Estava excitado pelo mero feito de saber o que pretendia fazer, estava neste estado desde antes de abrir a porta. Agora, já estava a ponto e seu coração pulsava com força. As palmas da mão começavam a suar e se imaginava penetrando esse corpo pequeno e amadurecido. Esta experiência seria ainda mais prazerosa porque a jovem pertencia a Ramón.

Carly dormia profundamente. Angel tirou a roupa em silêncio Depois afastou a manta e entrou na cama ao lado dela. Carly apenas se moveu. Girou para ele, apoiando uma mão em seu peito e sorrindo em sonhos.

Angel também sorriu. Baixou-lhe a camisola pelos ombros e despiu um seio branco e erguido, rodeou-o com a mão e começou a acariciar o mamilo. Justo quando começava a endurecer-se, ela abriu os olhos e se incorporou na cama. Angel, afogou-lhe o grito com sua boca, lhe esmagando os lábios. Tomou pelos pulsos e a obrigou a estender-se sobre o colchão. Somente seu sexto sentido que tinha desenvolvido no cárcere lhe permitiu advertir que a porta se havia aberto totalmente.

Voltou-se a tempo para ver a silhueta de seu primo na soleira e seu rosto, convertido em uma negra máscara de ódio. Angel se endureceu. Não permitiria que uma vez mais o superasse.

—Ramón... O que faz aqui?

O homem maior não se moveu, manteve-se de pé na soleira.

—Acredito que a pergunta terá que ser feita a você.

—Ramón... —gemeu Carly.

Angel se limitou a olhá-la. Soltou-lhe os pulsos.

—Sinto muito, primo. Não sabia que esta putinha lhe pertencia.

Um músculo se inchou na dura mandíbula de Ramón.

—Essa putinha é minha esposa.

Angel amaldiçoou em voz baixa.

—Meu Deus! Não sabia. — Baixou as pernas a um lado da cama. —Vi-a no salão. Falamos um pouco e me convidou para subir. Se tivesse sabido quem era... Por Deus! Ramón...

—Vá!

—O que... O que está dizendo? — Carly olhava alternativamente Ramón e Angel. Seu corpo tremia de temor e de raiva. —Isso não é o que aconteceu.



—Sinto muito, primo — disse Angel, recolhendo suas calças e as colocando rapidamente. Depois pôs sua camisa e suas botas e se dirigiu para a porta.

—Me diga que não lhe crê? —disse Carly, finalmente recuperando-se o suficiente para poder falar. —Entrou aqui e... Tentou... E deixará que se vá?

Angel fechou a porta. Os escuros olhos de Ramón lhe olhavam o rosto. A raiva endurecia seus traços, faziam-lhe parecer com o homem cruel e brutal que ela sabia que podia chegar a ser.

—Possivelmente prefira que eu parta, já que, ao que parece estava desfrutando com meu primo.

—O que?

—Pelo menos tenha a decência de se cobrir. Pode estar segura de que já não me interessam seus encantos agora um tanto manchados... Por mais atrativos que sejam.



Carly baixou a vista, viu que Angel tinha deixado ao ar um de seus seios e suas bochechas se tornaram cor púrpura. Subiu a camisola com mãos trementes.

—Ramón, por favor... Não é possível que creia que é verdade o que te disse. Nem sequer sei como conseguiu entrar aqui.

—Mas sim sabe quem é. Conheceu-lhe como disse, abaixo, no salão?

—Falei com ele apenas um momento. Não o convidei a meu quarto... Como pode acreditar uma coisa assim?

—Não sou cego, Carly, como parece decidida em acreditar. Não recorda que acabo de ver-te com ele? Estava te beijando e te acariciava os seios. — Adiantou uma mão e puxou o lençol, deixando-a sentada e desolada na cama, com o corpo tremendo e com as pernas ao descoberto. —Se vista! —disse com dureza. —Partimos.

Começou a tremer sem freio. As lágrimas alagavam seus olhos. Começava a compreender o que tinha ocorrido e ainda não podia acreditá-lo.

—Não... Não podemos ir agora. Cavalgou toda a noite. Tem que dormir um pouco.

Agarrou-a pelo braço e a puxou violentamente da cama.

—Faz o que te digo! — A raiva mais negra o tinha invadido. Manifestava-se em cada linha de seu rosto. Seus olhos estavam mais escuros que os atalhos que conduzem ao inferno. —Uma vez prometi que nunca mais te faria mal. E neste momento me custa muito manter essa promessa. — Soltou-a e ela retrocedeu até cair sobre a cama. —Faz o que te disse! Prepara suas coisas e te prepare para partir.

Carly o olhava aos olhos. Os pulsos ainda doíam onde Angel os tinha apertado. Tinha os lábios danificados pela pressão de seus duros lábios secos. A garganta ardia pelas lágrimas e o coração parecia a ponto de romper-se em dois.

—Por quê? Por que te resulta tão fácil acreditar nele e tão difícil acreditar em mim?

Ramón não respondeu. Mas agarrou um montão de suas roupas do armário e as atirou em cima da cama.

—Se vista puta. Nunca devia ter te trazido aqui. Tinha que haver imaginado que a tentação seria muito forte para uma gringa como você.

Uma gringa como eu, pensou Carly e um novo golpe de dor esfaqueou sua alma. Era anglo-saxã, uma mulher cuja palavra nunca poderia equiparar-se a de um De La Guerra. Piscou uma vez mais, e as lágrimas salgadas voltaram a correr por suas bochechas.

—Você e Angel... Pareceu-me que eram tão diferentes como o sol e a lua. Mas agora, parece que não são tão diferente como eu acreditava.

Ramón não disse nada. Deu meia volta enquanto ela colocava o traje de montar, alisava o cabelo e o atava em uma larga e espessa trança. Ramón deixou vários reais de ouro no vestidor como pagamento pela estadia e a empurrou ao corredor, para as escadas de serviço. Carly o esperou na rua. O ar frio a transpassava. Ele foi aos estábulos em busca dos cavalos.

A égua branca estava selada e pronta. Mas levava Rei do Sol pelas rédeas. O garanhão estava evidentemente esgotado pela viagem que Ramón acabava de efetuar. A grande sela espanhola estava instalada sobre um grande cavalo baio.

—E o que ocorreu com a mula? —perguntou Carly.

—Troquei-a por este cavalo. Rei necessita tempo para recuperar as forças e desta vez, viajaremos mais rápido sem bagagem. Parece que estou ansioso por voltar para casa.

Sorria com amargura. Apertou-a na cintura quando a elevou e a instalou na sela. Não disse nada quando se acomodou na pesada sela com adornos de prata, nada tampouco enquanto cavalgaram pelas vazias e sujas ruas, e nada quando começaram a subir pelas colinas.

Avançaram sem deter-se durante toda a manhã, só se detiveram para que os cavalos bebessem. Carly não comeu nada e tampouco Ramón. Carly só podia imaginar quão esgotado devia estar. Ao cair à noite seguinte, Carly também se sentia exausta. Além disso, tentava aceitar a terrível ideia de que em uma só noite em Monterrey tinha perdido seu marido para sempre.

Tentava não chorar, mas durante as largas horas de escuridão, não pôde evitar que rodassem as lágrimas. Tinha-lhe amado muito. Faria algo por ele. Algo. Tinha acreditado bobamente, que um dia, ele também a amaria.

Em troca, tinha-a chamado puta e tinha acreditado que era culpada de deitar-se com seu primo. Angel podia ser um De La Guerra, podia ser puro-sangue castelhano, mas Carly não daria absolutamente nada por um homem como ele. De fato, se essa noite tivesse tido uma arma no quarto lhe teria disparado com toda segurança.

E o que dizer de Ramón? Tinha chegado a lhe admirar. Agora via nele o que antes não tinha visto. O preconceito contra os anglo-saxões, o ódio pelos que eram diferentes era tão forte nele como em seus adversários. E doía o coração só de pensar que jamais poderia estar à altura de suas expectativas, que jamais poderia ganhar sua confiança, porque seus antepassados eram distintos aos seus.

Ela sabia. Ele tinha deixado muito claro do começo, mas em realidade, ela não tinha acreditado. Não tinha querido acreditar, porque o amava muito.

Deitada em sua esteira, Carly se aconchegou tudo o que pôde, sofrendo, e escondendo a cabeça entre suas mãos. Seu corpo estremecia com as lágrimas que brotavam de seus olhos e empapavam o lençol. Não importava se Ramón a ouvia chorar. Já nada importava. Só sabia que sua vida tinha terminado, que seu coração estava quebrado, que o amor que sentia por ele tinha começado a escorrer dela como a água de um copo quebrado.

Chorou até que esgotaram as lágrimas e depois permaneceu deitada contemplando as estrelas. Mas em realidade não as via. Sua tristeza era muito profunda, tinha o coração cheio de desespero. Antes que saísse o sol, cruzou a clareira para onde estavam presos os cavalos, selou a égua, atou o esteira à garupa, subiu a uma pedra e se instalou sobre o arreio.

Teria partido se Ramón não tivesse aparecido e tivesse pegado ao cavalo pelas rédeas.

—Onde crê que vai?

Carly sorriu tristemente.

—De volta ao lugar de onde vim. Não digo a meu lar, porque já não tenho nenhum. Retorno ao Rancho dos Carvalhos. E irei à outra parte se meu tio não quiser me receber. Não necessito que me indique o caminho.

Os músculos destacaram nas bochechas.

—De todas as maneiras, viajará comigo — disse secamente. —Se quer ir ao rancho dos Carvalhos, ocupar-me-ei de que chegue ali. —Fez uma careta, e seguiu — Parece que as coisas estão resultando tal como as tinha planejado, em um princípio. Se conseguir os meios, pode contar com a anulação, como desejava. Estou seguro de que há muitos homens desejosos de te agradar como eu, e de um modo muito mais audaz que o que até agora te ensinei.

Carly lhe deu uma bofetada, com todas suas forças, na cara. Por um momento, acreditou que ele a arrancaria do cavalo, tão grande era a ira que manifestava seu rosto. Mas desapareceu a ira e foi substituída por uma expressão de tristeza e de extremo desespero. E Carly, contra sua vontade, sentiu-se hipnotizada por esse olhar, desejando desesperadamente que desaparecesse.

—Não fiz o que disse seu primo. Sei que não acredita em mim, mas é a verdade.

Um sorriso frio e cruel apareceu em seus lábios.

—Escolheu ao homem equivocado... Meu amor... Quando tentou seduzir a um De La Guerra. Angel e eu nos criamos juntos desde meninos. Para mim é mais um irmão que um primo.

—Também é um mentiroso, mas isso já não importa.

Ramón elevou a cabeça.

—Apanhei-te neste matrimônio. Você desejava ter uma mulher espanhola, mas em troca teve a mim. Possivelmente fiz de propósito, se tiver que dizer a verdade, já não estou segura. Possivelmente te amava tanto que estava disposta a fazer algo para estar contigo. Quão único sei agora é que, se o fiz, sinto muito. — A égua se movia de lado e Carly teve que puxar as rédeas. —Agora tem uma segunda oportunidade — continuou. —Agora pode encontrar à mulher que te faça feliz.

Cravou os tacos nos flancos do cavalo e o animal saltou para diante, afastando-a atalho acima.

Durante longo momento, Ramón só pôde olhá-la afastar-se. Depois montou Rei do Sol e galopou atrás dela. Apertava as mandíbulas e sua expressão era severa. O coração pulsava surdamente em seu peito, vencido de dor, uma tristeza tão forte que suas mãos tremiam ao puxar as rédeas.

Sabia que isto acabaria acontecendo. Tinha-o visto vir uma e outra vez. Sabia que era uma anglo-saxã, que não podia confiar nela. Sabia que acabaria lhe rompendo o coração.

E entretanto, tinha permitido que acontecesse. Contra todas as advertências e promessas de não intimar muito. Tanto a tinha amado? Tinha estado disposto a arriscar a dor que uma mulher como Caralee com toda segurança podia provocar, nele?

A resposta veio rapidamente e com dureza, queimando amargamente a boca. Sim, a tinha amado. Mais que a sua própria vida. Inclusive neste momento se arriscava, Carly podia muito bem confiar em seu tio. E provavelmente o faria, já que ele a estava descartando.

Não importava.

Já nada importava do instante em que tinha entrado naquele quarto e a tinha visto semidesnuda nos braços de seu primo. Se não tivesse trocado de planos, se não tivesse alugado um cavalo extra para poder chegar antes com ela, se não tivesse cavalgado como um louco, se não tivesse desejado tanto vê-la, não a teria surpreendido com Angel.

Ter-lhe-iam enganado com a mesma facilidade que antes. Por Deus, que imbecil era!

E estava pagando sua imbecilidade com cada doloroso batimento de seu coração.

Cavalgaram todo o dia, detendo-se brevemente só para dar de beber aos cavalos. Ao entardecer chegaram à encruzilhada do caminho. Um atalho levava às Almas e o outro às terras de Fletcher. Carly se deteve na encruzilhada.

—Esse... Esse é o caminho para o rancho dos Carvalhos?

—Sim. São somente dois quilômetros para o norte. Levar-te-ei até lá.

—Não. Quero ir sozinha — disse, sacudindo a cabeça.

Voltou-se um pouco para um lado e um raio de sol, que se filtrava entre os ramos de um carvalho acendeu sua cabeleira. A beleza de seu rosto pareceu arder na mente de Ramón e o tremor de seus lábios fez estremecer seu coração.

Ramón não disse nada, somente a contemplou orgulhosamente sentada na sela. Seu coração parecia a ponto de estalar. Pensou que não deveria estar sentindo isto, que não deveria pensar em como tinha chorado toda a noite, nos suaves soluços que lhe partiam a alma, no esforço que tinha tido que fazer para não aproximar-se dela e perdoá-la e rogar que não o abandonasse. Não devia estar recordando seu olhar de dor e incredulidade quando ele a tinha chamado puta, a tristeza de seus olhos quando havia dito que o amava tanto.

Não era verdade. Não o teria traído se o amasse tanto.

—Ramón?

—Sim, Carly?

—Uma vez fomos amigos, possivelmente mais que amigos. Recorda como era então, fá-lo-á? Imagina que Monterrey nunca existiu. Recorda as coisas que temos feito, o prazer que compartilhamos, recorda os bons tempos, não os maus. Fará isto por mim?

—Sim, Carly. Tentarei fazê-lo. — disse com a garganta seca. Tremiam as mãos enluvadas e assobiava o peito cada vez que respirava. Começou a mover o garanhão.

—Uma coisa mais. — Voltou-se para ela, viu as lágrimas que brilhavam em suas bochechas. —Não deve se sentir mal pelo que aconteceu. Se tivesse me amado, teria sabido qual era a verdade embora meus lábios dissessem que era mentira. Encontra à mulher que possa amar Ramón. Não aceite nada distinto a isso.

O coração se detinha, parecia derrubar-se em seu interior. Ardia-lhe a garganta e não podia tragar pela dor que o afligia.

—Carly, por favor... Não posso...

Não disse nada mais e tampouco falou ela. Mas Carly continuou lhe olhando à cara como se quisesse memorizar cada um de seus traços.

Passaram os minutos. Largos minutos, incomensuráveis, que marcavam o fim do que tinha havido entre eles, os ventos cambiantes que afastavam essas duas vistas. A unidade que tinham compartilhado já era assunto do passado. Nunca fariam as coisas que tinham planejado, as coisas com que ele tinha começado a sonhar. Não haveria um futuro comum para eles dois, nem meninos que criar para que fossem fortes e orgulhosos.

Carly lutou mentalmente com uma nova onda de dor. Depois esporeou à pequena égua, açoitou-a ligeiramente na garupa e começou a galopar atalho abaixo. Se me amasse, havia-lhe dito, mas se equivocava. A amava. E tanto que perdê-la era o mais doloroso que jamais tinha acontecido. Vê-la afastar-se ao galope era como ver que a luz fugia de sua vida e o deixava na escuridão.

Tremia a mão contra o arreio, pesava-lhe todo o corpo. Como era possível que a amasse tanto e que ao mesmo tempo a odiasse tanto? Como podia odiá-la e ao mesmo tempo desejá-la?

Ramón fechou os olhos, tentando não ver a imagem do corpo nu de seu primo e de seus magros dedos escuros percorrendo o seio de sua mulher. Se outro homem houvesse tocado sua esposa, a estas horas já estaria morto. Mas Angel era de sua família. Era um De La Guerra. E o tinham enganado.

Moveu o garanhão para cima. O outro cavalo o seguia atrás. Fez uma pausa no topo da colina, para observar e assegurar-se de que Caralee chegaria a salvo ao rancho. Pensou que devia estar chorando, mas não podia estar seguro. Possivelmente, a seu modo, ela o tinha amado depois de tudo.

Seu cavalo descia pelo atalho para o vale. Caralee ia muito erguida na sela, com o rosto em alto e os ombros para trás. Ramón se perguntou no que estaria pensando, se lamentava o que tinha feito. Perguntou-se se estaria desejando retornar às Almas tanto como ele desejava estar levando-a a casa.

Contemplou-a durante vários minutos mais, sem fazer caso da dor surda em seu peito nem de seu desejo de que o tempo retrocedesse até antes da viagem a Monterrey. Se só pudesse refazer as coisas possivelmente ela pudesse chegar a amá-lo suficiente para não desencaminhar-se.

Contemplou-a até que a pequena figura passou além da última colina. Acomodou-se então na sela e esporeou o garanhão. Vários metros acima, no desfiladeiro, fez uma pausa e tentou escutar o som decrescente dos cascos da pequena égua no pedregoso atalho.

Quando o ruído dos cascos se desvaneceu, instaurou-se um silêncio só interrompido pelo assobio suave do vento entre as árvores, tentou endurecer-se contra a dolorosa perda e resignar-se a aceitar o que acabava de ocorrer.

O passado já não tinha remédio. Caralee tinha morrido para ele, como seu irmão Andreas. Já não era parte de sua vida. Ontem, tinha falado com o padre Renaldo, o ancião que foi procurar tão longe. O sacerdote havia dito que os documentos que precisava deviam estar em uma adega da missão de Santa Bárbara. Uma vez que os tivesse nas mãos, cabia a possibilidade de que pudesse recuperar as terras de sua família.

Pela primeira vez da morte de seu pai e de seu irmão, Ramón notou que aquilo já não importava.

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