Biotecnologia: Aplicações e impactos sociais Lara Raphaela Rodrigues Nogueira




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BIOTECNOLOGIA: Aplicações e impactos sociais

Lara Raphaela Rodrigues Nogueira

Assistente Social pela Faculdade do Recife (FAREC). E-mail: lara_raphaela@hotmail.com


Janilson José da Silva Júnior

Mestre em Inovação Terapêutica UFPE. Biomédico pela UFPE. Professor da Faculdade Sete de Setembro (FASETE), Paulo Afonso-BA.

e-mail: janilson_jose@yahoo.com.br

RESUMO

A biotecnologia é o conjunto de conhecimentos técnico-científicos que permite utilizar seres vivos ou parte deles no processo de produção de bens e serviços. Dentre os benefícios fomentados pela biotecnologia, podemos citar aumento da eficiência de processos industriais e agrícolas, biocombustíveis, descontaminação ambiental, produção de medicamentos, entre outros. Apesar desses benefícios, é importante destacar e discutir os impactos sociais gerados pelos avanços tecnológicos, não pela tecnologia propriamente dita, mas pelos que a financiam e controlam. Portanto, de forma profilática, devemos ter ciência da importância de políticas públicas que aproximem a população de baixa renda dos produtos biotecnológicos, afim de minimizar as desigualdades que, há tempos, assolam nossa sociedade.

Palavras-Chave: Biotecnologia, benefícios, impactos sociais

ABSTRACT

Biotechnology is the set of technical and scientific knowledge that allows you to use living organisms or their part in the process of production of goods and services. Among the benefits promoted by biotechnology, we can mention increasing the efficiency of industrial and agricultural processes, biofuels, environmental decontamination, production of medicines, among others. Despite these benefits, it is important to highlight and discuss the social impacts generated by technological advances, not the technology itself, but by those who finance and control. So prophylactically, we must be aware of the importance of public policies that approach the low-income population of biotech products in order to minimize the inequalities that some time ago plaguing our society.

Keywords: Biotechnology, benefits, social impacts

INTRODUÇÃO

A biotecnologia pode ser definida como o conjunto de conhecimentos técnico-científicos, que permite a utilização de seres vivos, ou parte deles (moléculas), como parte integrante e ativa do processo de produção de bens e serviços (KREUZER and MASSEY, 2002). De acordo com Malajovich (2004), a biotecnologia é a área com maior potencial e compatibilidade com a sustentabilidade da vida, tornando-se imprescindível para o desenvolvimento humano.

Embora transpareça modernidade e englobe técnicas de última geração, tal como engenharia genética, a biotecnologia teve início com os processos fermentativos (tais como produção de cerveja e vinho, na qual microrganismos são utilizados para obter produtos de interesse do homem), cuja utilização data desde antes da era Cristã. Esse fato mostra a capacidade de auto renovação da biotecnologia, veiculada pela criação de novos achados, que podem ser utilizados em processos e serviços. Assim, tem-se uma pós-moderna ciência que possui origens longínquas, e que estará sempre renovada e promissora.

Outra notável característica de destaque da biotecnologia é a sua multidisciplinaridade. Segundo Abrix 2007, trata-se de uma ciência de encruzilhada, cujos eventos mais relevantes dependem da participação simultânea e confluência de especialistas das mais diversas áreas, tais como bioquímica, microbiologia, matemática, estatística e bioinformática, visando compreender e otimizar os bioprocessos envolvidos. Hoje, como consequência da convergência de diversas áreas e especialistas, há uma série de produtos de origem biotecnológica. Neste contexto, este trabalho traz algumas diretrizes, aplicações e impactos sociais vinculados à biotecnologia.



  1. A BIOTECNOLOGIA E SUAS PRINCIPAIS APLICAÇÕES

É notável a diversidade de aplicações e produtos de origem biotecnológica. Dentre as aplicações, podemos destacar a indústria de alimentos, área ambiental, saúde e combustíveis.

    1. INDÚSTRIA DE ALIMENTOS

Muitos processos industriais utilizam enzimas e microrganismos para produzir alimentos. Nesse caso podemos destacar a agropecuária, na qual os transgênicos ganham notoriedade. A produção de sementes resistentes às pragas e adversidades climáticas, além de promoverem a criação de espécies mais nutritivas, diminuem os gastos com pesticidas tornando a prática agrícola economicamente mais acessível e sustentável. A principal responsável pelas conquistas biotecnológicas nesta área é a engenharia genética, por meio da qual há possibilidade de selecionar e expressar genes de resistência em espécies antes desprovidas dessa característica. É nessa diretriz que observa-se o sucesso da fruticultura no Vale do São Francisco, responsável por alavancar a economia da região em meio à recessão econômica que vive nosso país. O Vale do São Francisco é responsável pelo maior volume de exportação de frutas do país, mesmo sendo uma região incompatível do ponte de vista climático (WOFGANG, 2014). Desta forma, a biotecnologia e os avanços nas áreas de irrigação garantem o desenvolvimento econômico da região.

Ainda na área alimentícia, bactérias, e fungos atuam nos processos de fermentação, formação de sabor e aromas de muitos alimentos e bebidas, tais como queijos, carnes, pães, massas, cerveja, vinho e sucos. A engenharia genética também é importante nos processos fermentativos, pois a aquisição de bactérias e fungos geneticamente modificados garantem cinética mais rápida e maior eficiência na produção (FALEIRO et al, 2011).

Outro processo beneficiado pela biotecnologia é a Fixação Biológica do Nitrogênio. Neste processo, o nitrogênio gasoso (incapaz de ser utilizado pelas plantas em geral) é incorporado ao solo, por meio de bactérias fixadoras de nitrogênio, na forma compostos químicos nitrogenados, capazes de serem utilizados pelas espécies vegetais (COELHO, 2003). É desta forma que a grande parte dos vegetais adquirem nitrogênio para realizar processos bioquímicos importantes. Na agricultura, é importante a disponibilização de grandes quantidades de nitrogênio no solo. Assim, a eficiência da fixação do nitrogênio no solo pode ser melhorada com o uso de bactérias mais específicas e eficientes, comprovadamente com maior capacidade de fixação de nitrogênio (ZILLI, 2008). Isso evita a utilização de adubos minerais, que são dispendiosos e seu uso inadequado pode promover impactos ambientais negativos.


    1. ÁREA AMBIENTAL

No campo ambiental, a biotecnologia traz grandes achados. Dentre eles a biorremediação, que é o uso de processos biológicos para transformar os contaminantes em substâncias inertes (HOLLINGER et al., 1997). Este processo biotecnológico apresenta menor custo e maior eficiência na remoção dos contaminante, quando comparado às técnicas físicas e químicas (como incineração e lavagem do solo),podendo ser utilizada no tratamento de diversos resíduos e na remediação de áreas contaminadas como solos e aquíferos (BANFORTH & SINGLETON, 2005). Desta forma, a biorremediação é um processo biotecnológico que utiliza organismos (como fungos e bactérias) e ganha notoriedade. no tratamento ambiental de áreas contaminadas com petróleo e metais pesados (ANDRADE et al, 2010).

No que tange à detecção de contaminantes em aquíferos, os biossensores vem se destacando. São dispositivos analíticos cujo elemento de reconhecimento é biológico (pode ser um organismo vivo ou parte dele, um tecido, enzima, anticorpo, etc.) (MARKS et al, 2008). Eles podem ser usados na monitoração e controle do ambiente, principalmente na detecção de metais pesados, pesticidas e toxinas. Uma nova e promissora leva de biossenores são os nanobiossensores, caracterizados pela utilização de biodispositivos nanométricos para a detecção de diversos analitos. Esses dispositivos são objeto de intenso estudo em diversas partes do mundo e os que fazem análise em tempo real prometem revolucionar a área. Consultar Aguiar et al, 2015 para uma análise mais detalhada desses dispositivos.



    1. ÁREA DA SAÚDE

Na área da saúde, a biotecnologia vem se mostrando cada vez mais promissora, e despertando discussões éticas. Hoje, a produção de antibióticos, antivirais, hormônios e vacinas tornou-se um bem sucedido exemplo de produto biotecnológico. Como exemplo, temos da insulina, hormônio normalmente produzido pelo pâncreas e cuja deficiência pode causar um grupo de doenças metabólicas denominadas diabetes mellitus (LIMA, 2001). Em alguns casos, o tratamento do diabetes exige a utilização de insulina, que antes era extraída de animais (insulina bovina e suína). No entanto, apesar de salvar milhões de vidas, a insulina animal pode causar reações alérgicas (HILGENFELD et al, 2014). Como solução, a insulina utilizada para o tratamento do diabetes hoje é humana e produzida por bactérias, graças à técnica de DNA recombinante, na qual bactérias com material genético modificado sintetizam e secretam a insulina humana (LOPES et al, 2012). Hoje, há uma corrida em busca a disponibilização de insulina por via oral (KNIPE et al, 2015), mais um avanço importante, uma vez que o tratamento convencional é subcutâneo e traz desconforto ao paciente.

As contribuições da biotecnologia na área da saúde não se limitam à produção de insulina. A área de reprodução assistida também merece destaque, pois agregadas às conquistas provenientes da fertilização in vitro, clonagem e células tronco, estão as discussões éticas a respeito das técnicas adotadas nos procedimentos supracitados. A começar pela fertilização in vitro, que é a é a técnica de reprodução assistida em que a fertilização e o desenvolvimento inicial dos embriões ocorrem fora do corpo e os embriões resultantes são transferidos para o útero (Rani et al, 2014) O espermatozoide fecunda o óvulo no laboratório (in vitro) e o embrião (produto da fecundação) é implantado no útero. Esse procedimento aumenta significativamente o sucesso da fertilização e desenvolvimento do feto. Hoje, os avanços das técnicas de criopreservação e diagnósticos genéticos permitem avaliar as condições do embrião antes da implantação, de modo a escolher o sexo e outras características do bebê. No Brasil, a escolha do sexo não é permitida, mas o diagnóstico pré-implantacional (PGD) permite a escolha e embriões geneticamente compatíveis no caso de transplantes familiares (WANG and SAUER, 2006).

No caso das células-tronco, são células com elevada capacidade de diferenciação, o que as torna ideais para reparação de tecidos lesados, tais como tecido cardíaco, nervoso e epitelial. Há basicamente duas formas de obtenção dessas células: células-tronco embrionárias e células-tronco adultas (ZATZ, 2014). Para obter células-tronco embrionárias, faz-se necessário o descarte do embrião, fato este que gera polêmica, uma vez que o embrião com idade entre 5 a 7 dias é dotado de potencialidade de vida em constante desenvolvimento, capaz, de atingir o estágio cognitivo de uma pessoa em sua plenitude. (ARAGÃO e BEZERRA, 2012).


    1. COMBUSTÍVEIS

O etanol é uma alternativa sustentável à extração de combustíveis fósseis (como petróleo e gás natural). Atualmente há uma preocupação com o aumento rendimento na produção de etanol. Surge então o bioetanol, também conhecido como etanol de 2ª geração, que é uma molécula idêntica ao etanol, porém é produzida a partir do bagaço da cana-de-açúcar (SOUZA et al, 2012), que normalmente é descartado. O ponto chave na produção de bioetanol está na obtenção de microrganismos capazes de metabolizar a celulose, componente do bagaço difícil de ser metabolizado e transformado em etanol por microrganismos comumente utilizados na indústria do etanol. Portanto, há intensa busca por microrganismos geneticamente modificados capazes de metabolizar a celulose (SCHENBERG, 2010). Sem a contribuição da biotecnologia, isso não seria possível.

  1. IMPACTOS SOCIAIS

São inegáveis os benefícios ambientais, na saúde e indústria fomentados pela biotecnologia. Além disso, é evidente que a ciência e a tecnologia sempre se manifestaram em benefício da humanidade. No entanto, não se deve marginalizar os impactos sociais que são causados pelo acúmulo de recursos biotecnológicos nas mãos do capitalismo.

Sabe-se que o mercado tem grande poder sobre a atividade biotecnológica, que corre grandes riscos de voltar-se aos interesses do próprio mercado. Isso torna os benefícios da biotecnologia inacessíveis para muitos. De acordo com Morin 2008, a atividade científica é controlada pelos poderes econômico e estatal, que detêm as técnicas, e isso pode gerar desigualdades. De acordo com Iamamoto (1999), a apropriação e monopolização dos frutos do capitalismo, por uma parte da sociedade, mostra-se como um modelo socialmente excludente e concentrador de renda. Portanto, juntamente com os avanços tecnológicos, devemos nos ater ao acolhimento das classes menos favorecidas e, desta forma, tornar a biotecnologia uma ciência multidimensional, interdisciplinar e inclusiva.

Faz-se necessário estabelecer políticas públicas que diminuam o espaço que há entre as classes sociais, no que concerne ao acesso a bens e serviços gerados pela biotecnologia. Hoje, tem-se grandes avanços nesse aspecto, como por exemplo, no tratamento do câncer. No Brasil, o Ministério da saúde garante acesso aos medicamentos anticâncer independente da classe social. Mas ainda há muito o que fazer, pois a área de reprodução assistida ainda se mantém acessível a uma pequena parcela da população.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do que foi discutido, fica evidente a importância da biotecnologia no que tange o desenvolvimento humano, uma vez que ela atinge vários setores produtivos, tais como plantas resistentes a pragas, biopolímeros, biocombustíveis, processos industriais e agrícolas menos poluentes e mais eficientes, técnicas de biorremediação do meio ambiente, biossensores e novos medicamentos. Além de gerar emprego e renda. No entanto, será que o desenvolvimento biotecnológico, caminhando juntamente com os interesses do mercado, irá beneficiar a população de baixa renda? Ou será mais um instrumento utilizado para gerar mais desigualdade?

Nessa diretriz, devemos nos policiar no fato de que os impactos sociais do capitalismo podem tornar os avanços da biotecnologia excludentes. Nesse contexto, se faz necessário que a biotecnologia traga avanços na esfera social para viabilizar a promoção bem estar coletivo, independente da classe social.

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