Aporia e alegria em guimarães rosa maria Lucia Guimarães de Faria




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APORIA E ALEGRIA EM GUIMARÃES ROSA
Maria Lucia Guimarães de Faria*


  1. O ápice e o vórtice

As Primeiras Estóriasi são estórias originais, no duplo sentido de que nenhuma outra se lhes assemelha, e de que se originam de si por si mesmas, reproduzindo o dinamismo originário da physis. A primeira destas estórias intitula-se “As margens das alegria”ii e abre-se com a frase categórica: ESTA É A ESTÓRIA. Por que se diz que esta é a estória, e qual é o significado das margens da alegria?

A estória se articula na ritmanáliseiii de dois movimentos antagônicos, que configuram a dialética do elemento aéreoiv: o entusiasmo do vôo que eleva o Menino ao ápice da experiência vital e a angústia da queda que o degrada ao vórtice da vivência mortal. O primeiro destes movimentos, o de transcendência, assinala o princípio da estória, que coincide com os primórdios da grande cidade (MA, 3) e com o prelúdio da vida do Menino. Sua iniciação inaugura-se ainda com o escuro e processa-se no ar, no vasto percurso de um vôo ao não-sabido, ao mais (MA, 3). A criança, que antes do irromper da viagem inaugural era apenas um menino, encontra-se, no exato instante da partida, que equivale à transmutação da imanente situação terrestre na transcendente aventura aérea, no ponto crucial de sua conversão existencial: O menino fremia no acorçôo, (...), com um jeito de folha a cair (MA, 3). O menino está maduro para dar-se à luz, e este segundo nascimento, coincidente com o erguer-se da cidade, com o emergir-se da estória e com o lançar-se ao ar do avião, - imagens isomorficamente ascensionais do ímpeto uranotrópico, - singulariza-o como O Menino, conferindo-lhe o estatuto maiúsculo de pessoa singular. A viagem intimiza-o com o ilimitado domínio aéreo e propicia-lhe a tonificante emoção de crescer e desconter-se (MA, 3), que equivale a ultrapassar-se na jubilosa aquisição de um acréscimo de ser. A verdade extraordinária (MA, 3) que raia para ele do núcleo seminal de seu arrebatamento é o ensinamento fulcral da pedagogia aérea: a alma humana é ardentemente comovida por um irresistível apelo ascensional, e, ao intuir a sua potência transcendente, ela saboreia o êxtase expansivo de relembrar a sua destinação divina.

Contemplando o azul de só ar (MA, 3), extasiando-se no empolgante sentimento de fusão com aquela claridade à larga (MA, 3), o Menino, pela primeira vez, vive plenamente. Voar supremamente (MA, 3) oferece-lhe a embriagante sensação de sintonia com o móvel mundo (MA, 3). Tão profunda é a lição do elemento imponderável que todas as experiências terrestres que se seguem são conduzidas pelo sortilégio aéreo: Ele estava nos ares (MA, 5). As novas tantas coisas (MA, 4), surgidas do opaco (MA, 5), exsurgem, em seu fulgor primordial, e o Menino desvela o mundo e revela a si mesmo ao pronunciar o nome de cada coisa (MA, 5). O encantamento órfico do devaneio é um gesto cosmo-antropofânico e um ato cosmo-antropogônico. A cosmofania é representada pelo pródigo aparecer de tudo o que vive nessa paisagem de muita largura, que o grande sol alagava (MA, 5), enquanto a antropofania é simbolizada pelo comparecer do Menino a si mesmo, na tomada de consciência da extraordinária verdade que para ele raia. O apenas começar a fazer-se (MA, 4) da grande cidade é a imagem concreta da cosmogonia. A antropogonia, por sua vez, está cifrada na abertura misteriosa: ESTA É A ESTÓRIA, que anuncia o prelúdio de uma vida no interlúdio de uma viagem. Neste simultâneo apresentar-se do mundo e presentificar-se do ser, o Menino atinge o limiar da revelação da vida: Tudo, para a seu tempo ser dadamente descoberto, fizera-se primeiro estranho e desconhecido (MA, 5).

De todos os acontecimentos terrestres, o mais retumbante é a portentosa aparição do peru. O peru completo, torneado, redondoso, o peru para sempre (MA, 4) é o apogeu da ascensão vital do Menino. O majestoso advento da ave em sua colorida empáfia (MA, 4), num misto de poder celeste e calor terrestre, é a exuberância da terra que se enfuna da impante (MA, 5) altissonância do ar, a ponto de o Menino sentir o impulso de tanger trombeta (MA, 4). Entretanto, a existência do peru para o Menino é tão feérica quanto efêmera, tão intensa quanto breve: Só pudera tê-lo um instante, ligeiro, grande, demoroso (MA, 5). Ao retornar do passeio, depara-se com uma penas, restos, no chão (MA, 5). A morte súbita do peru, aquele incompreensível deixar-de-ser, é a vertiginosa experiência da queda, que despenha o Menino das jubilosas paragens aéreas nas pesarosas voragens terrestres: Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam (MA, 5-6). A partir deste instante, inverte-se o movimento que auspiciosamente iniciara a estória: o alado ímpeto ascensional transmuda-se no pesado baque descensional: aquele doer, que põe e punge, de dó, desgosto e desengano (MA, 6). A expansão celeste é substituída pela constrição terrestre, fonicamente expressa pelo acúmulo de nasalizações em vogais escuras e fechadas e pela aliteração do p e do d. No auge da ascensão, algo indecifrável para o pensamentozinho do Menino, em fase hieroglífica (MA, 7) havia-se sorrateiramente infiltrado, - um pingo de nada, um gotejar de morte, - transformando um percurso de alegria num decurso de pesar: O peru – seu desaparecer no espaço (MA, 6). O Menino intelectualmente não compreendia, mas plasticamente percebia, com o estupor chocado da imaginação, que o magnífico animal fora tragado pelo vórtice do abismo, devorado pela ausência. Entre o entusiasmo vital e a angústia mortal, nada medeia: separando-os e irmanando-os, perpassa tão-somente o grão nulo de um minuto (MA, 6). Ao desvelar a vida no onirismo de um vôo à morada do sonho e da fantasia, o Menino, paradoxalmente, descobre, juntamente, a morte: o Menino recebia em si um miligrama de morte (MA, 6).

Todas as imagens subseqüentes à morte do peru assinalam o peso esmagador da imanentização terrestre. A abertura cede espaço ao fechamento, o desânimo e a fadiga tomam o lugar da vivacidade e da exaltação: Cerrava-se, grave, num cansaço e numa renúncia à curiosidade (MA, 6). Ao voar supremamente que inicia a estória responde contrapolarmente o abaixar a cabecinha (MA, 6). O Menino, que agora, vivia (MA, 4), na vastidão do ar, no convívio com um e outros pássaros – com cantos compridos (MA, 4), encontra-se, de repente, encurralado num encantamento morto e sem pássaros (MA, 6). O ar fino, que se mostrara alvissareiro e pleno de cheiros desconhecidos (MA, 3), acha-se subitamente velho, cansado, cheio de poeira (MA, 6). A arrebatada emoção que se extravasara num crescer e desconter-se constrange-se, impedida (MA, 6). O móvel mundo perde o dinamismo floral e limita-se a ser o mundo maquinal (MA, 6), cercado de receio e de dúvida. A paisagem de muita largura (MA, 5), onde imperava aquela claridade à larga (MA, 3), transforma-se no hostil espaço (MA, 6), onde reside, ainda encoberto, o possível de outras adversidades (MA, 6). O Menino, que raiara para si mesmo no arrojo de uma intensa alegria, que despedia todos os raios (MA, 4), apouca-se e acanha-se, formando um medo secreto (MA, 6), na descoberta de que entre o contentamento e a desilusão, na balança infidelíssima, quase nada medeia (MA, 6). A balança, que inicialmente desequilibrara-se em favor da transcendência, descontrola-se agora, pendendo para a imanência. Tanto num caso como no outro, a desmesura desarmoniza a fidelidade da balança. Na estória total do Menino, que se inicia duplamente no mito da abertura transcendente e no mistério da clausura transdescendente, a balança perfeitamente equilibrada é a imagem-princepsv da harmonização dialética do ímpeto uranotrópico e da vertigem geotrópica. Um excesso de elemento aéreo dissipa a força de resistência aos embates terrenos; uma excessividade de matéria terrestre despotencia a audácia da aventura celeste. Em ambas as situações extremas, perde-se a essencial mobilidade do ser. No desmedido apelo transcendente, esfaz-se o movimento vital, na medida em que exorbita qualquer limite; no desmesurado apego imanente, ele se atrofia, asfixiado pelo temor e pela prudência. Para o Menino, a balança ainda não atingira a estabilidade dialética de um repouso vibrado, pois, tendendo ora para um lado, ora para o outro, ela o traíra duplamente. No primeiro caso, fazendo-o crer que a alegria poderia vigorar olimpicamente sem obstáculos ou entraves; no segundo, comunicando-lhe a impressão de que a morada terrestre era tão-somente aquela tristeza circunstante.

A balança inclina-se definitivamente para baixo com o brutal assassínio da árvore. Com a fulminante queda da árvore, rui, no devaneio cosmogônico do Menino, a grande cidade que ia ser a mais levantada do mundo (MA, 5). A árvore, que morrera tanto, que se caíra toda, toda (MA, 6-7) é o golpe final na sensibilidade do Menino: seu coraçãozinho, que tanto fremira no acorçôo subitamente vira pedra (MA, 7). No lancinante instante da morte da árvore, o Menino olha, perplexo, o céu, que, em consonância com sua dor, devolve-lhe o olhar, atônito de azul (MA, 7). Entretanto, ao voltar à casa, uma pequena surpresa o aguarda: outro peru ocupa o terreirinho, e, embora sem o recacho e o englobo do primeiro, alivia um pouco o pesar da perda, de modo que tudo se amaciava na tristeza (MA, 7). Mas a lição terrestre ainda não se encerrara, e um derradeiro baque o esperava: movido por um ódio, o peru pegava de bicar, feroz, aquela outra cabeça (MA, 7), o companheiro morto. Com este terceiro acontecimento sinistro, o mundo acaba de velar-se para o engatinhante entendimento do Menino: A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo (MA, 7). Da absoluta transparência do dia, o Menino passa para a compacta opacidade da noite: Trevava (MA, 7): no mundo, e em sua pequenina alma desgostosa. O véu negro que se estende sobre a natureza é a mesma negritude que se derrama sobre o seu coração diminuído. O fardo gravitacional subjuga o elã ascensional. O peso da imanência suplanta a força da transcendência. A opressão da queda supera a expansão do vôo. O Menino é constrangido pela circunjacente tristeza que o circunscreve, sentimento concretamente expresso na palavra circuntristeza (MA, 6). Confinando o Menino dentro dos estreitos limites de seu abatimento, a circuntristeza impõe margens à alegria, que, até então, circunfluíra, sob espécie sonhosa, bebida, em novos aumentos de amor (MA, 5). Neste primeiro segmento da estória do Menino, regido pelos dois movimentos contrários do entusiasmo e da angústia, a alegria é prematuramente limitada por margens que a inibem de ambos os lados. A alegria demasiado humana é frágil, constantemente ameaçada e interrompida, como um riacho sem fonte própria, sempre sujeito a secar-se, uma vez que não promana de si mesmo, de um núcleo propulsor interno, mas depende de circunstâncias alheias a seu curso. No alvorecer de sua vida, o Menino ainda não é mestre do eterno retorno de sua alegria, que se restringe, incerta, entre margens que a impedem de potencializar-se. O arrebatamento que o impele não se origina, ainda, em seu próprio centro cordial, não descende de uma irrevogável decisão moral. Por isso, num lufo, num átimo, as mais belas coisas lhe são roubadas.

Conturbado pela circuntristeza, o Menino não alcança compreender o estranho desequilíbrio que parece reger o mundo: O Menino não entendia (MA, 7). Para ele, a abrupta inversão da euforia celeste na disforia terrestre apresenta-se como um mistério. Afigura-se-lhe que o mundo é perversamente governado por um diabólico dualismo antagônico, que se compraz em subverter a eurritmia dos acontecimentos: O Menino se doía e se entusiasmava (MA, 7). Nesta dupla sensação de elevar-se e abater-se, transcorre a trama inaugural da vida do Menino. Se doía e se entusiasmava: sentimentos co-ordenados, mas não co-orquestrados. Para o seu entendimento cindido, o receptivo espaço em branco ao qual se elançara no rastro do impulso ascensional e o hostil espaço que camuflava a iminência de todas as catástrofes revelam-se dois vazios diversos e contrapostos, que mutuamente se excluem e reciprocamente se repelem. O primeiro vazio, - O Menino tinha tudo de uma vez, e nada, ante a mente (MA, 4), - é um nada benigno, que o acolhe em sua amplitude e o convida para uma viagem ao infinito país do imaginário. O segundo vazio, - o peru, seu desaparecer no espaço (MA, 6), - é um nada maligno, que, devorando o que há de mais belo e mais caro, aprisiona o Menino nas margens da circuntristeza. Todos os infortúnios que lhe sobrevêm são efeito do pérfido infiltrar-se deste insidioso nada. Entretanto, no grão nulo de um minuto, estes dois nadas inversos confluem, paradoxalmente aparecendo como a face e a contraface de uma mesma realidade demoniacamente dual. Os dois vazios opostos são duas aparições de um único nada. Como compreender que o nada, sob cujas asas tão confiadamente viajara, fosse o mesmo nada, cujas garras lhe haviam raptado o magnífico peru? Como apreender o enigmático sentido de ser a vida tão mortal, e de ser a morte tão vital?



A estória, que se abre com o raiar do dia, fecha-se com o cair da noite. O Menino, que desponta para a vida ao romper d’alva, tem o seu primeiro mergulho íntimo ao tombar do ocaso. A viagem, que se inicia com o erguer-se da luz auroral, inclina-se para a penetração do silêncio e da solidão noturna. Em todas as etapas do percurso existencial do Menino, comparece solidariamente a Natureza, como a exteriorização perceptível de sua interioridade anímica. No derradeiro instante da primeira fase de sua iniciação, envia-lhe o vagalume para aliviá-lo das densas trevas circundantes. O vago lume vagante reacende o encantamento no coração do Menino: Sim, o vagalume, sim era lindo! (MA, 7). O verde pisca-piscar é para ele o primitivo vislumbre de compreensão do eixo da verticalidade transcendente-transdescendente que singulariza o ser-aívi do homem. Penetrar a fundamental ambigüidade do homem ou assimilar a essencial ambivalência do ser, o Menino ainda não pode. Todavia, ele intui, no núcleo seminal de sua alma, que o pequenino animal levanta vôo do próprio centro irradiador da escuridão: Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vagalume (MA, 7). O intermitente fulgir e fugir abre, em seu espírito, uma fímbria de percepção do eterno ritmo diurno-noturno que comove o ser. A com-pulsão do dinamismo ontológico de sístole e diástole encontra sua imagem material e dinâmica no palpitar claro-escuro do minúsculo luminar da noite. O pequeno vagalume é a concretização sensível da vaga força que, no Menino, trabalhava por arraigar raízes, aumentar-lhe alma (MA, 7). Arraigando raízes, o Menino afirma-se com a verticalidade urânico-ctônica da árvore, simultaneamente próxima do céu e íntima da terra. Aumentando a alma, ele se anuncia como o indutor do seu próprio destino, fiel aos acenos do superno, leal aos apelos do inferno. Tímida e tremulamente, à força de redescobrir em si a esperança, o Menino sente renascer o prazer de viver: Era, outra vez em quando, a Alegria (MA, 7). Uma alegria maiúscula, já não tão inocente, mas, ainda, uma alegria episódica e eventual, limitada, na vida, pelas margens impostas pela circuntristeza, e, na expressão, pelas vírgulas que margeiam suas rápidas fulgurações. Está longe, ainda, de corporificar-se como A Alegria Definitiva, resguardada contra os saques das adversidades. Entre o Menino e a aleluia desta Alegria, interpõe-se a noite, o oblongo-longo-longo percurso da noturnidade ctônica.



  1. Os abismos e os cimos


Inversamente à estória inicial, a estória final, “Os cimos”vii, principia com o movimento catabático que recusa o elã anabático: Outra era a vez (C, 148). De novo o Menino se acha no avião, mas trata-se de uma íngreme partida (C, 148). Esmagado pelo peso da imanentização, provocado pela grave doença da mãe, o Menino encontra-se no fundo sem-fundo do abismo terrestre, de onde lhe parece impossível empreender a subida para os amplos espaços celestes. A imagem material e dinâmica da íngreme partida assinala inequivocamente que, embora no ar, o Menino situa-se no centro das voragens ctônicas, subjugado pela incoercível força gravitacional, pois íngreme evoca um aclive terrestre e, não, uma verdadeira elevação celeste. Aturdido e a esmo tropeçante (C, 148), o Menino ingressa no avião, renegando, no entanto, o encanto do ar. A vasta claridade, que antes o havia arrebatado, conturba-o agora: Nem valia espiar, correndo em direções contrárias, as nuvens superpostas, de longe ir (C, 148). O Menino e o vôo, em total dissonância, correm, também, em direções contrárias, o vôo infatigavelmente buscando o ápice urânico, e o Menino obstinadamente demandando o vórtice ctônico. Contudo, a situação de queda que agora se configura em sua alma não é a mesma que ele experimentara com a morte do peru. O intenso sofrimento pela doença da mãe e a penosa perspectiva do horrível do impossível (C, 148) engendram o agudo mergulho nos insondáveis segredos da terra, que nada mais é, senão a descida aos obscuros desvãos de sua própria intimidade: E o Menino estava muito dentro dele mesmo, em algum cantinho de si. Estava muito para trás. Ele, o pobrezinho sentado (C, 149). Se, antes, ao vôo à transcendência sucedera-se tão-somente a queda na imanência, inicia-se agora uma autêntica transdescendência, uma verdadeira incursão ao centro cordial da profundidade anímica. O Menino ainda não compreende aquela terrível possibilidade, maior que todas, ameaçando para sempre a sua alegria: A Mãe e o sofrimento não cabiam de uma vez no espaço de instante, formavam avesso (C, 148). O incessante movimento simultâneo dos opostos afigura-se-lhe, ainda, uma coreografia macabra e diabólica: A vida não parava nunca, para a gente poder viver direito, concertado? (C, 149) Ele ainda não entende a complexa engrenagem dialética da vida, o irrefreável acontecer do nada (C, 149), descontinuando a duração e a permanência do ser. Todavia, iniciando a catábase íntima, encaminha-se frontalmente para a revelação total do sentido da vida, em seu ritmo ambivalente de ser e não-ser, nas duas disposições contrárias que a fazem continuamente velar-se e desvelar-se. O avião atravessa a claridade enorme (C, 149), mas o Menino, que recebera o sinal verde para a transdescendência no entreluzir do primeiro vagalume, realiza resolutamente a travessia inversa, que o intimiza com o reino das sombras. Despede-se da transcendência inocente de outrora no simbolismo de atirar pela janela o chapeuzinho vermelho com a alta pluma, emblema do fervor ascensional do elemento aéreo, e, embora fisicamente atravesse a luminosidade do dia, espiritualmente encontra-se com peixes negros e defronta-se com lombos e garras (C, 149), em plena travessia da noturnidade auto-ocultante da terra. Aprofundando a interioridade anímica, a antiperipléiaviii, numa regressiva arqueologia do sensível, devolve o Menino à intimidade do aconchego materno, com uma intensidade e uma proximidade jamais experimentadas: O avião então estivesse parado voando – e voltando para trás, mais, e ele junto com a Mãe, do modo que nem soubera, antes, que o assim era possível (C, 149). Verticalizando o tempo e se entranhando nos mil casulos do espaço, a transdescendência conduz o Menino à antecedência do ser, à anterioridade de todo o nascer, em que ele e a mãe se abraçam em alguma longínqua pátria espiritual: Do jeito feito agora, no coração do pensamento. Como sentia: com ela, mais do que se estivessem juntos, mesmo, de verdade (C, 149). Compreende-se, agora, o primeiro subtítulo, “O inverso afastamento”: separando-se da mãe, dela mais se aproxima; afastando-se da terra, nela mais se aprofunda; atravessando o dia, no seio da noite se insere. Com este inverso afastamento, o Menino se inicia na orquestração ritmanalítica dos contrários.

Na casa dos tios, envolto no macio manto da noite, o Menino não consegue dormir. Em profunda consonância com o coração selvagem da noturnidade, entrevê concretamente o lento e denso passar da noite para o dia: O calado, o escuro, a casa, a noite – tudo caminhava devagar para o outro dia (C, 150). A travessia em demanda do núcleo germinal da noite é um trajeto irreversível; quem ultrapassa o perigoso meio-do-caminho já não se reconhece o mesmo ao cabo do percurso: Ainda que a gente quisesse, nada podia parar, nem voltar para trás, para o que a gente já sabia, e de gostava (C, 150). Claramente o Menino se apercebe da intensa comunhão que se estabelece entre ele e a noite, a ponto de se interrogar: Alguma coisa da noite a gente estivesse furtando? (C, 150) O miúdo companheiro, o boneco macaquinho, feito um muito velho menino (C, 150), como se fosse o próprio espírito muito idoso do Menino, comparticipa de toda a sua aventura espiritual, duplicando sua potência de ser e sua força de existir. Ao desfecho do descensus noturno, que é, simultaneamente um fecho e uma abertura, o Menino desperta fortalecido, como o iniciando que, tendo cruzado os tenebrosos umbrais da revelação, recebesse a divina dádiva da clarividência: E, vindo o outro dia, (...) o Menino recebia uma claridade de juízo – feito um assopro – doce, solta (C, 150). O doce assopro é o alento da presença incorpórea de seu próprio espírito ancião, que, através do boneco macaquinho, verdadeiro duplo espiritual do Menino, presenteia-lhe o desabrochar de um vigor que lhe desoprime o coração: Quase como assistir às certezas lembradas por um outro; era que nem uma espécie de cinema de desconhecidos pensamentos; feito ele estivesse podendo copiar no espírito idéias de gente muito grande (C, 150). Atingindo o vórtice da escuridão, o Menino alcança o ápice da luz. O ponto mais profundo do abismo é a porta que se abre para a vereda ascendente que conduz aos cimos. O caminho que desce é o mesmo caminho que sobe. O itinerário transdescendente, que demanda isomorficamente o cerne da terra, o centro da noite e o núcleo da alma, desemboca no aflorar do sol, que coincide com um terceiro nascimento do Menino: Mas, naquele raiar, ele sabia e achava (C, 150). O que se clarifica para a compreensão do Menino é que, permanecendo na rescendência dos acontecimentos, o homem jamais se liberta do sortilégio demoníaco, que se caracteriza por continuamente subverter as coisas bonitas ou boas, que aconteciam (C, 150). Para se tornar o inventor de sua própria alegria, o homem precisa incessantemente atualizar a potência de infância que vigora em sua alma, a fim de poder renascer das cinzas das horas.

No preciso instante da conversão da noite no dia, quando convivem os derradeiros fulgores noturnos e os primeiros rubores diurnos, aponta no céu, prenunciando o sol, o tucano. Para o Menino, o vasto pássaro é a apoteótica decifração do mistério da vida: E, de olhos arregaçados, o Menino, sem nem poder segurar para si o embrevecido instante, só nos silêncios de um-dois-três. No ninguém falar (C, 151). Detentor da luz e portador da aurora, o pássaro oferece ao Menino a decisiva lição de incoercível força ascensional. Emocionado, estando nos começos de chorar (C, 151), ele tudo adivinha, com a memória do espírito e a imaginação da alma: O Menino se lembrava sem lembrança alguma (C, 151). Unidas, a imaginação da memória e a memória da imaginação realizam uma arquiviagem onírica, em que a imaginação recorda o imemorial e a memória imagina o transreal. O ensinamento mais fundamental do tucano é o diário propiciar o levante do sol. Pontual e preciso, com seu garrido vôo matinal, ele revela, com seu mero existir para o sol, que é preciso empreender, diariamente, a mortal travessia das trevas noturnas, a fim de se poder raiar para a edificação diurna da sólida morada do espírito. O infalível empoleirar-se no cimo da mais elevada árvore a fim de orquestrar o prelúdio à emergência do luminar do mundo é o exemplo material e dinâmico da esperança ativa e passional, que não se limita a aguardar o milagre da bem-aventurança, mas se dispõe concretamente a engendrá-lo. O tucano não simplesmente espera que o sol aflore, mas verdadeiramente o arrebata do abraço da noite. Esta decidida lição de auto-determinação constitui o “trabalho do pássaro”. Antes do entendimento racional, que ainda não logra combinar com o vertiginoso instante a presença de lembrança da Mãe (C, 152), o Menino já aprende com o coração a se equilibrar, como a bola de ouro, no azul de um fio (C, 152). Esta vívida imagem representa o contraponto vital à balança infidelíssima (MA, 6), que duplamente se desequilibrara na primeira estória. Equilibrar-se sobre a tenuidade de um fio inconfiável é um hino de louvor à radical abissalidade da vida. Apanhando com o olhar cada sílaba do horizonte (C, 152), o Menino assimila o dourado êxtase do sol, que se rejubila precisamente por erguer-se sobre nada. Equilibrar-se no azul de um fio invisível é manter-se dinamizado na tensão harmônica do céu e da terra, da leveza transcendente e da gravidade transdescendente.

Com o prosseguir das visitas do tucano, aprofunda-se, no espírito do Menino, a alguma força que, nele, trabalhava por arraigar raízes (MA, 7), até desabrochar, em toda a sua plenitude, na convicção passional e entusiasmada que termina por propiciar a cura da mãe: Mas o Menino, em seu mais forte coração, declarava, só: que a Mãe tinha de ficar boa, tinha de ficar salva! (C, 153). A partir deste instante, o Menino obstinadamente inverte o movimento gravitacional que o vinha acabrunhando, transmudando-o num contumaz impulso ascensional: Mas, então, fosse o que fosse, o Menino, calado consigo, teimoso de só amor, precisava de se repetir: que a Mãe estava sã e boa, a Mãe estava salva! (C, 154). Completamente habitado do vôo do pássaro, plenificado do inadiável alvorecer, o Menino liberta-se das estreitas margens da circuntristeza que confinavam sua alegria, e elança-se em vôo altaneiro em busca do entusiasmo celeste. Nada mais pode detê-lo. Com o tucano se educara a concitar um novo dia; com o sol aprendera a erguer-se, com a precisão de uma flecha, contrariando a força de gravidade e transcendendo qualquer tendência catagênica. As adversas circunstâncias não mais o aterram. Pelo contrário, com sua insofreável propulsão transcendente ele reverte as desventuras, positivamente salvando a mãe de uma morte certa e inevitável: O Menino não quis entender nenhum perigo. Dentro do que era, disse, redisse: que a Mãe nem nunca tinha estado doente, nascera sempre sã e salva! (C, 154). Longe de ser a criança inocente de outrora, conturbada pelos acontecimentos desafortunados, ele é agora o velho Menino experiente, que ousa confrontar a tristeza e alcança suplantar a angústia, invencionando a sua própria alegria e construindo a sua própria certeza. Se, a princípio, influxos exteriores haviam convertido a doce ebriedade do elã ascensional na amarga ansiedade da queda gravitacional, agora, concluída a iniciação transdescendente, poderosos eflúvios interiores transmutam a trágica fatalidade da circuntristeza imanente na auspiciosa liberdade da alegria transcendente. O Menino assenhora-se de seu espírito e se transforma no dispensador de seu próprio júbilo existencial. A firme conversão do Menino é a realização vital do profundo ensinamento do pequeno Dito a Miguilim, quando de sua morte precoce na noite de Natal: - Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!...ix



O Menino consegue tornar-se a origem de sua própria Alegria a partir do momento em que é capaz de entender com o coração o hiato ao outro dia seguinte (C, 154). Quando a travessia da noite consuma-se como transdescendência da alma, completa-se a iniciação do Menino, que exsurge do caos pré-inicial, feito o desenglobar-se de uma nebulosa (C, 155). Concretiza-se o seu autêntico nascimento como um espírito singular e auto-propulsivo que pode assumir a paternidade de si próprio. A vivência passional da noite intimiza-o com a faceta noturna da alma e com o aspecto tenebroso da natureza humana. Claramente percebe que o tucano, o profeta da aurora, vem das sombras do mato, os impenetráveis (C, 154). Não somente o divulga, mas veementemente o festeja: Mas o Menino pensava que devia acontecer mesmo assim – que ninguém soubesse. Ele vinha do diferente, só donde (C, 154). O Menino identifica em si mesmo aquele eterno itinerário ambivalente: o tucano pode raiar, borrifando toda a luz, precisamente porque se oculta no seio da noite, onde vai haurir o seu esplendor. Mas este duplo percurso urânico-ctônico não se conquista de uma vez para sempre: é preciso re-inventá-lo dia a dia, noite a noite. O eterno retorno da força espiritual é justamente o que ensina o tucano em seu vôo e pouso e vôo (C, 152), que se alternam no tempo movente e vertente da interação ritmanalítica da vida e da morte. Tal como o tucano, também o sol, o áureo astro, brota daquela partezinha escura no horizonte, logo fraturada em fulgor e feito a casca de um ovo – ao termo da achãada e obscura imensidão do campo (C, 154). Tanto o colorido pássaro como o brilhante astro oferecem a pura luz da espiritualidade celestial porque provêm das ignotas regiões da incandescente materialidade abissal. O tucano e o sol são imperturbáveis em seu arrojo vital precisamente porque não temem morrer: ao contrário, bem querem o salto mortal que os devolve ao terrestre coração das trevas, onde nutrem o seu diário renascer.

Integrando, no próprio êxtase que festeja o triunfo sobre a gravidade, a dolorosa experiência da vertigem mortal suplantada pelo redescoberto elã ascensional, o Menino realiza em si mesmo o conúbio ritmanalítico que singulariza o elemento aéreo. Não mais percebe o mundo como o estranho sítio de um diabólico dualismo antagônico, mas concebe-o como o grandioso cenário dramático da tensão harmônica dos contrários, onde o céu e a terra, o dia e a noite, a vida e a morte, encenam complementarmente a misteriosa trama de ambigüidade que compõe a vida. Se, outrora, no primitivo alvorecer de sua existência, a jornada transcendente não passara de um efêmero deslumbramento ocasionado por circunstâncias externas, agora, com o despertar de sua maturidade, a transcendência apresenta-se como um bem próprio, uma conquista interior, propiciados pelo Menino mesmo, contrariando, inclusive, conjunturas exteriores. A ascensão não é mais a viagem física a bordo do avião, ou o precário arrebatamento insuflado pela leve vastidão aérea, mas um impulso central, que o impele a obter a vitória diária e instantânea sobre o nada, que para sempre ameaça aniquilar o ser. Ao júbilo inocente da primeira estória sucede-se, graças ao interlúdio da transdescendência, a alegria experiente da estória derradeira, quando o menino infante se converte no Ancião-Menino, que se iguala a seu próprio espírito transtemporal: Súbita seriedade fazia-lhe a carinha mais comprida (C, 155). Nada, nem ninguém, pode agora despojar-lhe o entusiasmo. Quando se dá conta do inesperado desaparecimento do boneco macaquinho, começa imediatamente a chorar, mas logo sobrepuja a dor e transcende a tristeza, com a compreensão superior e mais profunda que lhe aflora na alma: Não, o companheirinho Macaquinho não estava perdido, no sem-fundo escuro do mundo, nem nunca. Decerto, ele só passeava lá, porventuro e porvindouro, na outra-parte, aonde as pessoas e as coisas sempre iam e voltavam (C, 155). Duplo espiritual do Menino, o Macaquinho, que com o insólito desaparecimento recebe o estatuto maiúsculo de pessoa humana, com o mesmo M que singulariza o Menino, viaja para fora do espaço e do tempo até a outra-parte, que é o outro lado da vida (= morte), a outra face do ser (= nada, o sem-fundo escuro), a outra versão da luz (= treva), onde vai incessantemente haurir a sua fortuna e o seu porvir. Desdobrando-se espiritualmente no companheirinho, o Menino não cessa de ir e vir, de ser e de não ser, encenando em sua própria intimidade o drama da contemporaneidade da transcendência urânica e da transdescendência ctônica. No instante em que se torna capaz de realizar em si o eterno dinamismo de sístole e diástole da vida, ele advém a si mesmo e exsurge para o mundo: O Menino sorriu do que sorriu, conforme de repente se sentia: para fora do caos pré-inicial, feito o desenglobar-se de uma nebulosa (C, 155). O coquetismo ambíguox do ritmo ontológico de velamento e desvelamento encontra-se cifrado na derradeira sentença da estória: Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. E vinha a vida (C, 156). Abrindo-se em sorrisos e simultaneamente fechando-se em enigmas, muito dentro de si, o Menino finalmente vibra em consonância orquestral com a essencial ambivalência da vida. Ele que outrora vivera a angústia do suceder-se alternado do entusiasmo e da dor, que não logravam convergir num sentimento único e dual, revela-se agora capaz de fremir conjuntamente a ambigüidade de um sorrir fechado, ao mesmo tempo ocultando-se e desocultando-se. Ele não mais se abre candidamente ao mundo, mas descerra-se em sorrisos e encerra-se em mistérios, como se depreende de sua enigmática resposta ao tio, que afirmava já terem chegado ao destino: - Ah, não. Ainda não... (C, 156).

Se, na primeira estória, a balança infidelíssima pendera para o lado da imanência, impondo rígidas margens à precária alegria do Menino, a última estória garante a supremacia da transcendência, anunciada no título “Os cimos”, que promove a transcensão das margens e a aquisição da Alegria definitiva. Não se trata, porém, da transcendência abstrata e incorpórea, que se caracteriza pela fantasmagoria de um espírito sem corpo. A transcendência final conquistada pelo Menino é, em si mesma, um misto harmonioso de vigor urânico e de pendor ctônico. É a transcendência plena e carnal, pois, incluindo o movimento oposto, não se esfaz no embate com as circunstâncias contrárias, e incorporando a faceta material da vida, simultaneamente materializa o espírito e espiritualiza a matéria, que não mais se repudiam num dualismo psico-físico, mas se conciliam na ambivalência poética da alma. O símbolo inequívoco que assinala a vitória desta transcendência complexa e ambígua é o chapeuzinho vermelho de alta pluma, que, tendo sido inicialmente arremessado à terra numa recusa categórica da leviandade aérea (C, 154), volta como que por milagre às mãos do Menino, desamarrotado e aprumado, no preciso instante em que desaparece, nos abismos do tempo e nos vórtices do espaço, o companheirinho Macaquinho (C, 155). Os dois pequenos símbolos, - o bonequinho e o chapeuzinho, - recebem destinações complementares. Enquanto o primeiro empreende a incursão catabática, evocando a faceta noturna e misteriosa do Menino, o segundo acena para a excursão anabática, que divulga a face diurna e clarividente de sua natureza. A simultaneidade da anábase, cifrada na alta pluma do chapeuzinho, e da catábase, gravada no estranho desaparecimento do bonequinho, realiza-se, contudo, no próprio Menino, que encerra a estória, inaugurando-se para a Vida e para a Alegria, senhor de seu poder ascensional, mestre do coquetismo ambíguo de um sorrir fechado, que entreabre-se-e-entrefecha-se, em lusco-fusco, como o primeiro vagalume em meio às espessas trevas.




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